Habemus papa Francisco no cinema

Três filmes vão narrar a vida de Bergoglio, e Sorrentino se une à febre episcopal com uma série

Ação! Um carro avança pela Buenos Aires dos anos setenta. De repente, aparece um posto de controle. Na Argentina de Videla, não pode significar nada de bom para seus passageiros. Talvez os retenham, ou algo pior. Jorge Mario Bergoglio é o primeiro a intuir os riscos. Tanto que se lança do veículo em marcha e, depois de uma cambalhota, aterrissa em um lugar escondido, a salvo. E...pare!

A interrupção não é do diretor, mas de um jornalista. De fato, Nello Scavo deteve a sequência antes que nascesse. E fez o mesmo com as propostas que choviam para que adaptasse La Lista de Bergoglio (Editorial Claretiana), seu livro sobre aqueles que o futuro Papa salvou durante a ditadura argentina. “Queriam fazer uma série nos EUA, com muito perigo. Tive propostas da Holanda e França para contar a paixão do Papa pelo tango ou a noiva de sua juventude”, relata o italiano, do diário católico Avvenire. E com os muitos zeros que reluziam nos contratos, respondeu que não. Entre outras coisas, porque já tinha dito sim. La Lista de Bergoglio seria um filme, mas respeitoso com sua pesquisa e dirigido por quem ele considera uma garantia: Liliana Cavani.

“Eu gostei do livro, simples e inteligente”, recorda a cineasta. Tanto que chamou Claudia Mori e a incentivou a produzir esse filme. Cavani (que retratou São Francisco no cinema) passará o outono europeu rematando o roteiro com Scavo e Umberto Contarello, roteirista de A Grande Beleza. A equipe espera rodar na primeira metade de 2015 e estrear na segunda metade do ano.

O então cardeal Jorge Mario Bergoglio viaja no metrô de Buenos Aires em 2008.
O então cardeal Jorge Mario Bergoglio viaja no metrô de Buenos Aires em 2008. (AP)

Mesmo que na ocasião vá ser o segundo Bergoglio fictício nas telas. Por que Call me Francisco vai ser filmado a partir de outubro –em espanhol, entre Argentina, Itália e Alemanha– e chegará às salas de exibição em abril de 2015, segundo seu produtor, Pietro Valsecchi. O diretor, Daniele Luchetti (Meu Irmão é Filho Único), está finalizando a formação do elenco na Argentina.

E quem será Bergoglio? A resposta mescla evasivas e off the record. Ao que parece, há vários autores de quarentena e com prêmios estudando o esboço de La Lista de Bergoglio. “Temos contatos avançados com um grande intérprete inglês”, detalha Mori, que estuda propostas internacionais de coprodução. O outro grupo, depois de sonhar com Banderas, agora sonha com Rodrigo de la Serna. “É uma opção concreta”, afirmou ontem Luchetti. Valsecchi acrescenta que “a maior parte da distribuição será argentina” e que venderão o filme no mercado de Cannes.

'Call me Francisco' será rodado no outono e quer chegar às salas em abril de 2015

Certo sigilo envolve ambos os projetos. “Sei como o filme começará, mas não vou te contar”, ri Contarello. E Valsecchi relata uma sequência sobre como Bergoglio acaba em uma igreja, depois de jogar futebol com os amigos, e descobre seu caminho. Por ora, mais mistérios ainda rodeiam uma terceira obra: Nicola de Angelis também quer produzir um filme sobre Bergoglio. De seus escritórios contam que o filme, ainda sem diretor, será inspirado em textos do papa Francisco e analisará sua visão espiritual.

Assim, os bergoglios do cinema sobem para três, além do recente documentário Francisco de Buenos Aires. É preciso acrescentar ainda o pontífice que o diretor Paolo Sorrentino retratará em The Young Pope (o jovem papa),uma série de oito capítulos e 22 milhões (66 milhões de reais) sobre Lenny Belardo, um imaginário papa ítalo-americano. Mas, sim, falta muito para que as ideias se tornem realidade. Daí que a Santa Sé se recuse a comentar os projetos. “Acha que o Vaticano vai opinar sobre algo que nem tem roteiro?”

A equipe de ‘La Lista de Bergoglio’ prevê a estreia para o final do próximo ano

Ainda assim, vários elos unem os dois filmes principais. O orçamento é parecido –ao menos oito milhões–, bem como o formato: um longo que logo passe, ampliado e por etapas, à televisão. Ambos os filmes se baseiam em livros de jornalistas: o de Luchetti conta com Francisco. El Papa de la gente (Aguilar), de Evangelina Himitian, de La Nación.Embora Valsecchi tenha antes tentado ser o primeiro com o livro de Scavo. “Houve falta de integridade, não da minha parte”, diz o produtor. O jornalista responde que “nunca houve nada escrito nem se falou de dinheiro ou prazos.”

