ajuste fiscal no brasil

Após ruído, Levy diz ter “afinidade” com Dilma e defende ajuste fiscal

Ministro da Fazenda promete a empresários que arrocho na economia será "rápido"

Joaquim Levy, ministro da Fazenda.
Joaquim Levy, ministro da Fazenda.

Quando a resistência do corpo está baixa, qualquer ventinho vira resfriado e, se não fechar a janela, pode evoluir para uma pneumonia. É mais ou menos isso o que acontece com o Governo Dilma neste seu segundo mandato. A bola da vez, ou o vento da vez, é seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que participou de um encontro fechado com alunos da Universidade de Chicago e usou uma frase cuja leitura literal gerou interpretações dúbias e ruídos com o Palácio do Planalto.

Questionado por um dos presentes sobre as mudanças em curso do Governo depois dos quatro anos do primeiro mandato que geraram efeitos questionáveis para a economia, ele responde, inicialmente, que a própria presidenta já havia dito que algumas fórmulas adotadas estavam exauridas. O trecho da discórdia, porém, destacado pela Folha de S. Paulo - que teve acesso à gravação do encontro - neste sábado, é a parte da sua resposta que diz: “Há um desejo genuíno da presidenta de fazer as coisas certas, às vezes não pelo caminho mais fácil, e não pelo caminho efetivo, mas há um desejo genuíno. Isso é parte do nosso aprendizado”, reforça.

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O ministro enviou nota para os meios de comunicação alegando que não houve interpretação correta do que disse e divulgou a íntegra da gravação do encontro no site da Fazenda. Nos quase 27 minutos, ouve-se um Levy descontraído, explicando por que assumiu o cargo - "para preparar o Brasil para um novo ciclo de investimento" - e apontando o que há favorável para investidores hoje, como o programa de concessões em infraestrutura, que pode atrair investimentos.

Nesta segunda, Levy se reuniu com 600 executivos e empresários para defender o ajuste fiscal e pedir apoio ao receituário amargo desse ajuste. Falou do assunto, dizendo que pegaram uma parte de uma frase na conferência, que abriu espaço para  “um banzé", mas que todos poderiam fazer uma escolha.

"As pessoas podem escolher a parte que eu falei, de que este governo tem o genuíno interesse de endireitar o que esta errado, ou podemos pegar a segunda parte [da frase] e armar um grande banzé em cima de uma observação, que é quase um truísmo, que na vida real, muitas vezes se trabalha sob pressões e, quando é assim, nem sempre as coisas acontecem do modo de que gostaríamos", continuou.

Levy reforçou o recado de que tudo era questão de escolha. “Podemos escolher acreditar de que temos uma oportunidade genuína de acertar as coisas, ou a gente pode se perder pelo simples fato de que na vida real - nas empresas também é assim - tem milhões de variáveis e a gente nem sempre diante das pressões nem sempre consegue fazer o ideal que a gente deseja”.

O ministro reforçou várias vezes a mensagem de que não há divergências com Dilma. "Há extrema confiança nos membros do Governo. Somos um time liderado pela presidenta e estamos todos jogando juntos." Completou: "Não há desafinação. Trabalhamos juntos para conquistar os mesmos objetivos."

Enquanto Levy se encontrava em São Paulo no almoço com os empresários, a presidenta Dilma Rousseff estava em Capanema, no Pará, numa cerimônia de entrega do programa Minha Casa Minha Vida. De lá, a presidenta falou sobre o episódio com Levy. "Não tenho o que falar sobre Levy. O que o Levy falou está dentro de um contexto. Se você pegar fora do contexto, vai entender distorcido", disse ela.

Levy, por sua vez, ficou por volta de duas horas no almoço, promovido pelo grupo Lide, para explicar a mudança de cenário que está obrigando o país a estabelecer um duro ajuste que inclui a redução de gastos públicos. "O ajuste vai parecer muito duro, mas será rápido", garantiu o ministro, que reiterou não haver mais espaço para redução de tributos e isenções como as que foram implementadas no primeiro mandato de Dilma.

No evento, liderado pelo empresário João Dória Jr., ficou claro que os 600 representantes do setor privado que estavam presentes, dão um voto de confiança ao ministro Levy, mas não ao Governo Dilma. Numa pesquisa respondida pelos presentes, feita durante o evento, a maioria disse esperar resultados piores para seus negócios neste ano. E pelo menos 25% dos presentes disseram que devem demitir ao longo de 2015.

Entre as prioridades do país, eles apontaram a necessidade de solucionar a crise política, uma questão que apareceu por primeira vez em pesquisas do gênero.