Mikhail Khodorkovski | EX-DONO DA petroleira Yukos

Khodorkovsky: “Sou pessimista; Putin pode durar 20 anos”

O oligarca do petróleo prepara na Suíça sua volta à política russa depois de dez anos preso

Mikhail Khodorkovski, em março na Ucrânia, um dos primeiros países que visitou depois de sair da prisão. / David Azia (AP)
Mikhail Khodorkovski, em março na Ucrânia, um dos primeiros países que visitou depois de sair da prisão. / David Azia (AP)

Mikhail Khodorkovsky recebeu o EL PAÍS na segunda-feira em Zurique, onde se instalou depois de ser libertado em dezembro “por razões humanitárias”, após mais de dez anos preso sob a acusação de diversos delitos econômicos, e em meio à suspeita de que o Kremlin o punia pela relevância que havia adquirido como opositor. O homem que fundou aquela que chegou a ser a primeira petrolífera da Rússia, a Yukos, foi absolvido e solto em dezembro. Sua empresa foi desmembrada e absorvida em grande parte pela petroleira estatal Rosneft.

O escritório do ex-oligarca, sem identificação na fachada, está na parte antiga da cidade, a poucos minutos da casa, indicada com uma placa, onde outro exilado, Vladimir Lênin, pai da Revolução bolchevique, residiu de 1916 a 1917. Khodorkovsky prepara na Suíça o seu retorno (de longe) à política de seu país. Parece tranquilo. A camiseta sem mangas que usa, com um desenho estampado, lhe dá um ar juvenil que se reforça quando, com a mochila na mão, vai ao encontro da mulher, Inna, e do pai, Boris.

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Pergunta. Como está se adaptando à Suíça?

Resposta. A Suíça é uma residência temporária que é cômoda para eu trabalhar com a Rússia. [Em Moscou] não é vista como um país hostil, tem uma política bastante independente e não há por que temer a influência do Kremlin sobre seus dirigentes. Mas nas minhas relações com as autoridades russas tudo é possível, e eu não fico totalmente tranquilo aqui. No Twitter circularam mensagens de ajuste de contas comigo e até ameaças de morte.

P. Sua fundação, a Rússia Aberta (OR), voltará a funcionar?

R. Quero começar um novo trabalho com essa marca que reflete minha visão, oposta à do regime. A abertura ao mundo é vantajosa para a Rússia e útil para a sociedade. No passado, a fundação promovia atividades de beneficência que agora não posso levar adiante porque não tenho os recursos da época. Além disso, em Moscou há um terceiro processo preparado contra a Yukos, que permite acusar de lavagem de dinheiro quem receber recursos meus. Meus projetos hoje se dirigem à reduzida parte da sociedade russa que vincula o futuro com a via europeia de desenvolvimento, ou seja, ao Estado de direito. A Rússia é parte da Europa por sua herança cultural, mas as autoridades semeiam dúvidas ridículas sobre isso.

P. Como atuará?

R. Os grupos sociais ativos e pró-europeus têm de adquirir caráter de sujeito político para defender seus interesses e podem unir-se para tentar resolver problemas econômicos, municipais, ecológicos. A OR será um movimento de colaboração com eles, um movimento de redes em um centro único. Eu contribuo intelectualmente, crio uma plataforma de redes onde esses grupos possam comunicar-se.

P. E quando se souber que Khodorkovsky cria sua plataforma na internet, podem surgir problemas...

R. Sem dúvida, como demonstra a experiência chinesa, mas, desde que a Rússia não proíba a internet, a tecnologia permite essa colaboração, que não pode ser comercial. Além do mais, haverá comunicação off line para decidir sobre ações comuns. A sociedade civil diminuiu, mas não desapareceu. O setor orientado para a Europa é potencialmente influente, embora Putin tenha conseguido fragmentá-lo. Tenho a esperança de que Putin cometa algum erro, já que todos os regimes autoritários afundam em consequência de erros. Isso pode não ocorrer em uma década nem mesmo em duas, por isso me dirijo à geração de 20 a 30 anos para dizer-lhes que seu futuro depende do regime que vier depois de Putin e que não terão perspectivas se vier um líder tipo Strelkov [militar russo que guerreou em Donetsk].

P. Quanto pode durar o sistema representado por Putin?

R. Sou pessimista. Entre dois anos, se cometer erros, e 20 anos. De vez em quando o regime se lança em aventuras das quais sai com perdas para a Rússia. Por ora, consegue explicá-las, mas, a qualquer momento, quando as pessoas se perguntarem o que está acontecendo, a consciência social pode dar uma virada. No caso da Crimeia há orgulho, alegria febril por haver mostrado força e tomado o que é nosso, mas amanhã podemos entender que a Rússia é uma imprevisível força do mal, que enfrentamos um povo irmão e que pusemos em perigo o futuro do “mundo russo”.

P. Você atribuiu a sua queda a vários fatores. Qual foi o principal?

R. Putin não pôde aceitar a existência de outros centros de poder. Tem mentalidade militar, pensa de modo hierárquico e se irritou diante de pontos de vista mais influentes que o seu, e que ele considerava determinados pelo dinheiro. Putin elimina os pontos de vista alternativos de forma sistemática. As pessoas do seu entorno sabem disso e lhe dão argumentos para destruí-los.

