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Empresários aguardam os próximos passos do Governo Dilma

Apesar das dúvidas do setor privado brasileiro, investimentos estrangeiros se mantêm pela eterna aposta do potencial do país no longo prazo

Dilma em reunião com aliados do Congresso, na segunda-feira.
Dilma em reunião com aliados do Congresso, na segunda-feira. REUTERS

‘Não vamos desistir do Brasil’, ouviu-se da boca de um empresário e dos executivos que se reuniram em Barcelona, neste final de semana, durante o Meeting Internacional, promovido pelo grupo Lide, para aproximar empresas espanholas e brasileiras. A frase, dita por Eduardo Campos um dia antes do acidente que tirou a sua vida no dia 13 de agosto, ganhou ares de profecia durante a campanha eleitoral. Agora, foi revisitada pelos empresários, entre eles, muitos que não escondem sua resistência ao nome de Dilma Rousseff, mas precisam enxergar, por obrigação, o copo meio cheio diante das dificuldades. Durante o encontro de quatro dias, o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi lembrado diversas vezes, e até mesmo o do ex-presidente Lula. E nenhuma menção pública a Dilma.

O bordão para exaltar a fé no país foi a saída para dar ânimo aos presentes, diante da realidade concreta da presidenta reeleita. “Temos de ser positivos”, disse Edson Bueno, fundador do grupo Amil de saúde, e um dos donos do grupo Dasa, o primeiro a dizer em público que não se podia desistir do Brasil. Bueno era um dos poucos a demonstrar confiança nos novos passos de Dilma, ao menos em público. “Dilma é coração aberto, ela foi aprendendo ao longo do primeiro mandato, e agora será a mesma coisa. Estou esperançoso”, disse ele ao EL PAÍS.

Seria esse aprendizado que teria garantido a seleção da nova equipe econômica. Celebrada, ainda que com cautela, uma vez que o setor privado culpa Dilma pela falta de diálogo e pela insistência na política econômica que trouxe um crescimento frustrante. “Vamos ver se ele terá liberdade de ação”, foi uma das frases ouvidas nas mesas dos executivos. O ex-ministro do Desenvolvimento Luiz Fernando Furlan lembrou que, quando trabalhou junto com o futuro ministro da Fazenda Joaquim Levy, durante o Governo Lula, ele tinha de seguir a cartilha do então secretário do Tesouro. “Levy não me deixava gastar”, lembrou Furlan, para quem a administração de Dilma vive um momento de “freio de arrumação”.

Agora, como ministro da Fazenda, Levy terá a dura missão de fechar a torneira dos gastos públicos por um lado, deixando uma brecha para estimular o investimento por outro. Alguns observadores já enxergam que o novo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, será o responsável por essa agenda de incentivo ao setor privado. Mas só depois que as doses do ajuste fiscal forem ministradas por Levy, ao longo de 2015, principalmente.

Antônio Valente, presidente da Telefônica no Brasil, tem uma visão mais prática. “Tudo depende do primeiro ano do seu segundo mandato”, afirma, lembrando que todos os anos de estreia dos presidentes plantam as sementes do que será o seu mandato. Dilma começou com um ajuste e um troca de ministros em 2011, depois de uma onda de denúncias de corrupção. Tudo, porém, mostrou-se insuficiente.

O desânimo das empresas pode ser mensurado pelo número de anúncios de novos projetos produtivos. Um levantamento do banco Bradesco mostra que, nos 12 meses até outubro deste ano, haviam sido divulgados mais de 1.100 projetos de investimento privados. Em outubro de 2011, esse total era de 1.642. Alguns dos anúncios, em todo caso, são parrudos, como o da General Eletric, que vai injetar até 1,2 bilhão de reais em um centro de pesquisa na área de óleo e gás no Rio de Janeiro, num projeto que inclui uma parceria com a Petrobras e a BG Group. Ou da rede de varejo Lojas Americanas, que planeja abrir 800 lojas até 2019, e investirá 4 bilhões de reais na empreitada. Murilo Corrêa, diretor de relações com investidores do grupo, cita “a confiança no desenvolvimento do país” como justificativa para o ambicioso plano.

O otimismo que leva a crer que o momento difícil vivido na economia é apenas pontual justificaria, ainda, o volume de investimento estrangeiro que está entrando no Brasil. A Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transacionais (Sobeet) calcula que o país vai receber cerca de 60 bilhões de reais de empresas interessadas em investir no Brasil, um pouco menos do que entrou em 2013, mas ainda um patamar respeitável. Outra explicação para esse fluxo se manter em alta, apesar das turbulências, seria o fato de o país ainda ter o crédito de ser o país do futuro, devido ao grande mercado de consumo, e às tantas oportunidades que os atuais gargalos parecem oferecer.

Durante a reunião em Barcelona, o ex-premiê espanhol José María Aznar disse que as empresas do seu país, por exemplo, mantém a confiança no Brasil para o longo prazo. Aznar enalteceu o histórico do sucesso brasileiro das últimas décadas, que levou o Brasil a ser o principal destino dos investimentos espanhóis. Mas que a prosperidade duramente construída tem de ser blindada. “O Brasil precisa de um grande impulso reformista, pois o mundo precisa de um Brasil mais ativo, aberto e eficaz”, concluiu.

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