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Em meio à crise política, quem se lembra das Olimpíadas de 2016?

Organizadores estudam realizar um evento para 'esquentar' o clima pré-olímpico. Avanço da Operação Lava Jato já alcança os Jogos

Imagens aérea do campo de golfe na Barra de Tijuca.
Imagens aérea do campo de golfe na Barra de Tijuca. Getty

Os organizadores dos Jogos Olímpicos do Rio 2016 estudam qual evento organizar para esquentar o ambiente olímpico, em abril, quando faltarão somente 500 dias para o início dos primeiros Jogos realizados na América Latina. A atmosfera é completamente diferente da de um ano atrás, ao ponto do vice-presidente do Comitê Olímpico Internacional John Coates (aquele que há um ano falou dramaticamente sobre os “piores” preparativos da história) referir-se na última semana de fevereiro, em visita à cidade maravilhosa, ao “grande progresso” feito pelo Comitê Organizador e, consequentemente, ao “relaxamento” pessoal que sentia. Existem atrasos nas obras, mas é unânime o fato de que as instalações serão concluídas a tempo. A insegurança da população continua, mas o Rio já demonstrou na Copa do Mundo que sabe como “blindar-se” para não estragar uma bela festa. Na realidade, não se fala muito das Olimpíadas no Rio de Janeiro: a preocupação sobre tudo o que lhes rodeia é maior.

Ainda que poucos mencionem o assunto, a expansão da onda da Lava Jato também alcança os Jogos

O Rio vai gasta 39 bilhões de reais nos Jogos, uma quantidade que as autoridades defendem como um investimento transformador do legado urbano, mas gera fortes críticas de movimentos sociais à medida que o país flerta perigosamente com a recessão e o Governo realiza um ajuste fiscal urgente, descumprindo suas promessas eleitorais. Essa segunda grande demonstração de prestígio nacional (após a organização da Copa) encontra um país psicologicamente desgastado e polarizado pelas últimas eleições, muito diferente do gigante eufórico que em 2009 arrebatou a candidatura de Madri pelas mãos de seu então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. As duas marcas, a de Lula e a do Brasil, perderam solidez frente ao implacável avanço da Operação Lava Jato, que desmontou uma gigantesca rede de corrupção dentro da maior empresa pública da América Latina, a Petrobras, hoje a petrolífera mais endividada do mundo, e assedia perigosamente o Partido dos Trabalhadores.

Ainda que poucos mencionem o assunto, a expansão da onda da Lava Jato também alcança os Jogos. Pelo menos sete construtoras envolvidas no escândalo (Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Mendes Júnior e Carioca) participam de onze projetos considerados essenciais para os Jogos, tanto em matéria de instalações (Parque Olímpico da Barra ou a Vila Olímpica, por exemplo) como de mobilidade urbana (Linha 4 do metrô). Diversos especialistas consultados pelo EL PAÍS opinam que em algum momento dos próximos 18 meses essas companhias podem ter sérias dificuldades para manter sua saúde financeira e o ritmo das obras. O prefeito da cidade, Eduardo Paes, insiste que até agora não ocorreu “nenhum problema”.

As autoridades já reconheceram que precisariam de mais uma década para cumprir o compromisso de limpar 80% da poluição que transforma algumas áreas da Baía de Guanabara em um esgoto com eletrodomésticos inteiros e animais em decomposição. O COI mudou de tom e agora elogia o esforço brasileiro, apesar de ter demonstrado sua preocupação com o campo de golfe, o velódromo e a pista de hipismo. “O Rio está entrando no período mais intenso, deve realizar 21 eventos-teste”, afirmou a responsável pela Coordenação do COI, Nawal El Moutawakel: “Precisam ser mais intensos para conseguir terminar a tempo”.

O comitê organizador transmitiu em seus relatórios ao COI que o apoio aos Jogos é forte em todo o território brasileiro, mesmo que algumas inciativas sobre o começo das vendas de ingressos ou a apresentação das mascotes oficiais não tenham causado um entusiasmo muito grande. Durante a visita do COI ocorreram protestos em frente ao hotel onde se alojou o presidente do órgão, o alemão Thomas Bach.

A presidenta Dilma e o prefeito Eduardo Paes recebem Bach, presidente do COI, no Rio, no último dia 1º de março.
A presidenta Dilma e o prefeito Eduardo Paes recebem Bach, presidente do COI, no Rio, no último dia 1º de março. AFP

O prefeito Eduardo Paes tenta convencer as maiores empresas do Rio a fechar seus escritórios nos 16 dias das Olimpíadas e pretende, assim, que o tráfego não ofusque uma festa que terá até mesmo finais disputadas à meia-noite em Copacabana. Por enquanto, os rostos das autoridades não estão muito alegres, como pôde ser visto no domingo na comemoração oficial dos 450 anos da cidade, quando a presidenta Dilma Rousseff e alguns supostos aliados encenaram o esfriamento de suas relações. Inauguraram o novo Túnel Rio 450, renovado (com motivos olímpicos) para o futuro Porto Maravilha. Renata, garçonete de um concorrido bar próximo, ri ao ser perguntada se fala muito sobre as Olimpíadas com as amigas. “Gringo, tenho muito mais interesse em saber se até lá a Dilma continuará sendo presidenta”.

O “odioso” campo de golfe

Depois de 112 anos de ausência, o golfe voltará aos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. É justamente este esporte, entretanto, que causa mais resistência na população carioca após a decisão municipal de construir um novo campo (existem outros dois, mas não eram “adequados”) em uma Área de Proteção Ambiental. Diversas organizações mobilizaram-se contra a obra, que custa 52 milhões de reais e prevê também a construção de 140 apartamentos de luxo. O campo recebeu tentativas de ocupação de integrantes do movimento minoritário Occupy Golf.

Eduardo Paes, prefeito do Rio, enfrenta uma investigação judicial por possível tráfico de influências. O assunto alcançou tal dimensão que Paes afirmou na última semana de fevereiro “odiar” o fato de ter de construir as instalações. “Nunca o teria feito, nunca”, disse ao jornal Globo. Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional, reagiu com ironia: “Me surpreende um pouco, porque realmente pressionou para que fosse construído”. Bach acrescentou que o campo não utilizará reservas de água potável e que não custará um centavo ao erário público.

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