No divã, PT tenta recriar sua identidade com novas lideranças

Perto de completar 35 anos, o partido quer passar por uma reforma para ampliar o apoio a Dilma e rejuvenescer diante do eleitor. Ex-presidente Lula já aumenta sua exposição nas redes

O ex-presidente Lula em evento do MTST no dia 20.
O ex-presidente Lula em evento do MTST no dia 20.Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Nas vésperas de completar 35 anos de idade o partido que há quase 12 anos governa o Brasil acaba de se deitar no divã. As principais lideranças do Partido dos Trabalhadores querem entender o que aconteceu com o utópico e idealista agrupamento de esquerda desde que chegou ao Palácio do Planalto em 2003 com o sindicalista e ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva.

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O PT virou à direita? Tornou-se corrupto? Perdeu a militância? Não consegue mais dialogar com a sociedade e os movimentos sociais? Faz uma política puramente assistencialista? Essas são apenas algumas das diversas perguntas que os dirigentes partidários tentam responder durante o segundo mandato de Dilma Rousseff, o quarto consecutivo da legenda.

Passados os dias turbulentos da campanha presidencial e os de festividades pela vitória de Rousseff e de outros cinco governadores petistas, os líderes do partido voltaram a se reunir para debater qual será a função da sigla, que nos últimos meses frequentou mais as páginas policiais do que as políticas nos jornais. Envolvido pelo escândalo da Petrobras, sete anos após o mensalão que condenou militantes históricos, o PT tem passado por um “processo de criminalização”, nas palavras de seu presidente, o deputado estadual paulista Rui Falcão. Ele, porém, ressaltou ao jornal Valor Econômico: “Você não pode punir um partido inteiro pelo erro de alguns. Nós nunca dissemos que éramos uma organização de santos, um convento, mas há um processo de criminalização do conjunto do PT”.

Mostrar-se como um agrupamento que combate a corrupção é uma das saídas encontradas para tentar resgatar o crédito perdido junto aos eleitores e à sociedade nos últimos sete anos. Essa menor credibilidade foi sentida nas urnas, na eleição mais apertada desde a redemocratização. E a insatisfação de parte dos cidadãos é bastante visível nos protestos, ainda tímidos, pelas principais cidades brasileiras.

“A direita, junto com a mídia, trouxe para o PT um nível de rejeição extremamente alto. Um dos nossos desafios é o de provar que não queremos manter o poder a todo custo e de que usamos a corrupção para isso”, disse o senador Humberto Costa, um dos escalados pelo ex-presidente Lula para tentar limpar a imagem do partido nos Estados.

Nos próximos meses, os senadores Costa (Pernambuco), Lindbergh Farias (Rio de Janeiro) e Jorge Viana (Acre) percorrerão o país na tentativa de identificar lideranças novas que queiram se juntar ao PT e ouvir movimentos sociais para buscar o apoio perdido nos últimos anos. “É um momento de rejuvenescimento, reforma, reconstrução”, diz Costa. Na mira dos petistas estão dois de seus ex-membros que foram para o PSOL no Estado do Amapá, o senador Randolfe Rodrigues e o prefeito de Macapá, Clécio Luís.

A missão, dada ao trio de senadores pelo ex-presidente Lula, é para não apenas amenizar a turbulência enfrentada por Rousseff, mas também para começar a pavimentar um caminho tranquilo para o próprio Lula em 2018, na sucessão de Dilma. Até agora, todas as correntes petistas o colocam como o único nome para tentar atingir um antigo sonho de ficar 20 anos no poder. Mas se ele não quiser, Aloizio Mercadante, ex-senador e ministro que se aproxima cada vez mais de Dilma, quer. Ele tem feito vários movimentos para se firmar como uma alternativa ao ex-presidente, que já enfrentou um câncer e que daqui a quatro anos terá 73 anos.

Outro movimento que o PT tem feito para se aproximar da juventude é aumentar a participação de Lula nas redes sociais. Nas últimas semanas, o ex-presidente tem divulgado vídeos no canal de seu instituto no YouTube nos quais ele analisa o cenário político e as eleições. Em um deles, diz o principal líder petista: “O povo quer continuar sonhando. O povo está mais exigente. O povo quer mais.”

Em outro, ele defende a reforma política, uma bandeira hasteada há dez anos que nunca flamulou, e diz que o resultado da votação de outubro se deve ao desgaste do PT. “O que aconteceu é que nós perdemos um pouco de base [...] O que temos de fazer é aproveitar esses quatro anos e reorganizar a base de alianças nossas com os setores mais à esquerda da sociedade. Se fizermos isso, voltaremos a ter grandes chances de continuar governando o país.”

Um fato que chama a atenção é que poucos petistas enxergam o PT na presidenta Dilma. Nenhum dos oito membros do partido ouvidos para essa reportagem citou o nome dela como uma política capaz de unir a legenda e ajudar na reconstrução dela. Talvez o fato de ela começar a montar ministérios exclusivamente com o objetivo de agradar os partidos aliados amplifique esse descontentamento interno dos militantes. Fica claro que, cada dia que passa, o PT precisa mais ainda de Lula.

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