Um assalto cinematográfico leva 14 milhões de reais da fábrica da Samsung

A empresa vítima do crime fica em região do interior de São Paulo em que há um crescente número de roubos de cargas

Policial e funcionários na frente da fábrica assaltada, em Campinas.
Policial e funcionários na frente da fábrica assaltada, em Campinas.Denny Cesare / ESTADÃO CONTEÚDO

Faltava pouco para a meia noite de domingo quando a van que transportava alguns funcionários da fábrica da Samsung, na cidade de Campinas, a 100 quilômetros de São Paulo, foi fechada por outro veículo. O grupo, que deveria assumir o turno da meia noite às seis, foi rendido por um bando de assaltantes armados, que protagonizou um assalto cinematográfico no município famoso por concentrar dezenas de empresas de tecnologia. Os funcionários rendidos seguiram para uma casa isolada, onde ficaram sob a guarda de outro integrante do grupo responsável pelo roubo.

Assustados, os empregados da Samsung seguiram as instruções do bando, que incluíam entregar os jalecos com a logomarca da empresa e seus crachás para os assaltantes. Foi com esse disfarce que os ladrões conseguiram driblar a primeira portaria que os levaria ao centro de distribuição, de onde roubariam 7.000 aparelhos, incluindo notebooks, monitores de computador e celulares, num prejuízo estimado em 14 milhões de reais pela empresa até a noite de segunda-feira.

O guarda desse primeiro posto reconheceu o motorista da van, que na verdade estava sob a mira das armas dos assaltantes já uniformizados, e viu a cena que lhe parecia cotidiana: dezenas de ‘funcionários’ que colaram o crachá no vidro da van para que não restasse dúvidas de que seguiam para trabalhar.

No segundo posto de guarda, um dos responsáveis pela segurança da Samsung já teria detectado que algo estava errado. Mas, não teve tempo de reagir ou de acionar o alarme que dispara o chamado imediatamente para a polícia da cidade. Ele foi informado que colegas da empresa estavam sob a mira de armas, e que qualquer movimento em falso ele e os reféns morreriam. Foi assim que oito caminhões entraram livremente para carregar, ao longo de três horas, os 7.000 aparelhos.

Os criminosos tentaram demonstrar tranquilidade e pediram para os funcionários continuarem trabalhando, para não chamar a atenção

Os criminosos – entre oito ou dez - tentaram demonstrar tranquilidade e pediram para os funcionários, mesmo rendidos, continuarem trabalhando, para não chamar a atenção da segurança. Várias áreas não tomaram conhecimento do assalto, até que os assaltantes foram embora. Ao todo, cerca de 50 dos 200 funcionários que estavam trabalhando no momento do assalto foram rendidos.

O crime chama a atenção pela ousadia e a logística arrojada para concluir o assalto, numa fábrica por onde circulam cerca de 5.000 pessoas entre funcionários diretos e indiretos. Há poucas certezas, embora paire a desconfiança de que alguém da Samsung pode estar envolvido: eles não carregaram produtos que possuíam rastreadores, por exemplo. A polícia acredita que alguém que conheça o funcionamento da indústria tenha passado as informações para os ladrões.

Mas, alguns enigmas podem ser desfeitos, uma vez que nem todos os assaltantes usavam máscaras, e as imagens ficaram gravadas. Nesta terça, a polícia trabalhava na análise dessas imagens para tentar identificá-los.

Na mesma segunda-feira, três homens haviam sido detidos pela polícia sob suspeita de terem participado do crime, mas foram liberados na mesma noite porque os policiais não encontraram provas que os incriminassem. Seis seguranças da fábrica também prestaram depoimentos para tentar esclarecer o roubo.

Triângulo das bermudas

O crime de roubo de cargas é um dos que mais cresce na região de Campinas. Comparando o ano passado com o retrasado constata-se um aumento de 54%, a quantidade desse tipo de ocorrência. De janeiro a dezembro de 2013, foram registrados 657 casos. Neste ano, já foram 235 casos, conforme dados da Secretaria da Segurança Pública disponibilizados até maio.

No meio policial, essa região paulista já está sendo chamada de Triângulo das Bermudas das cargas milionárias. São duas razões para esse malquisto apelido: a região concentra diversas empresas de eletroeletrônicos e o aeroporto de Viracopos é o segundo maior terminal de cargas aéreas do país.

O caso desta semana da Samsung, porém, não é tão comum. O que costuma acontecer são roubos nas rodovias, enquanto os equipamentos são transportados das fábricas para as lojas ou dos terminais aos armazéns.

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