“Estou muito deprimido, mas tento me cuidar e comer sem apetite”

Um padre e uma religiosa estão isolados na Libéria por suspeita de contaminação por ebola

Miguel Pajares, à esquerda, e um enfermeiro em 2011.
Miguel Pajares, à esquerda, e um enfermeiro em 2011.

Miguel Pajares, sacerdote da Ordem de São João de Deus e superior do Hospital Católico Saint Joseph em Monróvia (Libéria), disse a este jornal na segunda-feira que estava “mal, muito deprimido” desde o seu isolamento no centro hospitalar. Apresentando os sintomas do vírus ebola, o religioso espanhol de 75 anos comentava, com voz cansada, que está tentando se cuidar. “Procuro beber chá e comer alguma coisa, mesmo que não tenha apetite”, contava por telefone. Mas o que mais o preocupava era que, depois de coletar amostras de manhã, ainda não sabia o resultado das análises: “Não saber o que dizem os testes [de detecção da doença] nos deixa apreensivos”. De acordo com um porta-voz da ONG Juan Ciudad, entidade vinculada à Ordem de São João de Deus, o estado de saúde do religioso tinha piorado desde domingo.

O hospital onde se encontra o religioso está fechado. Além de Pajares, existem outras cinco pessoas em isolamento, segundo a ONG. Apenas uma delas apresenta “alguns sintomas” da doença. É a congolesa Chantal Pascaline, da Ordem das Missionárias da Imaculada Conceição. Com elas, estão duas outras religiosas da mesma congregação: Paciencia Melgar, da Guiné Equatorial, e Juliana Bohi, da mesma origem, mas de nacionalidade espanhola. Ambas, assim como outro religioso, o ganês George Combey, administrador hospital, estão em boas condições de saúde.

A ONG diz, ainda, que os ministérios da Saúde e das Relações Exteriores da Espanha têm acompanhado o estado das pessoas isoladas no hospital. A comunidade espanhola na Libéria conta com cerca de 30 pessoas, a maioria religiosos e colaboradores.

O padre espanhol tratou do camaronês Patrick Nshamdze, diretor do centro hospitalar, que morreu vítima do ebola no sábado. Como os testes de detecção do vírus feitos em Nshamdze inicialmente deram negativo, as medidas de proteção foram relaxadas. Agora ele é que aguarda o resultado da análise para determinar se o motivo da febre e do cansaço que vem sentindo tem a mesma origem da doença que matou seu colega.

O tratamento que está recebendo se limita a paracetamol para a febre e as dores, além do combate à desidratação. Na sexta-feira, a entidade Juan Ciudad enviou dois carregamentos aéreos de produtos hospitalares para a proteção e o isolamento dos funcionários, que estão chegando esta semana.

“Meu primo não responde os e-mails”, “Com seus 75 anos, viria em agosto para ficar, e olha o que aconteceu”, dizia segunda-feira a este jornal Begoña Martín Villergas, que visitou seu familiar várias vezes na Libéria.

Centenas de tropas foram enviadas a Serra Leoa e Libéria como parte dos planos de emergência para combater o pior surto de ebola da história, que já infectou 1.603 pessoas, das quais 887 morreram, de acordo com a última contagem OMS.