Tensão na Venezuela

Pressão internacional sobre Venezuela cresce antes da Cúpula das Américas

Vinte e um ex-presidentes divulgarão um comunicado contra o Governo de Nicolás Maduro

Maduro, em um evento em Cojedes, na Venezuela.
Maduro, em um evento em Cojedes, na Venezuela.

O presidente Nicolás Maduro participará de uma Cúpula das Américas pela primeira vez como Chefe de Estado venezuelano. A reunião de mandatários acontecerá a partir da próxima sexta-feira no Panamá, enquanto parece tomar corpo uma intenção de escrutínio internacional sobre a crise socioeconômica e política que se manifesta na Venezuela. O Governo chavista resiste a permitir que isso aconteça. Mas comparece em desvantagem ao encontro no Panamá, também pela primeira vez, com pouco mais a favor que sua dura retórica antiamericana e as quase 10 milhões de assinaturas que diz ter recolhido na campanha contra as sanções que Washington aplicou em março a sete funcionários venezuelanos.

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Vinte e um ex-presidentes ibero-americanos anunciaram que divulgarão na quinta-feira na capital panamenha um comunicado conjunto para denunciar “a alteração democrática” da Venezuela. Na chamada Declaração do Panamá, o grupo de ex-mandatários – entre os quais se encontram os colombianos Andrés Pastrana, Belisario Betancur e Álvaro Uribe, os costa-riquenhos Laura Chinchila, Rafael Calderón, Miguel Ángel Rodríguez e Luis Alberto Monge, o espanhol José María Aznar e o chileno Sebastián Piñera – pedirá aos chefes de Estado das 35 nações reunidas na Cúpula que se empenhem em buscar uma solução para a crise venezuelana “que respeite os princípios constitucionais e normas internacionais”.

A iniciativa não tem precedentes tanto pela qualidade dos signatários, como pela ocasião em que se apresenta. O grupo de líderes latino-americanos também pedirá a libertação dos presos políticos e a restituição da autonomia dos poderes em vista das eleições parlamentares deste ano, ainda sem data definida.

Outra preocupação para Caracas é a reunião, na quarta-feira, entre o presidente Barack Obama e os representantes dos Governos do Caribe. Há 15 anos, as nações antilhanas – sobretudo as do Caribe Oriental, de língua inglesa ou francesa – são uma base de apoio político para o regime bolivariano em fóruns internacionais. Mais que por afinidade ideológica, estas nações se alinharam com o chavismo em troca do generoso subsídio dado na fatura petroleira por meio de organismos como a Petrocaribe. Mas Caracas atravessa dificuldades econômicas e Washington se prepara para oferecer alternativas energéticas a seus pares do Caribe.

Representantes de organizações não governamentais venezuelanas também viajarão ao Panamá na quinta-feira para divulgar a situação dos direitos humanos no país. O Governo de Maduro promove há vários dias através de seus meios de comunicação uma campanha de desprestígio contra os ativistas, a quem se refere como a “Comitiva da CIA” na Cúpula.

Além disso, 28 organizações de direitos humanos de todo o continente (entre elas a Human Rights Watch, a Anistia Internacional, a Transparência Internacional e a Comissão Internacional de Juristas) emitiram na terça-feira um pronunciamento exigindo que a Venezuela cesse “a perseguição contra defensoras e defensores dos direitos humanos” e pedindo aos Governos participantes da Cúpula das Américas que “exijam do Governo de Nicolás Maduro garantias de que as defensoras e os defensores de direitos humanos possam realizar seu trabalho sem medo de represálias”.

Não se sabe até que ponto os mandatários reunidos no Panamá vão se sensibilizar com a pressão desses movimentos. Mas outro aliado de Caracas deu um sinal de mudança na comunidade internacional: o Governo do Uruguai, sensível às posições do chavismo desde que a Frente Ampla está no poder. Seu vice-presidente, Rodolfo Nin, qualificou de “enormemente preocupante” a situação dos direitos humanos na Venezuela.

As esposas de Leopoldo López e Antonio Ledezma, os mais proeminentes líderes da oposição venezuelana presos, estarão no Panamá durante a Cúpula. Na terça-feira, a defesa de López se preparava para informar a juíza do caso em Caracas sobre a incorporação do ex-presidente espanhol, Felipe González, como consultor técnico da equipe de advogados.