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A Faixa de Gaza tenta se reerguer sobre as ruínas que restaram

O mais urgente é reconstruir as 17.200 casas destruídas por Israel

O bairro de Shijaiya na cidade de Gaza, em 27 de agosto Ampliar foto
O bairro de Shijaiya na cidade de Gaza, em 27 de agosto AFP

Gaza está começando de novo. Faz isso com a esperança de quem confia que, desta vez, a trégua abrirá as portas para uma paz duradoura, que não será rompida em um ano ou dois por uma nova ofensiva. As ruas de Gaza, ainda e por muito tempo cobertas de escombros, amanheceram cheias de vida, com os cidadãos tentando retomar a rotina e avaliar as perdas. Segundo estimativas do Governo palestino, serão necessários nada menos que 4,5 bilhões de euros (13,5 bilhões de reais) para fazer Gaza voltar ao que era antes de 8 de julho, quando começou a Operação Limite Protetor. O prejuízo foi de 90 milhões de euros por dia. Falta a estimativa dos oito dias de batalha após o fracasso do último cessar-fogo, que certamente aumentará os números, diz o economista e vice-primeiro-ministro palestino Mohamed Mustafa.

A principal urgência é a reconstrução de casas completamente destruídas por Israel, 17.200 segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários nos Territórios Palestinos (OCHA, na sigla em inglês). Há 38.000 moradias severamente danificadas. Os ataques a casas particulares – desde o fim de semana, o exército israelense derrubou cinco prédios residenciais, deixando sem teto cerca de 2.000 pessoas –, fizeram o número de desabrigados chegar a 475.000. Desses, 290.000 estão em escolas da UNRWA, a Agência da ONU para os Refugiados Palestinos. O restante está em escolas públicas ou casas de parentes. “Esta cifra é seis vezes maior que o número máximo de deslocados previsto em nossos planos de contingência e não tem precedentes nos últimos 64 anos em Gaza”, observa o OCHA.

Há também 216 escolas de todos os tipos atingidas pelos projéteis, nas quais é impossível dar aulas. No sábado, começou oficialmente o ano letivo em Gaza e na Cisjordânia, mas no primeiro dos territórios não foi ouvida uma lição sequer. É impossível. O Ministério da Educação palestino confirma que a maior parte das sala de aula poderia ser colocada em condições “decentes” para o uso em duas semanas, mas só se chegar ajuda suficiente para isso. Também estão em situação de emergência os 58 hospitais e postos de saúde danificados ou derrubados, cuja recuperação é imprescindível. Além disso, falta uma centena de medicamentos que, se forem cumpridos os termos do cessar-fogo, deverão entrar de forma prioritária. A passagem de Kerem Shalom, na fronteira israelense, está se preparando para isso depois de 50 dias em que só permitia uma entrada muito reduzida de mercadorias, devido aos constantes fechamentos “de segurança” e ao perigo para os comboios uma vez dentro da Faixa.

O dinheiro mais urgente está sendo pedido a diferentes agências da ONU. Na grande conferência internacional de doadores marcada para a primeira semana de setembro no Egito, os palestinos tentarão obter a maior parte do que Gaza precisa. As nações ocidentais se mostram “dispostas”, mas “firmes” ao defender os projetos financiados com seus recursos, que chegaram a ser destruídos até três vezes pelos constantes bombardeios de Israel, disse na semana passada o Ministério das Relações Exteriores da Noruega, um dos patrocinadores do encontro.

Gaza quer começar de novo mas, na realidade, não pode, porque ele faltam 2.138 moradores mortos na ofensiva. Destes, 484 são menores. Do total, 70% eram civis, insiste a ONU, apesar de Israel afirmar ter matado pelo menos mil milicianos. São 142 as famílias que perderam três ou mais membros, e 89 em que morreram todos os integrantes. Os feridos palestinos são quase 10.300. Entre eles há mil crianças que ficarão com sequelas permanentes, seja por causa da extensão de seus ferimentos ou das deficiências do atendimento médico. O único centro de reabilitação, o Al Wafa, foi derrubado. Há 373 mil crianças com necessidade urgente de apoio psicossocial por causa dos traumas de guerra: pesadelos, violência, isolamento...

Os moradores de Gaza conseguiram uma média de seis horas de luz graças aos reparos parciais feitos nos dias de cessar-fogo. O abastecimento de água é mais lento e quase 40% da população precisa recorrer aos carros-pipa. Um porta-voz do Departamento de Doenças Crônicas, citado pela agência Maan, explica que a falta de higiene está causando infecções graves de pele, especialmente entre os refugiados.