As dez “pragas’’ de ‘Êxodo: deuses e reis’

Independente da celeuma religiosa, o filme de Ridley Scott comete sérios erros históricos

Christian Bale, em uma imagem dos filmes 'Êxodo: deuses e reis'.
Christian Bale, em uma imagem dos filmes 'Êxodo: deuses e reis'.

O novo filme de Ridley Scott, Êxodo: Deuses e Reis está recebendo fortes críticas por razões religiosas tanto de setores cristãos (a versão da história bíblica do diretor é notavelmente agnóstica e tem muitos desvios da história tradicional) quanto do mundo islâmico, onde incomodou especialmente a forma como Moisés é apresentado (que para os muçulmanos é um profeta). No Egito e Marrocos, o filme foi proibido, alegando que contém “falácias”. Além disso e sem que sirvam para questionar seu valor cinematográfico, Êxodo contém um bom número de erros históricos mais ou menos importantes. Aqui estão dez, para ficarmos no mesmo número que as pragas.

1- Na época de Ramsés II já fazia mais de mil anos que os egípcios tinham deixado de construir grandes pirâmides. No filme aparece uma enorme em construção, junto a outras duas, que ademais são escalonadas.

2-As pirâmides não foram construídas por escravos estrangeiros (nem por extraterrestres, já que estamos no assunto), mas por trabalhadores egípcios livres. O governo do Egito ficou incomodado – com razão –, pela insistência em falar que essa grande realização não foi feita pelo povo egípcio. Outra censura: apesar de ser mostrado no filme, não se acredita que elefantes (!) foram usados para levantar as pirâmides.

3-Não há documentação histórica para provar a existência de um povo semita escravizado no Egito, assim também, sua fuga é pura lenda bíblica. Moisés não é uma figura histórica.

4-De qualquer forma, Ramsés não precisaria enviar seu exército atrás dos fugitivos (envia 4.000 carros de acordo com o filme, inchando a conta da Bíblia que fala de 600), pois existia uma grande rede de fortificações e quartéis egípcios ao longo do Sinai até Canaã. E os carros hititas que aparecem na espetacular batalha inicial (Kadesh) eram mais pesados que os egípcios e levavam três homens e não dois. O uso de carros pelo faraó está bem representado, embora o papel da cavalaria, com carga incluída, é totalmente desproporcional: não foi importante antes da era ptolemaica. Os cavalos egípcios eram pequenos e os cavaleiros não usavam estribo.

5-Nunca foram encontradas evidências arqueológicas do Êxodo. Uma migração gigantesca semelhante (600.000 homens capazes de portar armas, de acordo com a Bíblia, além de todas as suas famílias, uma verdadeira multidão) teria deixado testemunhos na forma de acampamentos e outros detritos.

6- O speos (templo escavado na rocha) de Abu Simbel, um dos monumentos mais famosos e visitados no Egito, ainda não estava construído quando morreu Seti I, pois foi construído por seu filho Ramsés II. Além disso, nunca serviu como sepultura (o filme mostra o enterro de Seti I aí: dois erros juntos).

7-A bonita coroa dourada usada por Ramsés II na batalha como capacete não é a obrigatória coroa de guerra khepresh azul – mais parecida à usada por Moisés, embora o resto de sua roupa parece assíria – mas a coroa real de abutre com as asas protetoras da deusa maternal nekhbet ao redor da cabeça, um cocar que na realidade era usado por rainhas (e deusas).

8- A estética do Novo Império egípcio, bem estabelecida, não era geralmente a vista no filme, que parece inspirada nas pinturas românticas de Alma Tadema. Por fim, também a cena da separação das águas do Mar Vermelho parece mais algo do rei Artur do que a Bíblia. É verdade que a Bíblia especifica que no episódio nenhum egípcio se salvou. Ridley Scott resgatou Ramsés II (desculpem pelo spoiler), pelo que o faraó pôde chegar a uma idade avançada (acredita-se que chegou aos 92 anos), ter muitos filhos (muitos deles enterrados na tumba coletiva KV 5 do Vale dos Reis, inclusive, segundo opina Kent Weeks, o primogênito, Amenhirjoshef) e semear o Egito com grandes monumentos, além de nos deixar uma grande múmia.

9-No filme, o primogênito de Faraó é logo mumificado. A mumificação era um processo lento que exigia até três meses.

10 Apesar da tradição de representá-lo careca (desde Yul Brynner), Ramsés II era (e mostra sua múmia) ruivo.