Pontos-chave do atentado que era investigado por Nisman

Alberto Nisman estava há mais de oito anos na pista de vários fugitivos iranianos Eles são considerados os autores intelectuais do atentado antissemita de 1994

Pessoas caminham diante da sede da AMIA, na segunda-feira.
Pessoas caminham diante da sede da AMIA, na segunda-feira.Martin Di Maggio (EFE)

O que é o caso AMIA?

A investigação judicial sobre o atentado que em 18 de julho de 1994, em Buenos Aires, causou a morte de 85 pessoas com a explosão de um carro-bomba às 9h05 na frente da sede bonaerense da Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA).

Quem era Alberto Nisman?

O homem designado pelo presidente Néstor Kirchner (2003-2007) para a tarefa exclusiva de investigar o atentado, em 2004. Era conhecido há dez anos como o “promotor especial do caso AMIA”. Tinha 51 anos e duas filhas. Era separado.

Mais informações

Quantos são os acusados nesse caso e quem são eles?

Seis. Em 5 de outubro de 2006 o promotor Nisman acusou formalmente o Irã de ser o autor intelectual do atentado e o grupo Hezbollah, de executá-lo. Solicitou um mandado de prisão contra cinco iranianos e um libanês. Os iranianos eram o ex-ministro de Defesa Ahmad Vahidi; o ex-ministro da Informação Ali Fallahijan; o ex-assessor governamental Mohsen Rezai; o ex-funcionário da embaixada do Irã em Buenos Aires Moshen Rabbani; o ex-funcionário diplomático Ahmad Reza Ashgari, e o libanês Imad Fayez.

Em março de 2007 a Interpol colocou os seis funcionários de alto escalão no alerta vermelho de notificações, ou seja, em busca e captura.

Quando começou o distanciamento entre Nisman e o Governo argentino?

Ficou patente em janeiro de 2013, com a assinatura do Memorando de Entendimento entre o Irã e a Argentina para resolver o caso dos iranianos acusados. O acordo foi efetuado sem o conhecimento de Nisman, que sempre se declarou contrário.

Do que Nisman acusou a presidenta Cristina Fernández?

De “decidir, negociar e organizar a impunidade dos fugitivos iranianos no caso AMIA”. Segundo o promotor, a presidenta e o ministro das Relações Exteriores, Héctor Timerman, “tomaram a decisão criminosa de fabricar a inocência do Irã para saciar interesses comerciais, políticos e geopolíticos da República argentina”. Nisman assegurou que o acordo entre o Irã e a Argentina era somente a consequência lógica de negociações secretas iniciadas dois anos atrás sob as ordens da presidenta.

Um homem perambula por entre os escombros da sede da AMIA, após atentado de 18 de julho de 1994.
Um homem perambula por entre os escombros da sede da AMIA, após atentado de 18 de julho de 1994.ALI BURAFI (AFP)

Quais as provas apresentadas por Nisman para sustentar sua acusação?

Dispunha de um relatório de 300 páginas baseado, sobretudo, em escutas obtidas há mais de dois anos. Mas colocou à disposição dos veículos de comunicação dois resumos, somente. Pretendia apresentar mais detalhes no comparecimento privado solicitado para segunda-feira pela oposição argentina. O promotor dizia que a única forma de aprofundar em mais detalhes sem ir contra a lei que protege os agentes de espionagem era dar caráter privado ao seu comparecimento. Mas os deputados oficialistas solicitaram que suas palavras fossem transmitidas ao vivo pela televisão.

Quais foram os principais argumentos usados pelo Governo contra a denúncia de Nisman?

Nisman assegurou que mediante esse acordo, o Irã previa anular os mandados de busca e prisão da Interpol que estavam vigentes contra seus cinco ex-funcionários de alto escalão. Entretanto, o ministro das Ralações Exteriores, Héctor Timerman, apresentou duas cartas para desmentir essa hipótese. Em uma delas, assinada por ele em 15 de fevereiros de 2013, dizia ao então responsável da Interpol que o Memorando não mudava em nada os requerimentos de prisão. E a segunda carta foi enviada na semana passada pelo então responsável da Interpol, Ronald Noble e referendava as palavras de Timerman.

O que o juiz que dirige o caso AMIA disse sobre a denúncia do promotor?

O juiz Rodolfo Canicoba Corral, responsável pela investigação sobre o caso AMIA, mostrou-se surpreendido pela denúncia. Disse que o promotor abriu uma investigação paralela dentro do mesmo expediente. E acrescentou: “Parece que de algumas escutas que eu ordenei, fundadas no expediente, foram extraídos elementos diferenciados que o permitiram iniciar essa outra investigação. Nunca fui informado sobre isso”. Canicoba indicou que ao invés do promotor dirigir os serviços de inteligência durante a investigação, foram esses serviços que parecem tê-lo dirigido.

Que relação o caso AMIA tem com as lutas internas dentro do serviço de espionagem argentino

Para o Governo, muita. Em dezembro, Cristina Kirchner substituiu os dois principais responsáveis do Serviço de Inteligência argentino (SI). E o homem forte da espionagem argentina era Antonio Horacio Stiuso, conhecido como Jaime, foi aposentado nesta semana. Toda essa equipe foi defenestrada por Cristina Kirchner. E o Governo transmitiu a ideia de que a denúncia de Nisman era a vingança planejada por Stiuso contra a presidenta através do promotor, com quem o espião mantinha há anos uma relação muito próxima.