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Papa recebe transexual espanhol em audiência privada em Roma

Homem perguntou “se havia lugar” para ele na casa de Deus e Francisco o abraçou

O Papa, durante uma missa na basílica em 25 de janeiro. Ampliar foto
O Papa, durante uma missa na basílica em 25 de janeiro. AFP

O papa Francisco recebeu no sábado, 24 de janeiro, um transexual espanhol, Diego Neria Lejárraga, de 48 anos, depois que este entrou em contato com o Sumo Pontífice para pedir-lhe apoio diante da rejeição e da incompreensão que sofre por conta de sua mudança de sexo, segundo publicação do jornal Hoy da Estremadura, confirmado por fontes da igreja.

O encontro, do qual não existem imagens por ter sido uma audiência privada na residência papal de Santa Marta, ocorreu depois de Neria Lejárraga, religioso desde criança e católico praticante, enviar uma carta ao Papa na qual lhe contou a rejeição que sofreu em sua localidade natal, Plasencia (Cáceres), de 40.000 habitantes, a qual regressou após submeter-se a uma operação de cirurgia para mudança de sexo.

Diego Neria Lejárraga nasceu mulher, mas sempre sentiu-se homem, segundo detalha o jornal. “Minha prisão era meu próprio corpo”, lembra. Quando criança, escrevia cartas aos Reis Magos _na Espanha uma tradição forte quanto escrever cartas ao Papai Noel_  nas quais pedia que o transformassem em homem. Sempre contou com o apoio de sua família, mas sua mãe lhe pediu que não operasse enquanto ela vivesse, de acordo com a agência italiana ANSA. Pouco depois da morte de sua mãe, quando Diego tinha 40 anos, decidiu realizar uma cirurgia plástica e, pouco a pouco, começou a mudar seu corpo, indo para Madri.

Quando voltou para Plasencia, seu aspecto físico havia mudado e recebeu a rejeição de parte de seus conhecidos. A atitude dos religiosos era o que mais lhe doía. “Como você se atreve a entrar aqui na sua condição? Não é digno”, ouviu de alguns católicos quando Diego quis voltar para sua igreja. “Você é a filha do diabo”, diz ter ouvido um dia em plena rua da boca de um padre.

Neria se trancava em casa chorando e decidiu escrever para o Papa, conforme relata o jornal. “Nunca me atrevi antes [a pedir ajuda a um Papa], mas com Francisco sim; depois de ouvi-lo muitas vezes, senti que ele me escutaria”, confessa.

Mandou a carta através do bispo de Plasencia, Amadeo Rodríguez Magro, em quem afirma ter encontrado consolo e apoio. Após receber sua carta, Francisco lhe telefonou no final do ano passado, especificamente no Dia da Imaculada. A ligação era de um número privado e, ainda que Diego não costume atender quando isso acontece, dessa vez o fez. “Sou o papa Francisco”, foi a primeira coisa que disse, para acrescentar que suas palavras haviam “tocado minha alma” e que gostaria de conhece-lo. Pouco antes do Natal, voltou a ligar para marcar a data de 24 de janeiro.

Lejárraga compareceu ao encontro com o Pontífice acompanhado de sua noiva em uma reunião privada que aconteceu no sábado, às 17 horas (14h de Brasília). Durante a conversa, perguntou ao Santo Padre “se havia lugar” para ele na casa de Deus. A resposta de Francisco foi abraçá-lo, de acordo com o jornal. “Se eu pudesse escolher, não teria escolhido minha vida”, se lamenta.

O Papa deixou clara sua postura para com os gays e a orientação sexual das pessoas no ano passado quando, ao ser questionado por um jornalista, respondeu: “Quem sou eu para julgá-los?”. “Os homossexuais devem ser respeitados, como é respeitada a dignidade de toda pessoa independentemente de sua tendência sexual”, acrescentou.

Não é a primeira vez que o Papa liga pessoalmente para a Espanha. Em janeiro do ano passado, o pontífice telefonou para dar Feliz Ano Novo para freiras argentinas que vivem em um convento de Lucena (Córdoba). Como ninguém atendeu, Francisco deixou uma mensagem na secretária eletrônica: “Sou o papa Francisco. Tentarei ligar mais tarde”. Em agosto, ligou para um jovem de Granada que relatou por carta os abusos que sofreu por parte de vários padres. “Boa tarde, filho, sou o padre Jorge”, disse antes de pedir-lhe perdão.

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