O santo padre e a sétima arte

A Igreja considera Pedro como o primeiro Papa. Nessa época, o cinema ainda não existia e nem era esperado. Mas, não se passou nem um ano entre seu nascimento e a estreia papal: em 1896, foi projetado Sua Santitá papa Leone XIII,de Vittorio Calcina.

Mais recentes são o Julio II interpretado por Rex Harrison em Agonia e Êxtase (1965), de Carol Reed e o Leon I que convence Átila a não invadir Roma em A Invasão dos Bárbaros (1954), de Pietro Francisci.

Luigi Magni multiplicou o Santo Padre nas telas com Em Nome do Papa Rei (1977) e State buoni... se potete (1983).

Nos anos noventa, O Poderoso Chefão III mostrou a morte de João Paulo I e Il Marchese del Grillo (1981), de Mario Monicelli, retratou um Pio VII humilhado por Alberto Sordi.

Em Amém (2002), de Costa-Gavras, Marcel Iures interpretou Pio XII, acusado de não se opor aos nazistas.

A Papisa Joana (2009), foi dirigido por Sönke Wortmann. A mesma personagem já havia aparecido em Joana, a Mulher que foi Papa (1972), de Michael Anderson.

Nanni Moretti retratou em 2011 o fugaz cardeal Melville, interpretado por Michel Piccoli (na foto), em Habemus Papam.

A série Os Bórgias, criada por Neil Jordan e com Jeremy Irons como Rodrigo Bórgia, e Borgia, de Tom Fontana, levaram os papas para as telas da TV.

Tanta tensão não é o que prega Bergoglio, um homem capaz de recolocar a Igreja no centro das atenções. “Pela primeira vez um papa falou também a mim, que sou laico. Embora ao receber o projeto eu pensasse que não haveria nada a contar. Que interesse teria a vida de um homem que seguiu a carreira eclesiástica? No entanto, sua história não é só a de alguém que chega a ser papa, mas de um argentino, de um personagem político e religioso, e da ditadura”, defende Luchettti. E esse buraco negro da Argentina é outro ponto em comum: ambos os filmes tratarão do período em que Francisco era o provincial (o responsável) pelos jesuítas e o regime tragou milhares de almas. Os anos setenta são o núcleo de La Lista de Bergoglio e um dos pilares de Call me Francisco. “A ideia é partir da sua infância, centrar-se em sua formação e na ditadura, narrar sua vida como arcebispo e a eleição para papa”, esclarece Himitian.

Justo a sinopse é uma das diferenças. La Lista de Bergoglio acompanha um jornalista que, após o habemus papam, investiga na Argentina o papel dele na ditadura e descobre que muitas pessoas foram salvas graças à sua ajuda. No livro —para o qual prepara uma sequência —, Scavo relata episódios com nomes e sobrenomes, e narra a resistência de várias testemunhas. No começo, suspeitou que Bergoglio escondia algo. Mas concluiu que o silêncio daqueles que haviam recebido ajuda se devia ao fato de que “ele não quis se enaltecer”.

Francisco. El Papa de la Gente é uma biografia, narrada de seu entorno mais próximo. Uma obra privilegiada, já que o pai de Himitian é amigo de Bergoglio e a autora, evangélica, o entrevistou várias vezes. Até pôde entregar-lhe o livro: “Ao chegar ao Vaticano, não estava na lista e por isso não podia entrar. Ele saiu e disse aos guardas que me deixassem passar”. Trata-se da marca de Bergoglio, um Papa próximo, “conservador no dogmático, mas progressista no social”, segundo Himitian, que ganhou a simpatia de todos. “Estão os que são pobres, e depois o nada. Ele defendeu o nada”, acrescenta Valsecchi. Com tantos elogios e duas equipes de algum modo ligadas à Igreja, tudo não será reduzido a mera apologia ao Papa? “Não faremos um santinho (imagens impressas dos santos), mas um filme”, prometeu Valsecchi.

Na verdade, os entrevistados protegem Bergoglio dos ataques que sofreu após sua nomeação. O jornalista Horacio Verbitsky o acusou de não ter se oposto à ditadura e o Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, no prólogo do livro de Scavo, exime Francisco de culpa, mas ressalta que ele “não participou, na época, da luta pela defesa dos direitos humanos”. Os entrevistados deixam de atribuir as críticas aos opositores de Bergoglio para colocá-lo no que Alfredo Somoza, um dos que foram salvos por Francisco, chama de “terceiro grupo”: parte da Igreja que nem resistiu até a morte nem foi cúmplice, mas que, sem condenar o regime, ajudou a salvar muita gente.

No campo minado do passado, os dois filmes trafegam com cautela. Haverá liberdade criativa, mas não histórica. E juram que não haverá corrida por bilheteria. “Pode ocorrer, mas parecem comprometidos com o projeto”, afirma Himitian. As duas equipes asseguram não notar o peso de um personagem tão transcendente. Apesar disso, Valsecchi confessa: “Podemos fazer uma estupidez ou uma obra-prima. Será a segunda. E que Deus nos ajude”. Nunca melhor dito.

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