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Obama promete à América Central “fazer mais” na crise das crianças imigrantes

Os presidentes de El Salvador, Honduras e Guatemala pedem dinheiro e uma posição política clara sobre o assunto em reunião com o mandatário dos Estados Unidos

Os presidentes de El Salvador, Guatemala, EUA e Honduras.
Os presidentes de El Salvador, Guatemala, EUA e Honduras. AP

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama recebeu nesta sexta-feira na Casa Branca os mandatários de El Salvador, Salvador Sánchez Cerén; Guatemala, Otto Pérez Molina; e Honduras, Juan Orlando Hernández. Durante uma hora e meia, os quatro chefes de Estado analisaram as suas respectivas respostas à crise desatada na fronteira sul dos EUA com a chegada em massa de crianças migrantes que, em sua maioria, viajam sozinhas.

“Dividimos informação sobre os esforços contínuos que os Estados Unidos estão fazendo”, afirmou Obama ao término da reunião. “Todos reconhecemos que é preciso fazer mais.” O presidente agradeceu aos mandatários centro-americanos os seus respectivos esforços na resposta à crise e falou do compromisso de procurar “planos de ação agressivos” para deter o fluxo de crianças migrantes “sob o princípio da responsabilidade compartilhada”.

A presidência dos EUA tinha adiantado sua intenção de reiterar a importância de que aumentem os esforços para deter o fluxo de menores de dezoito anos não acompanhados destes países que chegaram às dezenas de milhares na fronteira norte-americana, o que cria, para o governante democrata, uma emergência humanitária e uma crise política para a qual ainda não foi possível encontrar uma saída. Mas os presidentes centro-americanos chegaram à reunião com sua própria lista de exigências, pois consideram que há muitas reclamações contra seus governos sem uma reciprocidade contundente, lamentam, por parte dos EUA.

A tese deles é que Washington exige que atuem contra o tráfico humano, mas retém o dinheiro prometido para apoiar programas que poderiam melhorar a segurança e as oportunidades socioeconômicas necessárias para que os menos jovens sejam obrigados a emigrar. Além do mais, consideram que os EUA mantêm um discurso migratório equivocado, que abriu espaço a falsos rumores usados pelos coiotes para alentar a migração ilegal. E tudo isso quando a origem de boa parte de seus problemas é o narcotráfico, um negócio ilícito que tem como seu principal cliente os EUA.

“Estados Unidos são o maior consumidor de drogas. Vocês conseguiram resolver o problema separando a violência do consumo de drogas e para muitos funcionários o problema aqui é uma questão de saúde. Mas o que é para nós na América Central? É um problema de vida ou morte”, declarou o presidente de Honduras à rede MSNBC pouco antes de sua reunião com Obama.

A lista de exigências dos presidentes centro-americanos não termina aí. Assim como deixaram claro tanto no Capitólio - que visitaram na quinta-feira - quanto na Casa Branca, são conscientes de que a crise requer uma “frente única” com uma “responsabilidade compartilhada”, embora sublinhem que Washington não pode se limitar a pedir mais esforços sem fazer sua parte. Começando por uma maior claridade em sua política migratória, a grande frustração de Obama, que viu como o principal projeto legislativo de seu segundo mandato - uma reforma que teria oferecido uma via de legalização para os 11 milhões de pessoas sem documentos que vivem no país - foi morrendo este ano na Câmara de Deputados dominada pela oposição republicana que se negou a submetê-lo à votação.

O “perverso” negócio do tráfico de menores de dezoito anos “também tem sua origem na ambiguidade dos discursos sobre a reforma migratória que não aconteceu, na falta de claridade nas políticas migratórias dos EUA”, sublinhou sobre isso Hernández durante um duro discurso na Organização de Estados Americanos (OEA) na noite de quinta-feira. “É fundamental esclarecer esse ponto para que esses coiotes perversos não abusem da necessidade tão forte destes pais e famílias”, insistiu.

Campanha da Casa Branca para dissuadir os menores centro-americanos de migrar para os Estados Unidos.

O problema é a falta de respostas imediatas que pode dar a Casa Branca de Obama, além dos projetos pontuais como um “plano piloto” em Honduras para examinar se os menores de dezoito anos que querem emigrar podem fazer isso na condição de refugiado.

Assim como passou com a reforma migratória, a substancial petição de fundos, 3,7 bilhões de dólares (8,2 bilhões de reais), que o presidente pediu ao Congresso para enfrentar a crise na fronteira tanto internamente quanto na ajuda extra aos países centro-americanos (300 milhões de dólares), está parada no Capitólio onde os republicanos exigem duríssimas condições para a aprovação. E o tempo voa: em agosto o Congresso sai de férias e quando regressar, o debate ao redor de uma questão tão polêmica será ainda mais difícil por causa das iminentes eleições parlamentares de novembro.

O presidente Obama dirigiu palavras também para a oposição republicana no Congresso, onde se encontram bloqueadas as medidas de resposta: “Espero que Boehner e os republicanos não saiam de férias sem fazer algo para resolver este problema.”

A frente centro-americana deixou claro durante sua visita a Washington que não está contente com os recursos que chegam até seus países através da Iniciativa de Segurança Regional da América Central (CARSI). Por isso reclamam que os EUA ofereçam um plano mais contundente, tal como foi oferecido a Bogotá com o Plano Colômbia e ao México com a Iniciativa Mérida.

“Lamentavelmente, o CARSI não funcionou, os recursos comprometidos não chegaram”, assegurou Pérez Molina, que junto a Hernández e a Sánchez Cerén coincidiu em que seria fundamental que “assim como foi impulsionado o Plano Colômbia, um Plano Mérida [com o México], seja possível também lograr um impulso para um plano centro-americano procurando a paz e a prosperidade de nossos países”

Uma centena de pessoas pede que se aborde as "raízes da crise"

Alguns dos manifestantes em frente à Casa Blanca.
Alguns dos manifestantes em frente à Casa Blanca.

JOAN FAUS - Washington

Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reunia-se com seus homólogos de El Salvador, Guatemala e Honduras; cerca de cem pessoas protestavam do lado de fora da Casa Branca contra a maneira que Washington está gerenciando a crise da chegada em massa de crianças sem documentos. Agrupados ao redor de um círculo e com cartazes e bandeiras, cidadãos latino-americanos e norte-americanos pediram a Obama que faça frente às “raízes” do fenômeno para acabar com a “violência e desigualdade” nessas nações, que respeite mais os direitos humanos dos migrantes e que não separe às famílias das pessoas sem documento que chegam aos EUA.

“Proteção e reunificação para a infância centro-americana”, lia-se em um cartaz. “Financie a educação e não a militarização”, lia-se em outro. Também se ouviam pedidos aos presidentes dos países de origem dos imigrantes, para que solucionem uma “política econômica frustrada” e priorizem as estratégias de prevenção do consumo de drogas invés das de perseguição.

O protesto desenvolveu-se em um clima de feriado e pacífico e esteve rodeada por outras concentrações. O trecho pedonal da avenida Pensilvania em frente à Casa Branca é um epicentro habitual de reivindicações em Washington. O único momento de certa tensão ocorreu quando o presidente de Guatemala, Otto Pérez Molina, aproximou-se para fazer declarações aos meios de comunicação em um extremo da zona isolado pela policia. O mandatário não pôde evitar que, enquanto atendia aos jornalistas do lado de fora da Casa Bramce, ouvissem-se de fundo alguns gritos de protesto.