COPA DO MUNDO | BRASIL x CHILE

"Senti que em vez de três passos percorria três quilômetros”, conta Neymar

O atacante da seleção brasileira revela o seu nervosismo durante a cobrança do pênalti que classificou a equipe anfitriã

Scolari abraça Neymar, que não pôde reprimir as lágrimas.
Scolari abraça Neymar, que não pôde reprimir as lágrimas.

“Estou muito dolorido”, disse Neymar. O grande astro do Brasil saiu do Mineirão apertando a crista dourada com uma boina verde e ocultando os olhos por trás de um par de pequenos óculos escuros. Tinha o rosto descarnado e as maçãs do rosto salientes, como um náufrago. Acabava de levar pancadas, de chorar e de festejar. Acabava de eliminar o Chile da Copa, mas na sua aparência havia mais esgotamento que felicidade. Sorriu quando evocou o que provavelmente foi o pior momento da sua vida esportiva: “O mais difícil foi me aproximar da bola quando fui bater o pênalti”, disse. “Senti que em vez de três passos percorria três quilômetros.”

Neymar acabou os 120 minutos de ação completamente tomado por cãibras. Perguntado sobre o estado físico do jogador, o treinador brasileiro, Luiz Felipe Scolari, citou o golpe dado por Vidal no atacante. “Foi aos 5 ou 10 minutos de jogo quando vi que o adversário chutava muito forte o Neymar”, disse. “Lembrei de quando era treinador de Portugal na Copa de 2006 e aos 10 minutos de jogo o holandês Boulahrouz arrebentou o [Cristiano] Ronaldo. Quebrou-o pela metade! Aos 15 minutos, Ronaldo precisou abandonar o campo. Neymar saiu com um inchaço do tamanho de uma bola. Não entendo quando as pessoas dizem que Neymar se joga. Fizeram 15 faltas nele! Levaremos quatro ou cinco dias para recuperá-lo.”

“Foi bastante sofrido”, prosseguiu Neymar. “Foi muito intenso. As duas equipes mostraram uma força muito grande tanto no ataque como na defesa.” Neymar converteu a última cobrança do Brasil na disputa de pênaltis. Mas quem realmente mais influenciou o resultado foi o seu colega Julio César, que, antes de defender dois pênaltis, um de Alexis e outro de Pinilla, se mostrou sentimental. “Chorei porque os colegas me estimulavam e me emocionei. Eles me disseram coisas lindas. Depois nos pênaltis me concentrei para fazer o trabalho o melhor possível. Já vivi sentimentos grandiosos em minha carreira. Agora espero escrever a última página de meu livro que é a conquista da Copa do Mundo.”

Scolari aproveitou para pedir rigor contra seus rivais. “Estamos sendo excessivamente cordiais”, queixou-se. “Nossa condição de anfitriões faz com que nos sintamos obrigados a nos comportar com muita gentileza, e vi que os adversários se aproveitam. O Sampaoli não parou de invadir a lateral fora da área técnica! No banco do Chile passaram o jogo pressionando o quarto árbitro.”

O treinador chileno, Jorge Sampaoli, estava muito contido ao declarar-se satisfeito com o trabalho dos seus jogadores e fazer algumas revelações que preocuparão a Juventus e o Cardiff City, os clubes de Vidal e Medel, respectivamente. “Estivemos perto de fazer um Mineirazo”, declarou Sampaoli. “Valorizo o fato de termos nos equiparado às potências que enfrentamos: Holanda, Espanha e Brasil. Foram partidas totalmente eletrizantes. Sempre pusemos o Chile em um lugar de protagonismo e não de submissão. Viemos ao Mundial para propor, não para nos defender. Medel tinha uma distensão de oito milímetros, era impossível que jogasse, e jogou. E Vidal fez todos os treinos infiltrado. Ambos arriscaram sua saúde para que o Chile tivesse uma chance.”