CÚPULA DAS AMÉRICAS

Obama e Raúl deixam para trás o conflito que dividiu a América

Cúpula verá primeira reunião de presidentes de EUA e Cuba desde a vitória dos Castro

Um cumprimento e uma breve conversa entre Barack Obama e Raúl Castro no início da VII Cúpula das Américas deram nesta sexta o primeiro sinal do degelo entre EUA e Cuba, adversários há mais de meio século. A reunião prevista para este sábado entre os presidentes, mais prolongada, deve certificar que a reconciliação é irreversível.

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A reconciliação entre os Estados Unidos e Cuba viverá neste sábado um momento-chave, a imagem com a qual os dois Governos tentarão garantir que o degelo entre os países, adversários há mais de meio século, é irreversível.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e seu colega cubano, Raúl Castro, se reunirão paralelamente à VII Cúpula das Américas, que começou sexta à noite e terminará hoje na Cidade do Panamá. A reunião, precedida de uma cuidadosa coreografia destinada a preparar a fotografia da reconciliação, é a primeira entre dois governantes de Cuba e EUA desde que, em 1958, Dwight Eisenhower e Fulgencio Batista se reuniram, também no Panamá.

Depois vieram a revolução castrista, a invasão fracassada de exilados cubanos, a crise dos mísseis e décadas de confronto e ressentimentos entre o regime castrista e a superpotência mundial. O Muro de Berlim caiu em 1989, mas a Guerra Fria no Caribe perdurou um quarto de século mais, até que em 17 de dezembro passado, Obama e Castro anunciaram o fim da inimizade com vistas ao restabelecimento das relações diplomáticas e, em última análise, da suspensão do embargo à ilha.

Não há política nem diplomacia sem gestos. A Cúpula das Américas, a primeira da qual Cuba participa desde que esse fórum começou a ser realizado em 1994, é a ocasião para que Obama e Castro falem com tempo e para que os fotógrafos e câmeras registrem para os livros de história um processo no qual os dois líderes apostam seus legados.

“Entramos em um novo território”, disse Ben Rhodes, conselheiro nacional adjunto de segurança na Casa Branca. “O motivo por que chegamos até aqui é que o presidente acredita que o enfoque baseado no isolamento fracassou.” Fidel Castro e seu irmão, Raúl, sobreviveram a 10 presidentes dos EUA; décadas de medidas punitivas não conseguiram mudar uma das últimas ditaduras comunistas do mundo.

As horas anteriores ao início da cúpula foram uma intensa corrida de mensagens, reuniões e gestos destinados a evitar que a encenação do degelo azedasse.

Na quarta-feira, antes de voar para o Panamá, Obama e Castro falaram pelo telefone. Era sua segunda conversa: a primeira, mais extensa, se desenvolveu em 16 de dezembro passado, horas antes do anúncio da nova política.

Na quinta-feira à noite, já no Panamá, o secretário de Estado John Kerry se reuniu com seu colega cubano, Bruno Rodríguez. Era a primeira reunião oficial entre os chefes das diplomacias norte-americana e cubana desde que, em 1958, John Foster Dulles e Gonzalo Güell se reuniram. Todas as comparações, a cada passo da normalização entre Washington e Havana, remetem a um antecedente de décadas. Ninguém economiza superlativos. Quando, em um encontro com a imprensa, um jornalista perguntou a Rhodes se a reunião do Panamá era comparável a momentos anteriores, como a visita de Nixon à China em 1972, o assessor de Obama respondeu: “Me parece uma comparação adequada”.

A reunião do Panamá é a primeira, mas não é a primeira vez que dois líderes norte-americano e cubano se cumprimentam desde o encontro de Eisenhower e Batista, quando Obama ainda não tinha nascido e Raúl Castro era um jovem revolucionário à sombra de seu irmão Fidel. Bill Clinton e Fidel Castro se encontraram brevemente durante uma reunião da ONU em Nova York, em 2000. E os próprios Obama e Castro trocaram saudações durante alguns segundos em Johanesburgo em 2013, durante o funeral de Nelson Mandela, o herói da reconciliação sul-africana.

Pode ser a primeira entre dois governantes de Cuba e EUA desde que, em 1958, Dwight Eisenhower e Fulgencio Batista se reuniram, também no Panamá

Uma das incógnitas às vésperas da cúpula era se Obama anunciaria a retirada de Cuba da lista de Estados que patrocinam o terrorismo. Os EUA incluíram o país na lista em 1982, durante a presidência de Ronald Reagan. A Administração Obama concluiu que restam poucos motivos para manter essa política.

Tudo está no ponto para que Obama proponha a retirada da lista, um gesto com um enorme potencial simbólico e prático, já que, ao se desfazer da qualificação de terrorista, Cuba poderá ter acesso a auxílios e financiamentos internacionais até então vetados. Toda cúpula internacional tem uma boa dose de teatro e dramatização, e uma das tramas paralelas é o momento de Obama anunciar a retirada da lista. Poderia aproveitar para fazê-lo na reunião com Castro ou esperar mais alguns dias. O passo seguinte no processo, também carregado de simbolismo, será a reabertura das embaixadas. As relações diplomáticas foram interrompidas em 1961.

Na coreografia do Panamá soaram notas discordantes. Os EUA reforçaram seus esforços, com uma visita a Caracas de um emissário de Obama, para evitar que a Venezuela arruinasse a harmonia. E o assédio, durante atos prévios da cúpula, de dissidentes cubanos por parte de ativistas filiados ao regime revelou que para Cuba uma coisa é o diálogo com os EUA e outra o diálogo com sua oposição interna.

A Casa Branca e o Departamento de Estado condenaram na sexta os atos violentos contra a oposição. E, no Panamá, Obama concordou com membros da dissidência em um ato da sociedade civil latino-americana.

A democratização de Cuba pode ser a consequência final de sua abertura aos EUA, mas não figura entre os objetivos imediatos de Obama, assim como não figurava entre os objetivos de Nixon quando viajou a Pequim para se reunir com Mao.

“Estamos comprometidos com o estabelecimento de relações diplomáticas, não com a mudança de regime”, disse Rhodes. “Os Estados Unidos não estão no negócio de derrubar governos na América Latina.” Para Washington, a virada na política cubana também é uma guinada na política latino-americana.

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