Obama impõe limites na nova intervenção dos EUA no Iraque

A missão aplica a doutrina relativista do presidente sobre as guerras justas O seu Governo foi criticado pela moderação na operação contra os insurgentes

Um avião C-17, preparado para lançar água a refugiados iraquianos.
Um avião C-17, preparado para lançar água a refugiados iraquianos.US Air Force (AFP)

Barack Obama é o comandante-em-chefe das forças armadas mais letais da história. Também é um líder que, desde que chegou ao poder, se esforçou, às vezes de maneira agônica, em delimitar os limites do poder de seu país. A intervenção aérea no Iraque –no domingo, aviões e drones lançaram uma quarta rodada de ataques contra os insurgentes sunitas– é um exemplo didático do método Obama.

O trauma pela fracassada invasão do Iraque em 2003, quando George W. Bush era presidente, sobrevive nos EUA. Poucas coisas amedrontavam mais Obama, o presidente que retirou as tropas da Mesopotâmia, do que voltar a ver em uma mesma manchete as palavras “Estados Unidos”, “bombas” e “Iraque”.

Mas a nova missão, que começou na sexta-feira, tem pouco a ver com a anterior. Com o republicano Bush, tudo era possível: encontrar armas de destruição em massa, substituir o regime, democratizar o Oriente Médio. Com o democrata Obama ocorre o contrário: a missão se define por seus limites e por aquilo que não é possível.

As primeiras críticas do Partido Republicano chegam por este flanco: a maior potência mundial não deve renunciar a todas as suas capacidades se quiser apagar o incêndio no Iraque e países vizinhos. Outra crítica, esta de fogo amigo: em uma entrevista à revista The Atlantic, Hillary Clinton, ex-secretária de Estado de Obama e possível candidata presidencial em 2016, atribui a ascensão dos jihadistas do Estado Islâmico (EI) à recusa do presidente em armar aos rebeldes moderados da Síria, país vizinho do Iraque, o que deixou espaço para o crescimento do EI na Síria e no Iraque.

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Primeiro limite de Obama no Iraque: os EUA não enviarão tropas terrestres. Segundo: o objetivo imediato se circunscreve a evitar que os jihadistas tomem Erbil, a capital do Curdistão iraquiano, e impedir a matança da minoria yazidi. E terceiro: qualquer estratégia mais ampla que procure não mais conter, e sim derrotar o EI, exige a colaboração dos líderes iraquianos, agora divididos e incapazes de frear sozinhos a insurgência.

Em uma carta que enviou na sexta-feira ao presidente da Câmara dos Deputados e ao vice-presidente dos EUA, Joe Biden –que é também, por força do cargo, o presidente do Senado–, Obama comunicou, de acordo com a resolução de poderes de guerra, que as operações militares serão “limitadas em seu alcance e duração”. Mas no sábado, em uma entrevista coletiva antes de sair de férias para a ilha de Martha’s Vineyard, Obama disse que a operação não seria uma questão de semanas, e sim “projeto de longo prazo”.

O jurista Jack Goldsmith, que trabalhou na Administração Bush, observa no blog Lawfare outra possível incoerência. Em setembro de 2013, quando se preparava para iniciar uma intervenção aérea contra Síria, também “limitada em seu alcance e duração”, Obama pediu aval do Congresso. Desta vez, não solicitou a autorização do Congresso, embora seja verdade que, ao contrário do que ocorria na Síria, conte com a permissão do Governo do Iraque para intervir.

A principal incoerência poderia parecer a volta ao Iraque depois de Obama ter prometido virar a página naquele país. Mas a operação, tal como se desenrolou nos primeiros dias, põe em prática de maneira fiel as ideias que Obama esmiúça ao longo de mais de uma década, desde antes de chegar à Casa Branca, em janeiro de 2009.

Obama nunca foi um pacifista. “Não me oponho a todas as guerras. Eu me oponho às guerras tolas”, disse em uma manifestação contra a invasão do Iraque em 2 de outubro de 2002 em Chicago, quando era senador estadual em Illinois.

“O mal existe no mundo. Um movimento não violento não teria podido deter os exércitos do Hitler. As negociações não podem convencer os líderes da Al Qaeda a deporem as armas”, disse Obama em 10 de dezembro de 2009, ao receber o Prêmio Nobel da Paz, num discurso que foi uma defesa da guerra justa. “Parte de nosso desafio é reconciliar duas verdades aparentemente irreconciliáveis: que a guerra às vezes é necessária, e que a guerra, em certo nível, é uma expressão da loucura humana.”

Na academia militar de West Point (Nova York), em maio passado, Obama descreveu as condições sob as quais os EUA podem intervir militarmente em outro país. “Os Estados Unidos usarão a força militar, unilateralmente se for necessário, quando nossos interesses fundamentais assim exigirem: quando nosso povo estiver ameaçado, quando nossa forma de vida estiver em jogo, quando a segurança de nossos aliados estiver em perigo”, disse. Essa condição justificaria os bombardeios para proteger os diplomatas e militares norte-americanos destacados em Erbil.

Em West Point, o presidente distinguiu essas operações – destinadas a defender o interesse nacional dos EUA – de outras em defesa dos direitos humanos e da estabilidade global. Nesses casos, disse que “o limiar para a ação militar deve ser mais alto”, e que os EUA “não deveriam ir sozinhos”, e sim “mobilizar aliados e sócios em uma ação coletiva”. Assim se explica por que Obama não quer que os EUA encabecem a luta para derrotar os jihadistas sunitas.

Algo diferente é um eventual genocídio dos yazidis. O presidente não mencionou a palavra “genocídio” em West Point, e na quinta-feira seu porta-voz, Josh Earnest, não soube esclarecer a jornalistas se um genocídio ameaçaria os interesses nacionais dos EUA. Esqueceu-se de que em agosto de 2011 seu chefe assinou uma diretriz em que se lê: “Evitar atrocidades maciças e genocídio atende ao interesse nacional de segurança fundamental e à responsabilidade moral fundamental dos Estados Unidos”. Assim se explicam os bombardeios para romper o cerco a milhares de yazidis refugiados no monte Sinjar, no noroeste do Iraque, com risco de morrerem de fome e sede.

As ações dos EUA nos últimos dias são “claramente pouco efetivas, para dizer com modéstia”, disse o senador republicano John McCain na rede CNN. “Isto está se transformando, conforme antecipamos há tempos, em um conflito regional que ameaça a segurança dos Estados Unidos da América.”

A doutrina Obama é outra: “Não fazer tolices”, resumiu, reservadamente. “As grandes nações necessitam de princípios que organizem [o mundo], e ‘não fazer tolices’ não é um princípio organizativo”, rebate Hillary Clinton na entrevista à The Atlantic.

Mas o mundo de Obama não é todo em preto e branco, e sim cheio de matizes e cinzas, de argumentos destilados, mais próprios de um homem em permanente debate consigo mesmo e do jurista que o presidente é por formação do que de um líder decidido, porta-estandarte da “clareza moral” –para usar um termo frequente nos anos posteriores ao 11 de Setembro–, como era George W. Bush.

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