Israel e as facções palestinas anunciam um novo cessar-fogo de 72 horas

Os três dias de trégua, conseguidos com a mediação egípcia, começam às 2h (horário de Brasília)

Um palestino faz uma busca entre os escombros. (reuters_live)

O Governo israelense e as várias facções palestinas aceitaram na noite desta segunda-feira a proposta egípcia de cessar-fogo. O acordo inclui uma trégua prorrogável de 72 horas, durante as quais se realizarão negociações para buscar um acordo definitivo que ponha fim ao conflito na Faixa de Gaza, que tirou a vida a 1.830 palestinos (75% deles civis) e de 67 pessoas no lado israelense (na grande maioria militares, com exceção de três). O cessar-fogo acertado se iniciará às 8h locais da manhã da terça-feira (2 horas no horário de Brasília). A última trégua, anunciada na quinta-feira de madrugada pelo secretário de Estado dos EUA, John Kerry, e pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, durou somente 90 minutos.

"Todas as facções palestinas, incluindo o Hamas, aceitaram sem reservas a proposta egípcia. Esperamos que Israel se comprometa com as conversações e possamos chegar ao fim da guerra", declarou ao EL PAÍS Kays Abdel Karim, um dos membros da delegação palestina presente no Cairo. A delegação israelense não compareceu à capital egípcia, mas o Conselho de Ministros de Israel aceitou a proposta egípcia. "Estamos de acordo em começar a pôr em prática a iniciativa do Egito. Se o cessar-fogo for mantido, não haverá necessidade de uma presença das forças [israelenses] na Faixa de Gaza", declarou uma fonte oficial israelense à agência Reuters.

Israel, que havia se recusado a enviar uma delegação ao Cairo –alegando que o Hamas tinha rompido o último acordo de trégua temporária– e que havia declarado para esta segunda-feira cinco horas de cessar fogo "humanitário", estaria disposto agora a enviar seus negociadores ao Egito, segundo indicam várias fontes. O conflito já completa quatro semanas.

Do lado palestino, sua delegação, integrada por representantes da OLP, do Hamas (que governa a Faixa desde 2007 e é considerado grupo terrorista pelos EUA e pela UE) e da Jihad Islâmica, manteve nesta segunda-feira reuniões com altos representantes dos serviços de inteligência egípcios, incluindo seu diretor, Mohamed Farid al-Tohamy, que assumiram o papel de mediadores. Participou também dos esforços diplomáticos Fran Lowenstein, o enviado do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Agora só é preciso que ambos os lados sejam capazes de cumprir o pactuado. Contudo, o fato de que uma delegação formada pelas principais facções palestinas tenha se deslocado até a capital egípcia, e que Israel esteja recebendo pressões para fazer o mesmo, representa um importante esforço de mediação.

As facções palestinas, afirmou Ziad Nakhala, o representante da milícia da Jihad Islâmica, apresentaram aos mediadores egípcios uma série de condições consensuais que consideram necessárias para conseguir o fim permanente das hostilidades. Entre as exigências, está a retirada das tropas israelenses de todo o território de Gaza, o fim do bloqueio à Faixa, a ampliação para cerca de 18 quilômetros da superfície na qual os pescadores gazenses podem trabalhar e a libertação dos presos palestinos detidos desde o início da crise.

OS EUA pedem que o Hamas demonstrem seu compromisso

O vice-assessor de segurança nacional dos EUA, Tony Blinken, afirmou nesta segunda-feira à rede CNN que o novo cessar-fogo "deveria" funcionar porque Israel conseguiu seus principies objetivos na Faixa de Gaza: controlar os túneis do Hamas e o lançamento de foguetes. Não obstante, Blinken enfatizou em Washington que dependerá da vontade da organização islâmica em "demonstrar" seu verdadeiro compromisso, informa Joan Faus. Na sexta-feira, quando o cessar-fogo negociado pelos EUA e pela ONU fracassou, a Casa Branca já pôs o foco no Hamas. Em longo prazo, Blinken advogou por uma trégua permanente que promova a segurança de Israel e o desenvolvimento de Gaza.

Desde que começou o fogo cruzado entre Israel e o Hamas, há um mês, Washington tratou de fazer equilíbrios. Manifestou, por um lado, um apoio ardente ao direito de Israel a defender-se e condenou os foguetes lançados pelo Hamas. Mas, do outro, declarou sua crescente preocupação pelas mortes de civis e pedindo contenção. Paralelamente, tratou, sem muito êxito e com a ajuda de países da região, de impulsionar um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, que considera um grupo terrorista e com o qual se recusa a negociar diretamente.

Na última semana, contudo, o Governo Obama foi subindo ligeiramente o tom diante do crescente número de civis palestinos mortos em ataques de Israel a edifícios aparentemente pacíficos, como instalações da ONU. Antes do cessar-fogo anunciado na quinta-feira, que fracassou uma hora e meia depois, os EUA criticaram a elevada cifra de civis mortos e pediram a Israel "fazer mais" para evitá-las. Depois do ataque do domingo contra as imediações de uma escola da ONU, o Departamento de Estado endureceu a linguagem e se declarou "consternado" pelo "vergonhoso" acontecimento. Nesta segunda-feira, a Casa Branca insistiu que Israel deve fazer mais para evitar mortes de inocentes.