As idas e vindas desde o 11 de setembro

Após as lições do Afeganistão e Iraque, Obama busca compartilhar esforços e colaborar à distância com recursos militares

Na foto (Efe), o memorial dedicado às vítimas do atentado em Nova York | Vídeo: Reuters
<a href=http://internacional.elpais.com/internacional/2014/09/11/album/1410446283_918941.html>O 13º aniversário do 11/09 em imagens</a>

Em um primeiro momento, se observarmos a resposta norte-americana ao terrorismo jihadista, e seus planos de segurança desde o 11/09 até agora, poderia parecer que Obama mudou completamente a ideologizada estratégia militarista de seu predecessor. Entretanto, uma olhada mais atenta nos mostrará que, na essência, se mantiveram boa parte dos instrumentos empregados e os mesmos objetivos: evitar que se repita um ataque similar e defender os interesses globais de quem segue se vendo como a nação indispensável. O que felizmente se perdeu no caminho é a carga messiânica que movia Bush, dando lugar para um governante mais pragmático, centrado em preservar a liderança mundial de seu país com um uso mais realista de seus imensos recursos.

Obama, equivocadamente, costuma ser chamado de pacifista, quando não teve nenhuma dúvida em continuar com o legado militarista de Bush (recordemos a insurgência no Iraque), ampliando-o para muitos outros cenários como a Líbia, Somália e Iêmen. Assim, durante seu mandato apostou decididamente pela militarização da CIA, o emprego de drones (aviões não tripulados) para eliminar seus inimigos, o crescente protagonismo das unidades de operações especiais e o apoio de forças locais de parceiros ou aliados mais ou menos apresentáveis. E ainda que esses sejam instrumentos menos visíveis, não são em nenhum caso menos letais que as unidades convencionais que seu antecessor utilizava nos países que representavam alguma ameaça para seus interesses. É, em resumo, outra forma de fazer a guerra, na qual a aversão em utilizar tropas próprias no terreno leva a aproveitar ao máximo as vantagens da tecnologia militar, ao mesmo tempo que fortalece atores locais (com assessoria, instrução e fornecimento de equipamento e armamento) para que assumam a pesada carga do combate terrestre.

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A situação chegou nesse ponto após as amargas lições extraídas do Afeganistão e do Iraque, exemplos de decisões equivocadas ao pensar que os soldados norte-americanos seriam recebidos pelas populações locais como heróis libertadores, ao acreditar que a superioridade tecnológica da máquina militar evitaria o desgaste até o limite da própria capacidade em locais que não eram vitais (enquanto a Rússia e a China voltavam-se com força para outros que eram) e ao considerar que a sociedade (e os oponentes políticos) assumiriam sem reclamar as baixas próprias e a desatenção para necessidades internas mais urgentes.

Enquanto isso, como era previsível apesar da eliminação de Osama Bin Laden, o monstro não só segue ali, com a Al Qaeda e suas franquias regionais plenamente operativas, como se diversificou com a ameaça que o Estado Islâmico atualmente representa, os grupos locais inspirados nessas referências em diversos países e até os chamados lobos solitários, que também se sentem parte de uma guerra global urbi et orbi.

Como consequência disso tudo, Obama retornou para suas raízes. Isso significa reformular sua maneira de defender os interesses próprios, entendendo, em primeiro lugar, que os EUA não podem resolver sozinhos todos os problemas de segurança do mundo e que muitos deles não afetam seus interesses vitais. Implica, igualmente, assumir que o terrorismo não pode ser derrotado definitivamente, e muito menos através dos meios militares convencionais. Se na Líbia (2011) foi onde primeiro se aplicou sua ideia do que significa “liderar da retaguarda” – sem utilizar tropas convencionais próprias, mas colaborando com a maior parte do esforço aéreo, a inteligência e até o fornecimento de munição para seus aliados europeus –, agora na Síria/Iraque assistimos sua consolidação.

Em síntese, trata-se de seguir implicado em assuntos globais – não existe nenhuma tentação isolacionista em sua política –, mobilizando parceiros e aliados para compartilhar esforços (somando até 40 companheiros de viagem contra o EI, sem deter-se para solicitá-los o crachá de democrata), colaborando à distância com meios (incluindo material letal) para quem passa a ser bucha de canhão, encarregado de atolar-se em batalhas que, no melhor dos casos, só vão ganhar tempo. Um elemento essencial deste enfoque é voltar a “jogar” com o equilíbrio de poderes, utilizando atores locais na tarefa (por exemplo, o Irã, a Turquia e a Arábia Saudita no caso do EI) que, por estarem muito mais interessados em neutralizar a ameaça jihadista, podem estar mais dispostos a aceitar o apoio norte-americano contra uma causa comum. Em relação a este último fator, a preocupação dos EUA é distribuir seus apoios de maneira que todos os implicados no jogo desejem seguir adiante, procurando que nenhum deles (como aconteceu com Saddam Hussein) chegue ao ponto de adquirir um poder que o tente a criar sua agenda própria contra os interesses de Washington.

Deste modo, é muito improvável que vejamos grandes unidades de combate norte-americanas utilizadas pelo mundo; mas também é improvável que Guantánamo, as violações do direito internacional e o rompimento do Estado de direito em nossas sociedades desapareçam. Enquanto isso, presos em uma visão de curto prazo, continua ficando para amanhã a ativação de mecanismos não militares que ataquem as causas estruturais que alimentam o terrorismo.

Jesús A. Núñez Villaverde é diretor do Instituto de Estudos sobre Conflitos e Ação Humanitária (IECAH). Sua conta no Twitter é @SusoNunez

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