P. O que sente em relação a Putin?

R. Não sinto hostilidade para com ele. É um oponente com o qual acho interessante confrontar-me.

P. E os dez anos na prisão?

R. Isso não me desperta sentimentos em relação a Putin. Aceito a pessoa tal como é. Putin se deixa influenciar com facilidade do ponto de vista emocional. Se Sechin não houvesse existido [o diretor da Rosneft, grande beneficiária da expropriação da Yukos], talvez meu conflito com Putin tivesse sido mais político, mas ele influenciou o presidente e transformou meu enfrentamento em algo criminoso. Sechin é uma das poucas pessoas que me desagradam e certamente não sentirei pena se ele tiver problemas, mas eu sou menos emotivo que Putin. Minha mulher me critica e me chama de homem-computador.

P. Como avalia as sanções ocidentais impostas à Rússia?

R. Elas têm um componente correto e outro incorreto que quase destruiu o efeito do primeiro. O Ocidente tem de corrigir o rumo e decidir se quer enfrentar o povo russo ou o regime. Se quiser se opor ao regime, sua posição tem que ser outra, porque as abordagens de hoje não permitem que eu e pessoas como eu nos unamos a vocês, embora queiramos. O Ocidente deve manter as sanções sobre o entorno de Putin, mas também distanciar-se dessa gente agressiva que roubou o povo russo. Cabe perguntar por que não se deram conta antes, mas o importante é que retifiquem e que digam que roubar o povo russo vai contra os princípios morais do Ocidente. Uma posição assim convida a apoiá-la, mas agora o Ocidente não faz distinção e diz à Rússia que a castiga e que está se lixando se seus dirigentes roubam o povo ou não; e o povo russo, que se sente punido, reage cerrando fileiras em torno de seus líderes. São 140 milhões de pessoas que estão enfrentando a civilização euroatlântica, e que se unem em torno de seus dirigentes. Será um longo enfrentamento.

O debate europeu sobre as sanções ocorreu no marco conceitual dos norte-americanos. A posição de torpe pragmatismo dos norte-americanos não é o método para tratar o povo russo, que resistirá, como resistiram os iranianos diante da profunda incompreensão do seu modo de ser. Nós, russos e iranianos, temos orgulho de nossa longa história e estamos dispostos a aguentar muitas coisas, mas não a expor nosso orgulho à humilhação. Os norte-americanos, com seu pragmatismo, pensam que cederemos se algo nos prejudica, mas a mim me importa menos ter pão na mesa do que sentar-me a uma mesa sobre na qual tenham cuspido. Se as sanções se baseassem em critérios morais, o povo russo roubado e os agricultores europeus privados de exportar à Rússia entenderiam que estamos no mesmo barco.

P. Como a propaganda do Kremlin sobre a Ucrânia influi na população?

R. O potencial histérico é muito perigoso e não se dissolve como se não fosse nada. Putin procura um inimigo externo a quem dirigir a histeria, e quer esmagá-lo, do contrário, a histeria se volta contra ele.

P. Até onde pode ir essa busca?

R. Até a Mancha, por que não? Embora Putin não pense nisso, essa é a linha imposta à sociedade. Quando o regime anuncia uma inspeção da indústria, isso por si só produz uma guerra, contribui para a mentalidade bélica e a mobilização. Essa dinâmica pode nos levar à guerra.

P. Acha possível devolver a Crimeia à Ucrânia, depois de ter sido anexada?

R. A médio prazo, não, mas se a sociedade russa aceitar o modelo europeu e formos na direção de um espaço comum europeu, então o problema da Crimeia teria solução em longo prazo.

P. Qual a saída para a guerra na região de Donbass?

R. O regime russo está interessado em manter a tensão ali, mas sobretudo em controlar a política externa da Ucrânia mediante medidas constitucionais especiais para Donetsk e Lugansk. Não sei se a Europa Ocidental e a Ucrânia aceitarão essa solução, mas isso não resolve o problema da consciência histérica exaltada, que o regime, queira ou não, terá que canalizar para algum lugar posteriormente. Ao retroceder para resolver o problema de Donbass, a verdadeira solução é adiada. A Comissão Europeia foi por esse caminho ao atrasar a entrada em vigor do acordo de livre comércio com a Ucrânia, mas não é uma solução duradoura. A consciência histérica da Rússia exige um inimigo externo, e esse inimigo é a Europa, porque não é perigosa para a Rússia.

Putin não pode desmobilizar a sociedade porque, ao voltar à vida pacífica, a atenção se direcionará para a situação social interna, cuja piora não pode ser combatida sem o rompimento com o modelo autoritário de administração do país. A diminuição da população ativa, o aumento do custo de exploração das jazidas, o fim da etapa de crescimento exponencial dos preços da energia são problemas estratégicos da Rússia, e todas as soluções implicam em passar de um Estado autoritário ao de direito. A China não é um país mais democrático, mas é de fato um Estado de direito em maior medida que a Rússia porque exerce a alternância no poder, embora limitada. Os pactos da transição espanhola deram à elite franquista garantias de que não seria esmagada. Não vejo quem possa garantir isso agora a Putin, embora pudesse ser a Europa, talvez a Alemanha. A Europa precisa de dirigentes que representem uma força moral para a sociedade russa. Angela Merkel era essa pessoa, mas a concepção equivocada das sanções faz com que os russos estejam menos dispostos a escutá-la.