Análise
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A falta que faz um(a) tutor(a) para a nossa nação

Vivemos neste ambiente que carrega uma “maldição de fundação”

A gente deixou a urna, mas a urna ainda não nos abandonou. Você ou alguns de seus amigos, provavelmente, ainda discutem a legitimidade e a pertinência de termos entregue mais quatro anos de governo para Dilma Rousseff. Nós entregamos.

Estamos no atípico terceiro turno das eleições presidenciais no Brasil, fortemente influenciado por questionamentos derivados de escândalos de gestão pública. A representante do Partido dos Trabalhadores (PT), porém, tomará posse no primeiro dia de 2015, quer se queira ou não.

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O assunto deste texto, porém, não é a ardilosa política tradicional, mas uma outra dimensão de poder: a paternagem e no que ela interfere em funções executivas. Precisamente, o mito do filho abandonado, que nos acompanha desde quando Pedro Álvares Cabral (1467-1520) nos “descobriu” e nos abandonou. Vivemos neste ambiente que carrega uma “maldição de fundação” expressa nesta tragédia atávica: o pai-europeu-que-abandona-a-mãe-índia-estuprada. Isso nos molda negativamente.

Será que cinco séculos depois ainda buscamos essa integração paternal? Personalidades de várias esferas tentam forjar essa construção primordial, de mártires abolicionistas a Dilma Rousseff.

Somos e buscamos substâncias para preencher a necessidade do arquétipo. Pensemos no nascimento de um pato. Ao nascer, a primeira coisa que ele procura é sua mãe, uma necessidade é imperiosa. Se você estiver ao seu lado, há uma chance de ele tomá-lo como guia, comece a segui-lo, tente aprender o que é a vida e o mundo copiando seus gestos.

Você, provavelmente, abandonará o pato em algum momento e ele entrará em agonia: sua tarefa existencial foi interrompida, “mamãe me abandonou”. Ele vai carregar esse trauma, vai se desenvolver (ou morrer) marcado pela falta. Muitos seres humanos, a despeito da capacidade de reflexão, agem como patos.

Procuram um pai e uma mãe, mas ao receberem do ambiente pais e mães falhos e insuficientes, se traumatizam. Esse trauma, inconscientemente, é vivenciado aqui no Brasil na transferência de função familiar para instituições, lideranças públicas e ídolos do esporte ou das artes.

O dado novo é que o país saiu dessa ‘casca de ovo’ metafórica e está ouvindo dos pais postiços que precisamos de mais autonomia e menos comodismo na posição de patos. Como se tivéssemos saído da adolescência e pudéssemos, finalmente, singrar mares com nossas próprias ‘patas’.

As jornadas de junho de 2013 tentaram dizer isso por vias sinuosas. O Movimento Passe Livre (MPL) que vinha causando barulho tímido encontrou uma massa órfã e, juntos, pelas ruas, não conseguiram traduzir o que talvez hoje seja explicado por este sentimento de desamparo infantil.

O MPL não forjou um líder, e nem os representantes desses movimentos recentes, que tentaram ferir a Constituição ao defender a volta da ditadura. Esse messias ainda não confirmou nome na lista, digamos assim.

Adolescentes tardios, clamamos por um pai. A boa notícia é que já temos avós constituídos. Nomes como o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e dos ex-senadores Eduardo Suplicy e Pedro Simon, de certa maneira, se apropriam desse arquétipo de sábios. Luiz Inácio Lula da Silva ainda não chegou lá, mas defende com muito tutano seu ofício de pastor. O problema é que ainda há lacunas, e esses vácuos produzem figuras como Jair Bolsonaro, que, sim, têm seu rebanho e nublam a humanidade.

E o que dizer dos dois nomes que duelaram na última eleição, Dilma Rousseff e Aécio Neves? Ela desenvolveu uma persona de mulher firme, porém rude, admirável, mas não empática. A mãe que repreende, mas não acolhe. A mãe-pai.

Ele, ao contrário, foi escalado para ser o pai separado. Aquele que promete levar o filho ao estádio. Mas está faltando ao compromisso. Ainda não garantiu o vínculo. Tanto ele como Dilma estão perdendo uma oportunidade histórica de acolher a dor/tristeza alheia.

Mas, enquanto patos, projetamos ações e falas que denunciam nosso complexo do abandono, o buraco existencial. O afeto do trauma nos grifa e nos força a buscar o menestrel. O problema é que, como patos, poderemos acabar em panelas simbólicas, cômodas, mas fatais para nosso sentido de nação.

*João Luiz Vieira é jornalista profissional há 25 anos, roteirista de TV, autor de teatro, organizou o e-book Sexo com Todas as Letras, é sócio-proprietário do site Pau Pra Qualquer Obra, e pós-graduando em Políticas Culturais e Educação Sexual. Para falar com ele: vieiraluizjoao@gmail.com. Com a colaboração do psicólogo clínico e professor de psicologia analítica Walter Mattos.

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