A rede de revenda de ingressos implica a FIFA, mas não o pai de Neymar

Personalidades do futebol brasileiro também estão entre os suspeitos, que enfrentam acusações de lavagem de dinheiro, associação criminosa e comércio ilegal

Os benefícios chegavam a 640.000 euros por partida.
Os benefícios chegavam a 640.000 euros por partida.Y. C. / AFP

A polícia brasileira esteve investigando durante vários meses a rede ilegal de revenda de entradas que desarticulou nesta quarta-feira no Rio de Janeiro e São Paulo, e cujo máximo chefe (segundo a própria polícia) é um alto funcionário estrangeiro da FIFA que estava hospedado no hotel Copacabana Palace e de identidade ainda não foi revelada. A polícia brasileira informou também que não trocou dados com a FIFA por medo de possíveis vazamentos, apesar das contínuas declarações do órgão que rege o futebol de sua "total colaboração" com as autoridades brasileiras. A operação, denominada "Jules Rimet", significou até agora a detenção do empresário argelino Lamine Fofana, estreitamente vinculado ao mundo do futebol, junto com outras 10 pessoas para as quais foi pedido uma extensão da prisão provisória.

A FIFA se nega a oferecer qualquer informação adicional por se tratar "de uma investigação em curso", nem sequer depois de conhecer que pelo menos duas das entradas revendidas ilegalmente pertenciam ao argentino Humberto Grondona, filho de Julio Grondona, vice-presidente da FIFA e máximo responsável da Associação de Futebol Argentino desde 1979. Grondona Jr., treinador da Seleção Sub 20 argentina e instrutor na FIFA, declarou à rede TyC sports que vendeu as entradas “a um amigo”. A entidade que dirige o futebol mundial se limita a assegurar, enquanto isso, que está "rastreando a origem das entradas revendidas para proceder a seu cancelamento e estabelecer as sanções correspondentes".

Os dados oferecidos por Fábio Barucke, chefe da 18ª Delegacia do Rio de Janeiro, permitem estabelecer que Fofana atuava como o "cabeça" de uma rede com altas conexões na própria FIFA que organizou um negócio ilegal de revenda de entradas às partidas da Copa, cujos benefícios por partida podiam chegar a dois milhões de reais. A rede estava composta por umas 30 pessoas. A investigação policial em curso também implica Match, a empresa que tem os direitos exclusivos para a venda de pacotes de luxo (e que tem entre seus sócios Phillip Blatter, sobrinho do presidente da FIFA). Camila Donato, assessora de imprensa da polícia do Rio de Janeiro, afirmou, por outro lado, que a polícia investiga a possível participação de membros das federações do Brasil, Argentina e Espanha.

O jornal Folha de São Paulo retificou esta manhã sua informação (que deu a volta ao mundo) sobre a possível implicação do pai de Neymar, Neymar da Silva Sr., como distribuidor de entradas e afirmou que ele só foi chamado em qualidade de testemunha. A NR Sports, a empresa que administra os direitos de imagem de Neymar Jr., tinha negado completamente qualquer vínculo com o caso e acrescentado que "estamos fartos de fofocas e mentiras que não se sustentam, mas que ajudam a vender jornais". Segundo a imprensa brasileira, outros personagens investigados pela polícia incluem ao ex-treinador Dunga, o ex-jogador internacional Junior Baiano, aos campeões do mundo em 1970 Carlos Alberto e Jairzinho e a Roberto de Assis, irmão e representante de Ronaldinho. Todos eles tiveram contato recente e comprovado com Fofana, que foi detido em apartamento que é propriedade do próprio Junior Baiano.

Segundo o responsável da investigação, o funcionário suspeito da FIFA aparece repetidamente em gravações efetuadas pela polícia do empresário argelino com autorização judicial e algum dos detidos teria confessado que esta é a quarta Copa do Mundo em que exerciam essa atividade. "O lucro era tão alto que podiam esperar de uma Copa para outra", afirmou o delegado Barucke. Os suspeitos enfrentarão acusações de lavagem de dinheiro, associação criminosa e comércio ilegal. O advogado de Fofana, Alexandre Corrêa, declarou que a prisão de seu cliente é "arbitrário" e negou todas as acusações.

A notícia da desarticulação do grupo causou um visível terremoto na FIFA que, embora publicamente tenha se comprometido a cooperar na investigação, classifica como "rumor" a implicação de algum de seus membros e organizou várias reuniões a portas fechadas para tentar medir a magnitude do problema. A questão é que a luta contra a revenda de entradas foi uma das principais apostas da organização maior do futebol nos últimos três meses, com constantes apelos contra essa atividade "ilegal". No luxuoso hotel em frente à praia de Copacabana, onde estaria hospedado o suposto líder da trama, estão também os membros do Comitê Executivo da FIFA (incluído seu presidente Joseph Blatter) e o presidente do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo. "Eu não sei nada disso... Não me preocupo com as entradas", declarou Blatter ontem ao jornal O Estado de São Paulo. "Eu me encarrego da política".

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