RETROSPECTIVA 2014

Cuba e Estados Unidos: acaba a penúltima guerra fria

Diálogo reinicia após 53 anos de hostilidades. Fim do embargo depende do Congresso

Cuba e Estados Unidos brigam desde os tempos em que a maior ilha das Antilhas era uma cobiçada colônia espanhola, mas suas relações complicadas viraram de cabeça para baixo no dia 17 de dezembro, quando os presidentes Barack Obama e Raúl Castro anunciaram ao mundo o início de um histórico processo para a normalização das relações bilaterais. Faltam ainda muitos passos a serem completados e satisfazer a todos, mas a esmagadora maioria dos cubanos recebeu o anúncio com esperança depois de 56 anos de inimizade, sofrimentos e separações familiares. O Papa Francisco abençoou e encorajou as negociações.

As relações diplomáticas entre Washington e Havana foram rompidas em 1961, depois que a revolução de 1959 se declarou marxista-leninista e nacionalizou as propriedades de todas as multinacionais norte-americanas instaladas na ilha. A partir de então foi tudo de mal a pior. Fidel Castro se aliou com a União Soviética em plena Guerra Fria, e os falcões da Casa Branca começaram a trabalhar: fracassou a invasão da Baía dos Porcos preparada pela CIA, Cuba usou as armas contra os invasores, os soviéticos instalaram mísseis a 145 quilômetros da costa da Flórida e foram necessárias complexas negociações e compromissos para evitar uma terceira guerra mundial.

OS EUA acusaram a revolução de ter estabelecido uma ditadura, decretou seu isolamento internacional, e a incorporou na lista de movimentos terroristas. Fidel Castro respondeu que contra o império, todos os alertas e defesas são poucos, liderou o terceiro mundo contra Washington e as hostilidades só terminaram há três anos, em 2011, quando Raúl Castro e o Sexto Congresso do Partido Comunista aprovaram a liberalização socioeconômica atual.

Obama aproveitou as iniciativas liberalizantes de Cuba para negociar secretamente o início de uma aproximação cujo desenvolvimento ainda é incerto. Antes, em 2009, tinha manifestado sua disposição para o diálogo promovendo medidas de flexibilização, pelo Poder Executivo, contra o embargo, cujo eventual levantamento depende do Congresso. Facilitou o envio de remessas familiares, multiplicou a frequência das viagens à ilha de cubanos residentes nos Estados Unidos. Foram se tornando comuns e cada vez mais frequentes as declarações de grupos e lobistas próximos à Casa Branca e os editoriais do influente The New York Times contrários à manutenção das sanções, que demonstraram ser inúteis. Aos poucos, a belicosidade dos tempos de George W. Bush foi sendo relegada como ferramenta, e a comunidade cubana em Miami pronunciou-se majoritariamente a favor da aproximação nas pesquisas.

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Para contribuir com a normalização ainda embrionária, mas sem soltar as rédeas do poder político pelo Partido Comunista de Cuba (PCC), o governo de Raúl Castro empreendeu reformas importantes. Foi aprovado o trabalho por conta própria, a compra e venda de carros e casas, viagens ao exterior da dissidência e de qualquer cidadão, e em março ficou pronta uma nova lei de investimentos estrangeiros que autoriza investimentos na ilha por cubano-americanos residentes nos EUA, o que era proibido pelo embargo.

Em 17 de dezembro, os Estados Unidos e Cuba anunciaram o início das negociações para abrir embaixadas e restabelecer relações diplomáticas congeladas por mais de meio século: desde os dias de Dwight D. Eisenhower. Os planos a partir de agora são ambiciosos. Serão intensificadas as viagens e o comércio, a cooperação em vários campos, e espera-se que a médio prazo haja um crescimento da chegada de turistas norte-americanos: cerca de um milhão de viajantes. O próximo passo será o fim do embargo, que não cumpriu os objetivos propostos: liquidar a revolução cubana. O desafio é árduo pois os setores mais anticastristas do Partido Republicano vão lutar para impedir que poder legislativo derrogue um instrumento de punição que está tendo um efeito bumerangue.

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