Conflito no oriente médio

O Hamas e Israel aceitam uma trégua de 72 horas a pedido da ONU e dos EUA

John Kerry e Ban Ki-moon anunciam o acordo e pedem que os dois lados negociem no Egito uma paz duradoura

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry.
O secretário de Estado norte-americano, John Kerry.

Israel e o Hamas fecharam um acordo nas últimas horas da quinta-feira para um cessar-fogo “incondicional e humanitário” que entrará em vigor nesta sexta-feira, 1º de agosto, a partir das 8h da manhã no horário local (2h de Brasília), segundo anunciaram em comunicado conjunto o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

O acordo foi aceito tanto por palestinos quanto por Israel que, em conjunto, enviarão “de, imediato, delegações ao Cairo para negociar, a convite do Egito, um cessar-fogo mais duradouro”, segundo um comunicado. E segue: “As partes poderão discutir todos os temas que os preocupam nessas negociações”. Durante as 72 horas, as forças israelenses continuarão espalhadas na Faixa de Gaza.

Durante a trégua, cujo objetivo é “proporcionar aos civis inocentes um alívio muito necessário contra a violência”, os residentes de Gaza poderão receber ajuda humanitária e “enterrar seus mortos, cuidar dos feridos e se reabastecerem de alimentos”, acrescenta o texto oficial, no qual Kerry e Ban Ki-moon pedem que todas as partes “contenham-se” até o início da trégua e que “cumpram seus compromissos” enquanto esteja em vigor.

“Dependerá das partes, de todas elas, aproveitar este momento. Não há garantias”, destacou Kerry em uma breve declaração em Nova Délhi, depois de anunciar o acordo de trégua.

O Hamas afirmou que respeitará o acordo, ao mesmo tempo em que destacou que “todas as facções palestinas estão unidas neste assunto”. “Reconhecendo a petição das Nações Unidas e por consideração à situação do nosso povo, as facções da resistência entraram em acordo para uma pausa humanitária e mútua”, disse um porta-voz do grupo islâmico Sami Abu Zuhri

Em Washington, a Casa Branca enviou uma mensagem de “forte apoio” à trégua que, indicou, espera que conduza a um cessar-fogo permanente. “A única forma viável de atender às preocupações sobre a segurança de Israel e de permitir aos palestinos de Gaza levar uma vida normal”, afirmou o comunicado.

Nesse sentido, recomendou “urgência” para que as partes comecem as negociações no Cairo “de imediato” e prometeu seu “apoio” para que as conversas sejam concluídas com êxito.

Mas o próprio Kerry insistiu em reduzir as expectativas em relação a um avanço. “Não são momentos de felicidade e de alegria, não é momento de nada, exceto de mostrar uma determinação séria por parte de todos, para ver como se pode avançar”, disse. “É um respiro. É um momento de oportunidade, não é o final. Não é a solução, é a oportunidade de buscar uma solução”, insistiu.

O anúncio de trégua aconteceu depois que o secretário de Estado norte-americano aterrissou na Índia e horas depois de que a máxima autoridade da ONU em Direitos Humanos, Navy Pillay, acusou ambas as partes de violar a legislação humanitária internacional e cometer crimes de guerra na Faixa de Gaza. Kerry afirmou que a trégua é “uma oportunidade” para a paz e que os Estados Unidos enviarão uma delegação ao Cairo.

Embora Pillay tenha censurado o Hamas pelo lançamento de foguetes “de forma indiscriminada” a partir de zonas “densamente povoadas”, suas palavras foram duras com Israel, a quem acusa de atuar com total “impunidade” em sua ofensiva sobre a Faixa, iniciada em 8 de julho, e que provocou a morte de mais de 1.400 palestinos (a maioria civis) e 59 israelenses (quase todos soldados), além de 7.500 feridos.

“Estão desafiando deliberadamente as obrigações da legalidade internacional”, acusou Pillay referindo-se ao Executivo de Benjamin Netanyahu, a quem insiste para que “preste contas” por sua ofensiva em Gaza e que ponha fim “aos ataques e à ocupação”. As declarações de Pillay, uma das vozes mais aguerridas da ONU em relação à atuação das autoridades israelenses, chegam um dia depois da morte de 16 pessoas em um ataque contra uma das escolas da organização em Yabalia, na qual 3.300 palestinos buscavam refúgio.

Pillay não acredita que Israel vá investigar “adequadamente” os ataques aéreos e terrestres em Gaza. Diante da inércia dos responsáveis políticos israelenses, a Alta Comissionada da ONU apelou ao sistema de justiça internacional. “Quando um Estado não pode ou não está disposto a investigar e responsabilizar os seus responsáveis, é preciso aplicar a justiça internacional”, afirmou. “E não podemos esperar de Israel a prestação de contas através de procedimentos internos”.

Pillay destacou os Estados Unidos como um dos países que não estão exercendo “toda sua influência” sobre o Executivo de Israel, especialmente por não levantar a voz contra o país no Conselho de Segurança e na Assembleia Geral da ONU.

Pillay pediu que o resto da comunidade internacional exija que Israel cumpra com suas “obrigações” legais. “Não podemos consentir que esta impunidade persista e que continue sem prestar contas pelo ocorrido”, afirmou em uma de suas últimas apresentações em seu posto.

Na mesma linha, o máximo responsável da UNRWA, Pierre Krähenbühl, criticou nesta quinta-feira o bombardeio contra uma das escolas de Gaza das quais supervisiona. “Ultrapassamos o terreno da ação humanitária. É tempo de ação política e de investigação de responsabilidades”, concluiu.