Peña Nieto na Califórnia: “A reforma migratória é uma questão de justiça”

Pela primeira vez em seu mandato, o presidente se reúne com “o outro México” O governador do Estado promete encurtar o tempo para cruzar a fronteira de Tijuana

O governador Jerry Brown, o presidente Enrique Peña Nieto e a primeira-dama Angélica Rivera, na segunda-feira, em Los Angeles.
O governador Jerry Brown, o presidente Enrique Peña Nieto e a primeira-dama Angélica Rivera, na segunda-feira, em Los Angeles.AP

O presidente do México, Enrique Peña Nieto, cumprimentou pela primeira vez em seu mandato o que chamou de “o outro México”, nesta segunda-feira, o primeiro dia de sua visita oficial à Califórnia, o Estado mais rico e populoso dos Estados Unidos e onde um em cada três habitantes tem origem mexicana. Peña Nieto agradeceu o Governo da Califórnia pelas leis que, nos últimos três anos, trouxeram melhoras para as vidas dos imigrantes no Estado, e considerou inevitável que, devido às mudanças demográficas, o resto dos EUA acabe seguindo o exemplo californiano no futuro. “A reforma migratória é uma questão de justiça para quem tanto colabora com o desenvolvimento da sociedade norte-americana”, afirmou o presidente diante de um público de 700 pessoas, entre as quais estavam todas as lideranças da comunidade mexicana de Los Angeles.

Principal assunto que preocupa a comunidade imigrante, a reforma migratória é uma proposta para modificar certas leis para permitir uma saída legal para os 11 milhões de pessoas sem documento dos Estados Unidos. O Senado norte-americano conseguiu aprovar um texto concordado entre setores dos dois principais partidos do país, mas a maioria do Partido Republicano na Câmara dos Representantes vetou sua aprovação e praticamente pôs fim a qualquer esperança sobre sua implementação.

O intercâmbio comercial entre o México e a Califórnia é o mesmo entre o México e toda a União Europeia

A posição do Governo do México sobre o assunto tem sido de respeito a um tema complexo e que compete a outro país, apesar de as autoridades mexicanas não esconderem suas esperanças de que a reforma seja aprovada. Diante dos representantes da comunidade imigrante de Los Angeles, Peña Nieto não evitou o assunto: “Desde que começou o debate sobre uma possível reforma migratória, o Governo do México tem mantido um diálogo propositivo com a sociedade norte-americana. A posição do México é muito clara: queremos ser um fator de coesão e não de divisão. Queremos apoiar a construção de acordos que permitam tornar realidade a reforma migratória”.

Peña Nieto está na Califórnia para uma visita de dois dias a convite do governador Jerry Brown, que esteve na Cidade do México no fim de julho junto com uma delegação de empresários interessados nas reformas do México, que deverão abrir mercados como os de telecomunicações e de energia. Na segunda-feira, em Los Angeles, Brown descreveu Peña Nieto como um “líder comprometido com as reformas de seu país”. O comércio entre o México e a Califórnia supera os 60 bilhões de dólares (137 bilhões de reais) e equivale ao comércio do México com toda a União Europeia. Apenas com a cidade de Los Angeles, esse número chega aos 15 bilhões de dólares.

Na Califórnia vive um terço dos 11 milhões de imigrantes ilegais dos EUA. Aproximadamente 38% da população do Estado, o mais populoso do país, se declaram hispânicos ou latinos. Um em cada três californianos é de origem mexicana, segundo destacou Peña Nieto. Los Angeles tem a mesma proporção de um terço da população mexicana. Trata-se da cidade com maior número de mexicanos fora do México. E, se contada apenas sua área metropolitana, é também a segunda maior cidade do México atrás da capital, Cidade do México, em termos populacionais.

Peña Nieto destacou a diferença entre a Califórnia e “outros Estados que lamentavelmente não evoluíram tanto”, sem mencionar expressamente o Arizona e o Texas. Estados que “ainda menosprezam reconhecimentos e, pior ainda, os direitos dos imigrantes. A imposição de medidas discriminatórias não só é eticamente reprovável como também se distancia dos princípios de responsabilidade compartilhada e de boa vizinhança”. “Àqueles que ainda apostam na exclusão, na discriminação ou na rejeição à diversidade só tenho uma coisa a dizer: um futuro muito próximo demonstrará o erro ético de vocês”.

O ato ocorreu no lendário hotel Billmore, no centro de Los Angeles, e Brown foi o único de toda a sala a precisar de tradução simultânea para entender os discursos. Também foi o único que foi aplaudido de pé pela plateia de mexicanos. Sua administração assinou avanços como a carteira de motorista para os sem documentos e a possibilidade de obter créditos para o ensino superior. Brown, que se apresenta à reeleição em novembro, destacou a mudança profunda que a demografia provocou na Califórnia nos últimos 20 anos. “Na Califórnia gastamos bilhões de dólares em programas para estudantes que não falam inglês. Isso não acontece em nenhum outro lugar! Metade dos estudantes da Califórnia são de origem hispânica. Esse é o futuro da Califórnia”, disse Brown, entre aplausos.

O governador anunciou também que fechou um acordo com o Governo do México para por em prática um plano para reduzir os tempos de espera no posto fronteiriço de San Ysidro-Tijuana, a fronteira terrestre mais movimentada do mundo, com cerca de 30 milhões de cruzamentos por ano. Atualmente, os tempos de espera para carros pode chegar a três horas. Brown se comprometeu a fazer com que a passagem pela fronteira seja concluída em 20 minutos.

Entre o público presente estavam importantes empresários mexicanos na Califórnia, líderes de associações de imigrantes e personalidades da cultura e da política californianas. Peña Nieto viaja com uma delegação empresarial e com 11 governadores de Estados mexicanos. Nesta terça-feira, o presidente do México deve almoçar com o governador Brown em Sacramento e fazer um discurso na Assembleia estatal.

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