Santos, uma cidade em choque

Em meio a uma forte comoção e a movimentação de autoridades, os cerca de 400.000 santistas alteram sua rotina com a tragédia

Membro das Forças Armadas recolhem pedaços do avião.
Membro das Forças Armadas recolhem pedaços do avião.

O choque estampado no rosto dos moradores da cidade litorânea paulista de Santos desde a manhã desta quarta-feira revela a gravidade de uma tragédia que dificilmente será esquecida pelos seus pouco mais de 400.000 habitantes. Em meio ao tempo fechado e à chuva intermitente, a queda da aeronave com o presidenciável Eduardo Campos e outras seis pessoas provocou forte comoção. O acidente, ocorrido em uma área residencial e pacata do bairro do Boqueirão, traz um tom de grande pesar à rotina de todos os santistas.

Aos poucos, a cidade, afeita no cotidiano aos assuntos ligados ao movimento do maior porto da América Latina e aos temas lúdicos relacionados ao futebol do time de Pelé, tenta dimensionar e compreender o que realmente aconteceu. Nas ruas e no comércio, os que se familiarizavam com a notícia reagiam com espanto e tristeza ao longo de todo o dia. Como não poderia deixar de ser, a notícia e os comentários sobre o acidente tomaram conta do vocabulário nesta quarta-feira, entre os incontáveis telefonemas entre amigos e parentes ainda atônitos e alarmados com o que ocorreu. 

“O que vai acontecer agora?”, perguntava-se uma senhora, ainda atônita mas aliviada pelo fato de não haver vítimas em uma escola infantil próxima. “Vim correndo para ajudar um conhecido que sei que tem mobilidade reduzida”, acrescentava um homem recém-chegado ao local. Desolado, um vereador do PSB no Guarujá, que esperava a chegada de Campos para uma caminhada na cidade, se deslocou ao perímetro do acidente para confirmar a suspeita de que o aparelho caído era o mesmo do candidato à Presidência.

O dia começou com informações desencontradas dando conta da queda de um helicóptero em uma área residencial, e que acabou com a impactante notícia da morte de Campos e os outros seis ocupantes da aeronave Cessna 560 XL. Na realidade, o avião usado pela comitê de campanha de Campos arremeteu na base aérea da cidade, que fica na vizinha Guarujá.

Aturdidos e assustados, os moradores das ruas Vahia de Abreu e Alexandre Herculano, próximas ao local do acidente, contavam aos jornalistas sobre uma forte explosão, uma bola de fogo cruzando os céus, vidros quebrando e abalos que teriam sido sentidos a pelo menos três quadras de distância, além de muita fumaça. O cheiro de queimado e de querosene era trazido com o vento ao exterior da área isolada pelas autoridades.

Pela manhã, alguns vizinhos deixaram suas casas no Boqueirão ainda de chinelo e com as roupas arrumadas às pressas, após a intervenção do Corpo de Bombeiros. Esta noite dormiram fora das suas camas pois ainda não há previsão de liberação de suas casas. O dono de uma banca de jornal, a menos de 50 metros do local onde caiu a aeronave, atendia à imprensa sob a chuva ao mesmo tempo em que procurava saber se havia mortos no acidente. “Eu sou da região e conheço todo mundo por aqui”, dizia preocupado.

A quatro quilômetros dali, na Prefeitura, no centro da cidade, a movimentação de políticos não era menos intensa. O entra-e-sai de autoridades na sede do Executivo municipal trazia a certeza de que não se tratava de um dia qualquer.

O governador paulista Geraldo Alckmin e a candidata a vice na chapa de Campos, Marina Silva, chegavam abalados. Segundo relatos colhidos no local, Silva teria chegado chorando. O vice-presidente Michel Temer e o ministro da Casa Civil, o santista Aloizio Mercadante, que disseram estar no local atendendo à presidenta Dilma Rousseff, completavam a comitiva do luto.

Enquanto isso, no salão nobre da Prefeitura, mais de 50 jornalistas se aglomeravam em espaços improvisados, à espera, sobretudo, do depoimento de Marina Silva, que continuou visivelmente abalada. Após os pronunciamentos, a deputada federal Luiza Erundina, integrante do partido de Campos e ex-prefeita de São Paulo, tentava resumir ao EL PAÍS o que estava sentindo. “O aturdimento é muito grande”, dizia antes de deixar o local no fim da tarde.

À noite, os trabalhos de investigação e resgate continuavam nas imediações do acidente, em uma área isolada por faixas e ainda sem energia elétrica. Os engarrafamentos e o trabalho improvisado dos agentes de trânsito ainda se intensificavam nas proximidades do local da queda da aeronave. À espera de mais informações sobre o acidente, a cidade se recolhe. Mas com a certeza de que a tragédia nunca será esquecida.