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Copiloto tinha problemas de visão e deveria renovar sua licença em junho

Jovem, que faleceu aos 27 anos, já teve sua permissão para voar retirada antes

Andreas Lubitz, correndo uma maratona em setembro de 2009.
Andreas Lubitz, correndo uma maratona em setembro de 2009.

O caminho cheio de esforços que Andreas Lubitz tinha traçado nos últimos anos vinha dando frutos. Aos 27 anos, o mundo parecia sorrir para ele. Tinha um bom emprego, uma namorada com quem dividia um apartamento de 120 metros quadrados em um elegante bairro de Düsseldorf. E, segundo a revista alemã Focus, nas últimas semanas tinha até comprado dois Audis. Um seria para ele e o outro, para sua namorada, com quem, segundo a imprensa francesa, Lubitz pretendia se casar no ano que vem. Esportivo, jovem e com amigos, parecia a imagem do sucesso. Mas ele tinha consciência de que tudo isso era apenas uma fachada.

Percebeu que seus problemas de saúde impediriam seu grande sonho, que era ser capitão de voos de longa distância na Lufthansa

Na realidade, Lubitz tinha muitos problemas, mas todos poderiam se resumir em um: tinha cada vez mais certeza de que não poderia realizar seu sonho de chegar a ser capitão na Lufthansa. Sua saúde era um obstáculo em seu caminho. Para uma pessoa como ele, tão obcecado pela aviação a ponto de encher seu quarto com fotos de aviões, isso era mais do que ele podia suportar. Vários amigos confirmaram que, desde que tinha 14 anos, quando começou a frequentar o aeroclube da cidade alemã de Montabaur, voar era o mais importante para ele. “Era um freak dos aviões. Se perdesse sua licença, sua vida não teria mais nenhum valor”, afirma um conhecido.

E essa perspectiva parecia cada vez mais próxima. As graves depressões sofridas por Lubitz o obrigaram a seguir um tratamento por um período total de um ano e meio, o que às vezes o forçou a interromper seu treinamento como piloto e voltar a começar de um nível inferior ao que lhe correspondia. A autoridade médica responsável por determinar a idoneidade dos pilotos para trabalhar (a Aeromedical Center) já tinha detectado uma depressão em Lubitz, motivo pelo qual tinha retirado temporariamente dele a permissão para voar. Mais tarde, a entidade avaliou uma melhora em seu estado e devolveu a ele sua licença. Essa capacitação é dada pelos médicos, que não comunicam à companhia o motivo de suas decisões para poder preservar a privacidade dos pacientes. Abre-se agora na Alemanha um debate sobre se, em determinadas ocasiões, é necessário restringir a obrigação médica de manter silêncio.

Apesar de seus problemas de saúde, no outono de 2013, Lubitz conseguiu um emprego na Germanwings, a companhia aérea de baixo custo da Lufthansa. Tudo começou muito bem, mas recentemente a situação começou a ficar cada vez mais complicada para o jovem copiloto. Sua saúde piorava de maneira palpável e os prazos o pressionavam: ele deveria renovar sua licença médica entre junho e julho deste ano.

Incapaz de aceitar a evidência, pediu a opinião de vários médicos, entre eles um psquiatra e um neurologista. Os dois chegaram à mesma conclusão: Lubitz não estava em condições de voar, mas ele não comunicou isso à empresa. Os policiais que revistaram seu apartamento em Düsseldorf encontram os atestados médicos rasgados, segundo informou a procuradoria-geral desta cidade do oeste da Alemanha. Os investigadores também acharam vários medicamentos psiquiátricos que comprovam “uma doença psíquica severa”. Um interessante fato adicional veio à tona na sexta-feira: o copiloto sofria de um problema de visão que poderia colocar em risco sua capacidade de trabalhar, segundo afirmaram ao The New York Times duas fontes próximas à investigação, que não descartam que a doença seria de natureza psicossomática. A resposta diante de todas essas dificuldades foi ao mesmo tempo radical e trágica: acabar com sua vida e com a de 149 vítimas inocentes que viajavam na terça-feira no voo 4U-9525 de Barcelona a Düsseldorf. E o fez nos Alpes franceses, seu lugar favorito para voar.

Pessoas mais íntimas de Lubitz já sabiam de seus problemas mentais. Sua ex-namorada confirmou à rede de televisão francesa iTele que o co-piloto sofria de “uma grave depressão”. Mas muito mais substanciosas são as declarações que uma namorada anterior fez na sexta-feira ao tabloide Bild. “Um dia farei uma coisa que mudará todo o sistema. E então todo mundo saberá meu nome e vai se lembrar”, dizia o copiloto à aeromoça com quem saiu durante cinco meses em 2014. A jovem, que prefere manter o anonimato, não tem nenhuma dúvida sobre os motivos que levaram o ex-namorado a derrubar o Airbus A320: “Ele fez isso porque percebeu que seus problemas de saúde impediriam seu grande sonho, que era ser capitão de voos de longa distância na Lufthansa”.

A imprensa alemã afirma que Lubitz sofria de uma depressão ou de um burnout (estresse ocupacional crônico), mas será que esses distúrbios podem realmente explicar seu comportamento? “É impossível dar um diagnóstico preciso sem conhecer o caso, mas o ocorrido nos faz pensar em uma pessoa que sofria de depressão associada a um transtorno da personalidade do tipo narcisista. Entre esses tipos de pacientes nota-se uma taxa elevada de suicídio, e é comum que queiram cometer o ato de maneira ‘grandiosa’, de uma forma mais ostentosa, sádica e calculada”, afirma Samuel Martínez, psiquiatra espanhol que trabalha no hospital Johanniter, na cidade alemã de Oberhausen.

A personalidade obsessiva de Lubitz deixa atrás de si um rastro de vítimas e muitas famílias devastadas, entre elas, a sua própria. Todos eles, e toda a Alemanha, observam horrorizados os acontecimentos desta semana.

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