Conflito no oriente médio

A ONU acusa Israel de atacar outra escola em Gaza e matar 16 civis

Pelo menos 43 palestinos morreram em Gaza na noite de terça-feira

Escombros na escola atacada nesta quarta-feira.Reuters Live! / AFP

Pelo menos 15 palestinos morreram e mais de 100 ficaram feridos em um ataque aéreo israelense no mercado de frutas e verduras de Shiyahiya, ao norte da Faixa. A informação foi dada por um porta-voz do Ministério de Saúde da Faixa, citado pela agência Reuters. O Exército israelense afirma que em Shiyaiya – onde ocorreu uma das jornadas mais sangrentas da ofensiva, há 10 dias – é um reduto dos "terroristas" do Hamas. A ONU acusou nesta quarta-feira Israel de perpetrar um novo ataque mortal contra um de seus refúgios para desabrigados em Gaza. O bombardeio matou pelo menos 16 pessoas, entre elas seis crianças e dois trabalhadores da agência da ONU para os refugiados palestinos, UNRWA. O centro acolhia 3.200 palestinos em uma das escolas que as Nações Unidas mantém no campo de refugiados de Jabalia, ao norte da Faixa. O porta-voz das Forças Armadas israelenses, o tenente coronel Peter Lerner, informou que estão "investigando" a matança na escola de Jabalia.

Israel anunciou nesta quarta-feira um cessar-fogo “humanitário” de quatro horas a partir das 15h (9h em Brasília). Este cessar-fogo, no entanto, não se aplicará em áreas onde as tropas israelenses estão “operando”. Para o Hamas, o gesto carece de significado, pois o território não afetado pelos conflitos armados é muito reduzido. “A trégua que Israel anuncia tem um significado midiático e carece de valor, porque exclui as áreas ao longo da fronteira e não seremos capazes de resgatar os feridos”, disse Sami Abu Zuhri, porta-voz do Hamas.

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Mais de 500 famílias acreditavam que a bandeira e os brasões da ONU iriam protegê-las dos canhões e da aviação israelenses. Antes do amanhecer de quarta-feira, pelo menos três foguetes atingiram a região. Destruíram uma sala de aula lotada, banheiros e um pequeno parque adjacente, onde os deslocados palestinos deixaram mais de uma dúzia de mulas e burros. Suas carcaças destroçadas sinalizavam a entrada do recinto, claramente marcado com as cores da ONU. Outros porta-vozes admitem que as forças israelenses abriram fogo “em resposta” a supostos ataques que vinham das “proximidades” da escola. Ao todo 1.240 palestinos já morreram em mais de três semanas de guerra.

A agência da ONU condenou o bombardeio: “Na última noite, algumas crianças morreram enquanto dormiam junto de seus pais no chão de salas de aula declaradas abrigos da ONU em Gaza. Matar crianças enquanto dormem é uma afronta contra todos nós e um motivo de vergonha universal”. O texto denuncia “nos termos mais fortes esta grave violação das leis internacionais por parte das forças israelenses”.

O comissário geral da UNRWA em Jerusalém, Pierre Krähenbühl, expressou “forte condenação ao bombardeio do abrigo israelense” em Jabalia. Em mensagem publicada no Twitter, Krähenbühl disse que faltavam “palavras para expressar” a “raiva e a indignação” após este novo ataque. É a segunda escola da ONU atingida por um ataque mortal de Israel desde o início da ofensiva em Gaza, em 8 de julho. Israel admitiu ter bombardeado a escola Beit Hanoun na última quinta-feira. Contra todas as evidências, o Exército diz que “estava vazia”.

O pátio e os corredores encharcados de sangue na escola de Jabalia, bem como vários sobreviventes, contavam outra história: a ONU estava preparando a evacuação da escola quando Israel a bombardeou com vários morteiros. Dezesseis pessoas morreram, incluindo um bebê e várias crianças.

Raad Abdalal, de 19 anos, dormia ao relento no pátio do abrigo de Jabalia quando começaram os bombardeios durante a madrugada. Ele conta que toda a área ficou iluminada com os fogos da aviação e dos tanques. Sem outro lugar para onde ir, os que estavam refugiados no local tentaram entrar nas salas de aula. Um projétil caiu ao lado de uma delas, à esquerda da porta da entrada e derrubou uma parede, matando um grupo de pessoas que tentava descansar em seus colchões.

O jovem escapou da devastação de Beit Hanun, localidade ao norte da Faixa invadida por Israel na semana passada. Morreu no bombardeio enquanto dormia “junto a um grupo de crianças”. De manhã, havia grandes pedaços de espuma encharcados de sangue.

Ahmed Mosa, de 50 anos, colaborou com Abdalal no resgate de um homem que teve “os dois braços arrancados” pelas bombas. Ele recebeu uma pequena assistência, na qual tentaram estancar a hemorragia até as ambulâncias chegarem. “Demoraram mais de uma hora”, lembra ele. Os implacáveis bombardeios na área impediram a chegada imediata dos serviços de emergência.

Mais de 215.000 dos cerca de 1,8 milhão de habitantes da Faixa de Gaza procuraram refúgio nas escolas da ONU. Com uma nova onda de ameaças por telefone e folhetos, as Forças Armadas israelenses ordenaram na terça-feira a “evacuação” de vários bairros e municípios do leste e norte do enclave palestino. A ordem afeta mais de 400.000 habitantes de Gaza, que estão vendo como as bombas de Israel também matam nos abrigos da ONU, os únicos lugares que acreditavam ser seguros.

Este é o segundo ataque com mortos contra uma escola da UNRWA, mas as bombas israelenses atingiram dezenas de instalações da ONU em 23 dias de ofensiva israelense.

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