O jovem negro morto recebeu pelo menos seis disparos de um policial

A autopsia pedida pela família contrasta com a falta de detalhes da análise oficial

O legista que realizou a autópsia, nesta segunda-feira em Saint Louis.
O legista que realizou a autópsia, nesta segunda-feira em Saint Louis.JOE RAEDLE (AFP)

Os resultados preliminares da autopsia particular realizada no corpo de Michael Brown, o jovem afro-americano desarmado que morreu há nove dias por disparos de um policial branco em Ferguson, ofereceram nesta segunda-feira as primeiras pistas oficiais de como ele faleceu. Não esclareceram os motivos por trás do acontecido, responsável pelos maiores protestos raciais em quase um século na área de Saint Louis, no Meio Oeste dos EUA, cuja população é majoritariamente negra. Ela acusa a polícia, exclusivamente branca, de atuar frequentemente com racismo.

O exame foi solicitado pela família e efetuado no domingo por Michael Baden, um legista famoso nos meios de comunicação. A polícia do condado realizou uma primeira autopsia no dia seguinte ao tiroteio, e o Departamento de Justiça anunciou no domingo que fará outra a pedido da família Brown pelas “circunstâncias extraordinárias” do caso. Pessoas próximas ao falecido desconfiam do exame das autoridades locais, porque os primeiros resultados, anunciados na última terça-feira, se limitavam a certificar que o rapaz morreu por disparos, mas não especificava quantos recebeu, anunciando ao final que as conclusões definitivas estariam prontas quatro semanas depois.

Por outro lado, os resultados do exame independente são muito mais completos. Segundo os dados apresentados nesta segunda-feira, Brown recebeu pelo menos seis disparos, todos eles de frente em plena luz do dia em uma rua residencial. Quatro impactos ao longo do braço direito – do ombro até a palma da mão – e dois na cabeça, um na parte superior do crânio e o outro em cima da sobrancelha direita. Duas das balas poderiam ter voltado a entrar no corpo. A equipe de legistas considera que o “mais provável” é que os dois disparos na cabeça foram os últimos que recebeu e que Brown poderia ter sobrevivido se não fosse pelo tiro na parte superior da cabeça.

Baden explicou que o jovem teria cambaleado enquanto se afastava do agente, mas evitou especular, à espera de novas provas, sobre a posição de seu corpo. Disse que ele poderia ter se virado enquanto se afastava, ter colocado seus braços em uma posição defensiva para proteger o rosto ou ter levantado os braços. Trata-se de um elemento chave: a polícia assegura que o jovem atacou o agente que o matou, mas o rapaz que acompanhava afirma que Brown foi atingido quando tinha levantado os braços. Por outro lado, Brown havia fumado maconha quando faleceu, segundo uma investigação do condado citada pelo jornal The Washington Post.

Outro detalhe relevante é que o jovem, segundo a autopsia pedida pela família, foi atingido de uma distância de pelo menos 30 centímetros. O legista apontou que não foi encontrada pólvora na pele de Brown – isso certificaria que recebeu os tiros de longe –, mas destacou que é preciso esperar a análise da roupa do rapaz para chegar a uma conclusão definitiva. Baden tampouco encontrou evidências de luta entre Brown e o agente além das feridas no rosto do rapaz, causadas pela queda no chão.

A versão policial é que o agente recebeu alguns arranhões no rosto, que aconteceu uma luta por sua arma no carro de polícia e que pelo menos um tiro foi disparado dentro do veículo. Essa versão ficaria anulada se os exames demonstrarem que não houve nenhum disparo a curta distância.

Ao lado do legista, um dos advogados da família, Daryl Parks, afirmou que a autopsia “apoia” a versão de que Brown “estava tentando se render”. A falta de respostas oficiais junto ao uso de agentes fortemente armados foram os principais fatores que deram força aos protestos depois do falecimento de Brown, dia 9 de agosto. Baden disse que, quanto antes tiverem informações, mais cedo a família se acalmará e diminuirá o medo de encobrimento de detalhes.

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