Rússia deixa rublo flutuar após gastar milhões para controlar câmbio

Sanções e queda do preço do petróleo bruto prejudicam a economia russa

Agência do Banco de Moscou.
Agência do Banco de Moscou.Andrey Rudakov (Bloomberg)

O Banco Central da Rússia liberalizou na segunda-feira o câmbio do rublo e deixou a moeda nacional à mercê do mercado, após dois meses de desvalorização recorde frente ao dólar e ao euro. O resultado imediato da nova política anunciada pela presidente do Banco Central, Elvira Nabiulina, que não descarta intervir em caso de ameaça à estabilidade financeira, foi uma queda da divisa russa. Às 13h30 (8h30 em Brasília), o rublo passou a ser cotado a 45,09 unidades por dólar – desvalorização de 0,81 unidade – e a 56,27 unidades por euro – uma desvalorização de 0,9105 – com relação à cotação das 10h30.

Na terça-feira, a cotação oficial era de 57,24 rublos por euro e 45,89 rublos por dólar, o que representa desvalorizações de 2,07 e 1,98 rublo respectivamente com relação ao dia anterior. Em outubro, o Banco Central gastou mais de 30 bilhões de dólares (76 bilhões de reais) de suas reservas para tentar sustentar a cotação da moeda, chegando ao recorde de 2,928 bilhões de dólares em um único dia (29 de outubro).

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Na semana passada, o euro passou de 60 rublos e o dólar se aproximou dos 49 rublos. Além do encarecimento das importações, a desvalorização da moeda provocou temores entre os russos que possuem economias, os quais, segundo os analistas de mercado, estão tentando pôr a salvo seus capitais mediante a compra de bens de consumo duráveis e investimentos no setor imobiliário.

Até agora o Banco Central mantinha o rublo em um corredor formado pelo dólar e pelo euro e intervinha quando a moeda russa se aproximava das margens. A liberalização do rublo estava prevista para o próximo ano, mas os especialistas, incluindo o ex-ministro das Finanças, Alexei Kudrin, aconselharam adiantar as datas.

“Parece-me que esta decisão está um pouco atrasada, porque quando o rublo estava submetido a pressões não havia necessidade de manter o corredor de divisas e de vender as reservas de ouro”, disse o atual titular das Finanças Anton Siluanov. Em Pequim, onde participa da cúpula do Foro Econômico da Ásia-Pacífico (Apec), o presidente russo, Vladimir Putin, qualificou as oscilações do rublo de “saltos especulativos” e se mostrou confiante no efeito das medidas tomadas pelo Banco Central “como resposta aos especuladores”. Putin disse que as oscilações no mercado de divisas “não estão vinculadas a causas e fatores fundamentalmente econômicos”. Nos últimos dois meses, o rublo se desvalorizou 28,4% em relação ao dólar e 21,1% em relação ao euro, segundo o serviço econômico RBK.

Putin insistiu que o Banco Central se reserva o direito de intervir sempre que julgar conveniente. O presidente afirmou também que a entidade pode punir os especuladores que estão se preparando para uma nova onda de ações e que a instituição vigiará as taxas de juros dos empréstimos.

A queda dos preços dos hidrocarbonetos, a maior fonte de geração de divisas da Rússia, combinada com os efeitos das sanções e a instabilidade geopolítica provocaram uma fuga de capitais que já superou os prognósticos oficiais, segundo cálculos do Centro de Desenvolvimento da Escola Superior de Economia de Moscou. Segundo esses dados, a fuga de capital já chegou aos 110 bilhões de dólares, sendo o prognóstico oficial ainda vigente de 100 bilhões para este ano.