Tribuna
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A Ordem Executiva de Obama

Ofereceu-se a Maduro, numa bandeja de prata, o inimigo externo com o qual sonham todos os ditadores

O presidente dos EUA, Barack Obama, que impôs sanções à Venezuela.
O presidente dos EUA, Barack Obama, que impôs sanções à Venezuela. KEVIN DIETSCH (EFE)

A Venezuela é um país tão polarizado que qualquer decisão, qualquer ideia, dá lugar a discussões apaixonadas, insultos e desqualificações. Não é surpresa, portanto, que a recente Ordem Executiva de Barack Obama sobre sanções a sete funcionários do Governo de Nicolás Maduro tenha provocado uma infinidade de comentários.

Começando pelos extremos, a linguagem dessa resolução retomou a retórica patrioteira e anti-imperialista, tirando do baú de recordações um discurso contra “a planta insolente do estrangeiro” pronunciado pelo ditador Cipriano Castro há mais de um século. No outro lado temos admiradores incondicionais dos EUA que, esquecendo toda evidência histórica, afirmam que os presidentes norte-americanos “não dão ponto sem nó” e devem possuir dados horríveis sobre o chavismo que os simples mortais ignoram.

Entre essas duas opiniões extremas há muitos matizes que vão da aceitação da linguagem como uma “necessária formalidade jurídica” até a afirmação do Cardeal da Igreja Católica garantindo que a Venezuela não apresenta nenhuma ameaça grave para os EUA. O Professor venezuelano Víctor Mijares, da Universidade de Hamburgo, baseia-se nas muito peculiares declarações do General Kelly, Chefe do Comando Sul, para aventurar a ideia de que os EUA, com a aparente estupidez de suas declarações, podem estar tentando evitar uma saída brusca de Maduro. Efetivamente, segundo o General Kelly, uma interrupção das remessas de petróleo venezuelano à Petro Caribe pode significar uma catástrofe econômica para certos países e um fluxo inconveniente de imigrantes para os EUA. Portanto, Maduro é praticamente um mal necessário.

O interessante da discussão sobre as medidas tomadas por Obama é que ela não se limita à Venezuela

Baseando-se em declarações muito similares do Secretário de Estado John Kerry, o comentarista espanhol German Gorraiz López chega a conclusões opostas: as sanções fazem parte da “guerra econômica” denunciada por Maduro e têm como objetivo acabar com a Petro Caribe e com a influência do chavismo na região. Outra tese que se afasta das explicações convencionais foi exposta por uma jornalista normalmente bem informada, cujas fontes lhe disseram que Netanyahu, em sua recente visita a Washington, deu dados precisos sobre as jazidas de urânio venezuelanas em mãos iranianas, concluindo que o Governo chavista significa uma ameaça à paz mundial.

O interessante da discussão sobre as medidas tomadas por Obama é que ela não se limita à Venezuela. Talvez as explicações mais completas sobre o perigo que pode representar o governo atual para a estabilidade regional tenham sido aquelas escritas por Carlos Alberto Montaner, citando a lavagem de dinheiro, o narcotráfico e os contatos com o terrorismo islâmico. Mas Montaner acrescenta que a medida “só serve para que Maduro construa um pretexto nacionalista, aumente a repressão e desperte o vespeiro latino-americano”.

Outros especialistas e políticos de vários países opinaram sobre o assunto, centrando-se principalmente na linguagem da resolução. Esses especialistas estão perfeitamente a par das exigências burocráticas ou legais necessárias para impor sanções, entretanto avaliam que a linguagem foi desnecessariamente áspera, lembrando os tempos passados do intervencionismo e do Big Stick (“Grande Bastão”). Michael Schifter, do Diálogo Interamericano, pensa que “a inconfundível matiz da guerra fria da linguagem de Washington, embora seja um mero formalismo, é infeliz... Esse tipo de linguagem faz com que os líderes da América Latina se sintam menos dispostos a pressionar Maduro pelos problemas da Venezuela”.

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Na Europa, Peter Surrupie –do Instituto Ibero-americano de Berlim– opina que Obama “torpedeia sua própria política: busca reduzir suas fricções com Cuba e, consequentemente, com os outros governos da América Latina. Não posso imaginar que lhe convenha acirrar os ânimos na Venezuela”. O Chanceler da Espanha rechaça as medidas e, naturalmente, a Unasul, a Alba e muito possivelmente a OEA se indignam, chamando Obama para revogar as sanções. O Presidente Morales, da Bolívia, exige que Obama “peça desculpas a toda a América Latina”. Quanto aos franceses, opinam que a mensagem da UNASUL expressa claramente uma derrota para os EUA.

Para resumir, depois de tantas e tão variadas explicações, como venezuelana continuo acreditando que as sanções são necessárias. Não ao país, nem tampouco a sete indivíduos de segunda categoria. Queria que o mais alto escalão fosse castigado, os culpados pelas violações aos Direitos Humanos: aqueles que ordenam as torturas e o isolamento de Leopoldo López e a prisão de Antonio Ledezma, aqueles que conceberam centros de tortura como a Tumba para encerrar presos políticos, aqueles que redigiram a lei que permite usar armas de guerra contra manifestantes pacíficos. Queria que fossem punidos os corruptos poderosos, os que transformaram a PDVSA em caixa de um partido e de sua própria família, o Presidente da Assembleia Nacional –que foi apontado como chefe de carteis de droga–, o antigo companheiro de Chávez dono de haras e de propriedades fastuosas na Flórida.

Queria ver nessa lista muito mais gente, com maiores responsabilidades no desastre que vivemos. Mas ao mesmo tempo estou convencida de que ao usar a linguagem burocrática da Ordem Executiva não foram levadas em conta as reações imediatas que provocaria numa América Latina onde o antiamericanismo está sempre à flor de pele. Com expressões desproporcionadas, ofereceu-se a Maduro, numa bandeja de prata, o inimigo externo com o qual sonham todos os ditadores. As consequências serão pagas pela oposição. Veremos sem dúvida mais insultos, maior repressão e talvez até uma suspensão das eleições parlamentares porque estamos “em guerra com o Império”.

Maruja Tarre é professora da Universidade Simón Bolívar. Twitter @marujatarre.

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