Tribuna
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A crise do Brasil em um botequim de Copacabana

De golpistas e patricinhas a bolcheviques, um botequim de Copacabana é a melhor amostra da panela brasileira em tempos de crise

Espetando com raiva os coraçõezinhos de galinha que servem de tira-gosto para um chorado uísque duplo, Lili Carabina, como é conhecida pelos mais velhos na noite de Copacabana, levanta e discursa, em pleno salão do Galeto Sat´s: “No Brasil, traficante cheira, puta goza, cafetão se apaixona e o dólar paralelo é mais baixo que o dólar oficial.”

Dá água na boca. Não exatamente a filosofia que escuto, mas os coraçõezinhos. São os melhores, mais fiéis e bem-assados do mundo. Lili tem este apelido em “homenagem” a uma célebre bandida de uma quadrilha cuja marca era se fantasiar com requinte para os assaltos a bancos nos anos 1970-80. Morreu em 2.000, no Rio de Janeiro. Vale a pena ler o livro em que Aguinaldo Silva, autor da novela “Império”, formado na escola dos grandes repórteres policiais, escreveu sobre esta personagem.

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A primeira vez que ouvi tal frase, repetida agora pela loiraça Lili “cover” ,foi no filme “Rio Babilônia” (1982), dirigido por Neville d´Almeida. O Tim Maia, eterno síndico da nossa massa falida, dizia algo parecido. A frase realmente só cai bem e soa autêntica na boca nervosa de profissa na madruga.

Mal Lili, inflamada pelo atual momento do país, berrou o seu mantra cívico, e até o Vanildo, um rapaz mudo do prédio vizinho, apareceu para dar o seu pitaco sobre os paradoxos brasileiros. Isto é Copacabana. “No Brasil, traficante cheira, puta goza, cafetão se apaixona, o dólar paralelo é mais baixo que o dólar oficial e pobre é de direita”, escreveu em um guardanapo uma das tantas variações sobre o mesmo tema. Lili achou graça e pediu mais uma dose.

Vanildo ainda escreveu, em outro guardanapo: “O Brasil é bom, pena que vivemos essa merda de agora, será que o Lula volta?”.

O Brasil é bom

Em uma única noite de botequim na madrugada de Copacabana se discute mais política do que em séculos e séculos na Grécia Antiga

O Brasil é bom, o Brasil é bom... O eco chegava até a boca do túnel da Sá Ferreira. Inevitável lembrar do título do melhor livro sobre o caráter e os humores do brasileiro que li nos últimos anos: “O Brasil é bom”, do mineiro André Sant´anna (Companhia das Letras). O conto “Nós somos bons” é obra-prima da narrativa política. Sob a lente da classe média-média, passa pelo Lula “nordestino ignorante que não sabe falar inglês”, pela ilusão Collor da abertura dos portos etc.

Será que você, amigo de qualquer pendor ideológico, se identificará com o “cidadão de bem” que arrota impropérios contra os direitos humanos? Leia. “No Brasil, traficante cheira, puta goza...” Só sei que não se falou mais de outra coisa na madrugada de Copacabana. O hoje abstêmio Fausto Fawcett, bardo carioca criador de grandes personagens como a Kátia Flávia, quase desce para um conhaque.

“No Brasil, traficante cheira, puta goza, cafetão se apaixona e tem coxinha que defende liberdade de expressão pedindo o golpe dos milicos”, emendou uma daquelas lindas neo hippies que mereceria do cronista Nelson Rodrigues o rótulo de estagiária de calcanhar sujo. A mesa dela é a mais inflamada. O Galeto Sat´s, neste exato momento, parece o Palácio de Inverno tomado pelos bolcheviques na URSS de 1917. Com direito a coraçõezinhos de galinha e cachaça em vez de vodka.

Lili Carabina, por exemplo, é golpista declarada. Tem saudade da Ditadura. “Havia moral, respeito, nada dessa roubalheira de hoje na Petrobras”

Ao avistar este cara Bozó vagabundo que vos escreve –eventual prestador de serviços à televisão brasileira- a turma da mesa bolchevique subiu a hashtag, no grito, #GloboGolpista. Uma onda. A oposição reagiu com uma vaia e gritos de “Fora Dilma”.

Legalidade brizolista

Óbvio que havia um autêntico brizolista, daqueles da turma do socialismo moreno da Cinelândia, nessa viagem ao fim da noite carioca. Há um brizolista, cotovelos da espera sebastianista sobre  a fórmica do balcão do pé-sujo, em qualquer botequim do Brasil exatamente nessas 2h15 da madruga. O tio lembra, de cara, o episódio em que o “Jornal Nacional”, na voz bíblica de Cid Moreira, foi obrigado pela Justiça a divulgar um “direito de resposta” do ex-governador Leonel Brizola.

No repertório político do brizolista, uma palavra faz eco onde quer que ele esteja: Legalidade. Apostei um chope com o garçom que o nosso amigo trataria do tema logo que fosse abordado. Não deu outra: “Pela legalidade, tchê”, discursou o fã de Leonel. Por coincidência com uma camisa azul-brizola, naquele mesmo tom que o político gaúcho usava para falar na tevê em outros momentos difíceis do país.

“Aquela vaca...”

Um botequim de Copacabana é a melhor amostra da panela brasileira. Naturalmente a turma que vai à marcha de domingo contra Dilma também estava lá. Nas suas três variações: os que pedem o golpe, especificamente o golpe militar; os favoráveis ao impeachment e os ditos “apenas indignados” que irão protestar, é legítimo, contra a presidente.

Lili Carabina, por exemplo, é golpista declarada. Tem saudade da Ditadura. “Havia moral, respeito, nada dessa roubalheira de hoje na Petrobras”, confessa, tom dramático, ao garçom Ceará II. “Pena que os generais mais inteligentes estejam todos de pijama, aqui mesmo no bairro, mal têm grana para o Viagra”, ela diz.

“Aquela vaca”, brada um bacana que me lembra, no seu jeitão cafa, o Pedro Barusco, o ex-gerente da Petrobras, que no seu depoimento à CPI, me remeteu não ao inocente Palhares, o canalha de baixa-patente da obra de Nelson Rodrigues. Não, não o pobre Palhares. Lembrou sim a naturalidade e frieza do doutor Werneck, o milionário que “compra um marido” , por um gordo cheque, para casar com a filha que havia perdido a “honra” da virgindade. Está na peça “Bonitinha, mas ordinária”. Uma história de fazer o filme argentino “Relatos Selvagens” parecer conto de fadas.

É, amigo, em uma única noite de botequim na madrugada de Copacabana se discute mais política do que em séculos e séculos na Grécia Antiga. O ambiente, mesmo com todas aquelas flamejantes criaturas noturnas, consegue ser mais civilizado do que em cinco minutos no Twitter ou Facebook. Com ou sem protesto, bom final de semana a todos. Vá à marcha de domingo, mas não me chame (rs). Viva a democracia e até sexta.

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