Um dos seis israelenses presos confessa o assassinato do jovem palestino queimado

As prisões indicam que os autores do crime pertencem a grupos de extrema-direita judeus

Tariq Jadair (centro), primo do jovem palestino assassinado, é levado ao tribunal de Jerusalém.
Tariq Jadair (centro), primo do jovem palestino assassinado, é levado ao tribunal de Jerusalém.RONEN ZVULUN / REUTERS

A polícia israelense prendeu seis suspeitos do assassinato do jovem palestino Mohamed Abu Jadair, cujo cadáver carbonizado apareceu na quarta-feira pela manhã em um bosque de Jerusalém. Segundo o jornal israelense Haaretz, as prisões apontam para grupos de extrema-direita judeus e indicam uma motivação racista.

As prisões permitem afirmar que Abu Jadair, de 16 anos, morreu em represália ao assassinato de três estudantes judeus que tinham entre 16 e 19 anos, que na última segunda foram achados mortos na Cisjordânia depois de 18 dias desaparecidos.O assassinato do jovem palestino desatou a mais grave onda de protestos e distúrbios dos últimos anos em Jerusalém oriental, que se estenderam a outras áreas palestinas e a várias cidades de maioria árabe de Israel. No domingo, continuaram os enfrentamentos entre policias e palestinos no norte do país.

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Segundo fontes policiais citadas pelo diário Haaretz, os detidos estão relacionados com grupos de ultradireita e tentavam sequestrar uma criança de nove anos na terça-feira em Shuafat, o mesmo bairro de Jerusalém oriental onde desapareceu Abu Jadair. O serviço de inteligência interior israelense, o Shin Bet, solicitou aos juízes que prolongassem o embargo informativo imposto à investigação. Impediu-se assim uma coletiva de imprensa que havia sido convocada. Os suspeitos estão sob custódia do serviço secreto, que, segundo Haaretz, aplica a lei antiterrorista, que pode mantê-los por 10 dias sem assistência legal. Um deles admitiu seu envolvimento no crime, segundo a imprensa local.

O primeiro-ministro israelense, o conservador Benjamín Netanyahu, condenou o extremismo judeu em um comunicado. Disse o chefe do Governo que Israel “não diferencia entre terrorismo e terrorismo”. A família de um dos jovens judeus assassinados, Naftalí Fraenkel, ofereceu suas condolências à de Abu Jadair e expressou seu “horror” ao saber que os assassinos do jovem eram judeus.

Em Shuafat, as detenções e a suposta autoria do assassinato não surpreendem ninguém. Desde a mesma quarta-feira já circulavam rumores que a investigação agora parece confirmar: ao jovem Abu Jadair foi queimado vivo, seus assassinos são judeus ultradireitistas e já haviam tentado raptar uma criança na véspera. Depois da descoberta na última segunda-feira na Cisjordânia dos cadáveres dos estudantes Gilad Shaar e Neftalí Fraenkel, ambos de 16 anos, e Eyal Yifrah, de 19, desatou em Israel uma onda de consternação e também de desordens contra os palestinos, sobretudo em Jerusalém ocidental.

Pouco depois de encontrarem o cadáver do jovem palestino começaram em Shuafat os conflitos mais graves dos últimos anos em Jerusalém. A polícia israelense e os manifestantes palestinos viveram três dias de duros confrontos, nos quais foram registrados centenas de feridos. A situação teve seu age na sexta-feira. O primeiro dia de oração do Ramadã deste ano coincidiu com o funeral do rapaz, que foi presenciado por milhares de pessoas. Enquanto o corpo do garoto saía em direção ao cemitério, envolto em uma bandeira palestina, centenas de jovens palestinos lançaram-se contra a polícia, que respondeu  com balas de borracha e bombas de efeito moral e a contundência de sempre.

Durante os protestos, a policia israelense espancou Tariq Abu Jadair, um cidadão norte-americano de 15 anos e primo do jovem assassinado, que está de férias em Jerusalém. O departamento de Estado dos Estados Unidos condenou o "uso excessivo da força" contra Tariq, que já estava algemado quando a polícia de fronteiras  continuava golpeando seu rosto e sua cabeça. Após a divulgação de um vídeo que mostra o espancamento, as autoridades israelenses pediram  3.000 shekels (1.800 reais) de fiança para retirar o rapaz da prisão. O condenaram a nove dias de prisão domiciliar, justamente o tempo de férias que resta a ele e a sua família. Ele é acusado de portar um estilingue e de resistência à autoridade. Os EUA pediram "uma investigação transparente e crível" do ocorrido.

Também nesse domingo, o Exército israelense anunciou a prisão de um palestino da Cisjordânia, acusado de participar de um assassinato triplo de estudantes israelenses perto de Hebrón, ao sul de Jerusalém. Na semana passada, as autoridades revistaram as casas familiares de outros dois suspeitos do assassinato, que continuam foragidos. A família do jovem Abu Jadair se perguntava no sábado se o Exército demolirá as casas dos seis israelenses detidos por matar seu filho.

O pulso de Netanyahu com sua direita

J.G

Benjamín Netanyahu mantém nestes dias um pulso com o setor mais direitista do Executivo que preside. Pedem a ele mais contundência contra o Hamas e outros grupos islamistas, que continuam seus ataques com foguetes e morteiros da faixa de Gaza. O chefe do Governo israelense chamou à ordem neste domingo a seus ministros de Exteriores, Avigdor Lieberman, e de Economia, Naftalí Bennet, que levam dias advogando por novas medidas de força contra os islamistas de Gaza.

Netanyahu e Lieberman se enfrentaram durante o Conselho de Ministros dominical com uma virulência "que surpreendeu os outros membros do Gabinete", segundo informações do diário Haaretz.

O primeiro-ministro disse que fará "tudo o possível" para restaurar a segurança nas zonas israelenses mais castigadas pelos bombardeios de Gaza, mas advertiu que "Israel deve demonstrar contenção" em suas respostas. Pediu Netanyahu que se evitem "a linguagem incendiária e os atos impulsivos". Desde que na segunda-feira passada foram achados os cadáveres dos três estudantes judeus desaparecidos em 12 de junho, a onda de indignação em Israel foi acompanhada de distúrbios contra os palestinos e pedidos de mão de ferro por parte dos setores mais conservadores.

Durante uma visita à localidade de Sderot, ao sul de Israel, um dos objetivos preferidos pelos mísseis caseiros de Gaza, Lieberman criticava na sexta-feira a possibilidade de um cessar-fogo com Hamas, que Israel negocia com a mediação do Egito. Pouco amigo das médias palavras, Lieberman disse, além disso, que os palestinos com nacionalidade israelense que participem em protestos "não pertencem a Israel". Ontem, Netanyahu disse na reunião com seus ministros que quem o criticar ou reclamar de suas políticas publicamente "é um irresponsável que atua com motivações políticas". Antes de falar, disse o chefe do Governo, segundo os meios israelenses, "deve vir ao Conselho de Ministros".

Esta rivalidade sugere que Netanyahu se aterá, ao menos a curto prazo, a suas recentes ordens de contenção em Gaza, segundo as quais Israel "responderá calma com calma". No domingo foram registrados novos ataques de Gaza, depois que a força aérea bombardeou dez alvos islamistas durante a noite.

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