Ataque terrorista em Paris

O sentimento de islamofobia se espalha por toda a Europa

Especialistas alertam sobre possíveis represálias contra muçulmanos após o ataque

Em Geneva, mulher carrega cartaz: "muçulmanos não são terroristas".
Em Geneva, mulher carrega cartaz: "muçulmanos não são terroristas". FABRICE COFFRINI (AFP)

As vítimas do islamismo radical vão além daqueles diretamente afetados pelos ataques terroristas. A população muçulmana residente na Europa observa como a sombra da suspeita paira sobre todo o coletivo a cada ato extremista. Especialistas alertam para um crescimento da islamofobia no continente, com ataques a mesquitas e discriminação no emprego das mulheres muçulmanas como as principais manifestações.

Entre a noite desta quarta-feira e a madrugada de quinta (horário local), algumas horas após o atentado ao jornal, uma mesquita, uma sala de oração muçulmana e um restaurante de kebab que fica próximo a um local de culto islâmico, todos em Paris, foram atacados com explosivos e disparos. Ninguém se feriu.

Uma agência da UE coleta dados de assédio a fiéis dessa religião 

Milhares de cidadãos tomaram as ruas da Alemanha nas últimas semanas para alertar sobre a suposta islamização do país. A organização que os mobiliza leva o nome eloquente de Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente. Com rostos diferentes, o fenômeno acontece em outros países. A Frente Nacional captou a maioria dos votos na França com um discurso contrário à diversidade cultural. Os ataques às mesquitas multiplicam na Suécia. O brutal assassinato de um soldado por islâmicos em Londres, em 2013, disparou os ataques contra a comunidade desta religião. E a tendência não diminui.

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"Embora ainda não se conheça todos os dados do que aconteceu, estamos preocupados de que o nível de islamofobia na Europa possa aumentar após o atentado na França", diz Michaël Privot, diretor da Rede Europeia Contra o Racismo (ENAR, por sua sigla em Inglês). Este especialista alerta sobre o poder das redes sociais como disseminadoras dessas mensagens. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, sempre que ocorre um ato terrorista jihadista proliferam os conteúdos antimuçulmanos na Internet, assegura.

Não existem dados comparáveis em toda a União Europeia sobre o número de discriminações contra esse grupo – desde negar um emprego por usar o véu até incendiar um lugar de culto. A Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia começou a coletar dados para fornecer um quadro completo no próximo ano, incluindo entrevistas com 25 mil pessoas em todos os países para perguntar sobre suas experiências. Por enquanto, uma porta-voz explica que a Áustria, França, Holanda, Portugal e Suécia informaram que houve um aumento de incidentes no ano passado.

A maioria das reclamações vêm de mulheres que sofrem rejeição pelo véu

Sobre a retroalimentação que ocorre entre a estigmatização dos muçulmanos e a maior propensão deste grupo a cometer atos violentos, esta agência europeia ainda considera válido um estudo realizado em 2010, segundo o qual os jovens que foram vítimas de discriminação "são os que correm o maior risco de adotar, por sua vez, atitudes violentas". Neste trabalho, um em cada quatro jovens questionados (na França, Espanha e Reino Unido) afirmou ter recebido um tratamento injusto ou discriminatório.

Além do efeito de provocar os atentados, a islamofobia tem raízes em fenômenos mais complexos. "Há debates equivocados sobre identidade, sobre o que significa, por exemplo, ser alemão. Também em tempos econômicos difíceis, as pessoas tendem a dar respostas simples para problemas complexos. Mas o caso da Alemanha mostra bem que se trata mais de percepções: na Alemanha não há tanta população muçulmana", explica Steve Rose de Londres, da organização Tell Mama, responsável por registrar os ataques à comunidade muçulmana e aumentar a conscientização sobre o problema.

Dentro do grupo islâmico, as mulheres sofrem maior discriminação. O Coletivo Contra a Islamofobia na França garante que entre 70% e 80% das denúncias que recebem são de mulheres, em grande parte pela rejeição gerada pelo véu que costumam usar. A Agência de Direitos Fundamentais está realizando um estudo que se concentrará nos obstáculos que estas mulheres enfrentam para se inserir nas sociedades europeias.

Como outros especialistas, o representante da ONG britânica incentiva a permanecer "com os olhos bem abertos" para possíveis represálias contra a comunidade desta crença após o episódio de Paris. "Os Governos têm sido muito fraco neste ponto; só começaram a reconhecer o problema em 2013. Não está sendo feito nenhum esforço suficiente para evitar a discriminação", conclui Privot, da Rede Europeia Contra o Racismo.