A América Latina tem a sua perspectiva de crescimento reduzida para 2,2%

A CEPAL alerta para uma deterioração do consumo privado e do investimento

Com o passar dos meses, as previsões sobre o desempenho econômico da América Latina vão sendo rebaixadas. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), órgão das Nações Unidas que historicamente tem se caracterizado por seu pensamento heterodoxo, fechou 2013 com uma perspectiva de 4,5% de crescimento para a região em 2014, com o que reverteria a desaceleração dos últimos anos. Economistas privados também previam uma melhora. Mas, nesta segunda-feira, a CEPAL rebaixou suas previsões, pela segunda vez neste ano, para 2,2%.

Durante uma entrevista coletiva em Santiago do Chile, sede da CEPAL, a secretária-geral Alicia Bárcena, do México, atribuiu a redução a três fatores: um ambiente global menos favorável com a queda dos preços das matérias-primas e, apesar da recuperação dos EUA e da persistente liquidez global, uma desaceleração do consumo privado e uma queda do investimento. Ela também alertou, em particular, para a situação da Argentina, que na quarta-feira passada, não conseguiu pagar uma dívida na data de vencimento por causa do bloqueio de um tribunal dos EUA. Embora o relatório divulgado segunda-feira preveja que o país cresça 0,2% em 2014, Bárcena esclareceu que “a cifra é otimista demais, a situação mudou” desde que a previsão foi feita e, por isso, o órgão deixou esse número “em suspenso”.

O Brasil, que no ano passado cresceu 2,5%, deveria crescer 2,6% em 2014, segundo a previsão da CEPAL no final de 2013, mas a agência agora prevê 1,4%, abaixo do 1,8 % calculado pelo Governo de Dilma Rousseff. Uma pesquisa da consultoria FocusEconomics com bancos e consultorias em julho passado observa que o Brasil deve crescer 1,2%. O economista da CEPAL Jürgen Weller disse que o desafio da economia brasileira consiste em aumentar a produtividade para aproveitar melhor seu mercado interno, regional e global.

O México, que em 2013 foi o país com o menor crescimento na América Latina (1,1%), iria acelerar este ano para 2,5%, segundo a CEPAL. Evidentemente, o organismo já não espera 3,5%, como em dezembro passado. Bárcena negou que a reforma tributária do Governo Enrique Peña Nieto, com seus aumentos de impostos, tenha desencorajado o crescimento, destacou a maior carga tributária sobre os que têm mais e previu um aumento do investimento. A FocusEconomics prevê um crescimento de 2,7% no PIB mexicano, apesar de previsões como a do grupo financeiro Monex falarem em 1,9%.

A Argentina, que no ano passado cresceu 3%, cresceria 2,6% em 2014, segundo previa a CEPAL em dezembro. Mas no mês seguinte veio a desvalorização do peso e agora eclodiu a crise da dívida, que pode limitar-se apenas a determinados títulos públicos, como até agora, ou pode resultar em uma suspensão de pagamentos de todos os bônus. Ela pode ser resolvida rapidamente se os bancos internacionais acabarem comprando dos fundos abutre o passivo em litígio nos EUA. “A Argentina vive uma situação bastante inédita, na qual um juiz de Nova York determina a questão dos pagamentos. A Argentina tinha negociado 92% da dívida, só faltavam 8% (para negociar). É uma situação de grande repercussão na estrutura financeira global: pode desestimular as renegociações de dívida soberana. É preciso ver como se resolve, esperar um pouco”, disse Bárcena. A FocusEconomics, em sua sondagem antes da crise da dívida, previa uma contração de 0,7% no PIB argentino, com quedas de 2,1%, segundo o Deutsche Bank.

O Brasil crescerá 1,4% este ano e o México, 2,5%; Panamá, Bolívia e Colômbia teriam os maiores níveis de expansão

A Colômbia seria um dos poucos países a acelerar em 2014, até mais do que o México: 5%, depois dos 4,7% de 2013, e só ficaria atrás do Panamá (6,7%) e da Bolívia (5, 5%), segundo a CEPAL. A economia colombiana melhora com as exportações de petróleo e carvão, cujos preços não caíram como os de outras matérias-primas, e com o “esforço no investimento”, tanto público como privado, de acordo com Bárcena. Em dezembro, a previsão de crescimento para a Colômbia era de 4,5%.

A Venezuela, por outro lado, teve o pior desempenho, junto à Argentina. Depois de crescer 1,3% em 2013, a CEPAL rebaixou sua previsão de crescimento de 1% para uma retração de 0,5% no PIB. A FocusEconomics antecipa uma queda de 1,8% e uma inflação de 63,9%, acima da previsão de 29,4% para a Argentina antes da crise da dívida.

Chile e Peru desaceleram por causa da queda no preço dos minérios. O Chile, que tinha crescido 4,1% em 2013, sofreu uma queda de 4% para 3%, nas expectativas para 2014, segundo a CEPAL. No entanto, Bárcena confia nas reformas governamentais de Michelle Bachelet, incluindo a injeção de capital na mineradora estatal Codelco. O Peru, que acaba de crescer 5,8% no ano passado, teve sua previsão de crescimento rebaixada de 5,5% para 4,8%, segundo a CEPAL. A FocusEconomics também prevê 4,8%, apesar de alguns bancos como o JP Morgan preverem 4,2%.

A diretora da Cepal recomendou à região investir mais e melhorar a produtividade, não através do “sacrifício dos trabalhadores”, isto é, da desvalorização salarial, mas através da construção de infraestrutura, do compromisso com a tecnologia e da qualificação de mão de obra, do desenvolvimento das PMEs e da integração em cadeias produtivas para a “industrialização intra-regional”.

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