ENTREVISTA | PAULO SÉRGIO PERES, CIENTISTA POLÍTICO

“As coligações são um jogo de trocas complexo”

O cientista político Paulo Sérgio Peres crê que no cenário atual o PMDB demonstra que não terá problema em continuar no governo

O cientista político Paulo Sérgio Peres.
O cientista político Paulo Sérgio Peres.Antonio Paz / Jornal do Comércio

Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o cientista político Paulo Sérgio Peres crê que as alianças eleitorais são um jogo estratégico de trocas complexo. Analisando o cenário político atual no país, ele acredita que o PMDB não terá problemas em continuar no governo, seja ele qual for. Já o PSB deverá ter mais problemas do que previa com a chapa Eduardo Campos – Marina Silva.

Pergunta. Na sua avaliação, por qual razão os partidos não repetem nos Estados as alianças que são firmadas nacionalmente?

Resposta. O Brasil é um país muito grande e diverso em vários aspectos, inclusive dos interesses políticos. Os chamados interesses nacionais não necessariamente são os mesmos do ponto de vista regional, estadual e municipal. Nesse contexto, a única eleição realmente nacional é para a Presidência da República.

A tensão entre lógicas e interesses diferentes faz com que a coordenação de coligações eleitorais seja algo bastante complexo, colaborando para discrepâncias entre as alianças nacionais e estaduais.É um jogo estratégico de trocas bastante complexo. Essa troca de apoios envolve os cargos de governador e senador, ou seja, cargos de disputa majoritária. Ao contrário do que se pensa, as alianças tem uma lógica bastante clara. Os críticos acreditam que não há qualquer lógica nesses acordos porque não encontram neles nenhuma base ideológica mais precisa. Eles têm razão, nem sempre é possível encontrar alguma base ideológica nas alianças; porém, a ideologia não é o único fator de motivação para as alianças. Isso não quer dizer que não há lógica nelas, mas que a lógica não é diretamente relacionada com a ideologia. Inclusive, se as alianças fossem sempre ideológicas, seriam inócuas. Como [o ex-presidente] Lula já disse há algum tempo atrás, alianças se fazem com diferentes; entre iguais nem podem ser alianças políticas. Se são tão iguais, deveriam estar no mesmo partido.

P. De que maneira essa falta de verticalização influencia no eleitorado?

R. Do ponto de vista objetivo, parece que não há qualquer influência relevante. Desde a abertura democrática, os eleitores continuam comparecendo às eleições em proporções constantes, assim como não têm oscilado os votos nulos e em branco. O eleitor parece que tem sido capaz de identificar de modo relativamente claro quais os candidatos à presidência e às governadorias de estado representam mais proximamente seus interesses e suas visões de mundo. Eleição para deputados e senadores não costumam empolgar tanto os eleitores, mas isso não parece ser efeito do perfil das coligações eleitorais.

Do ponto de vista subjetivo, a influência desse perfil tão variado de alianças ou coligações sobre a percepção dos eleitores em relação ao sistema político pode ser prejudicial. Ao não encontrar a lógica que procura nas alianças, que é a ideológica, os eleitores reforçam uma visão já arraigada de que os partidos são todos iguais e que buscam apenas o poder político. Em parte isso é verdadeiro, mas é verdadeiro em qualquer lugar do mundo. Em parte isso não é verdadeiro; os partidos, pelo menos os principais, apresentam diferenças importantes.

P. Você acha que a união Eduardo Campos – Marina Silva obterá êxitos, já que eles estão rompidos em vários Estados (por exemplo, SP, RJ e PR)?

R. Pessoalmente, desde o início, avaliei como equivocada a acolhida que Campos deu a Marina e seu proto-partido. Também não acho que essa tenha sido uma boa estratégia para Marina. Ela frustrou alguns daqueles que acreditavam que ela realmente representava uma nova política.

O desespero para participar desta eleição, mesmo que dessa forma estranha, em que a Rede se fundiu, de certo modo, ao PSB, pode ter dado a entender para alguns possíveis simpatizantes de Marina que ela agiu como costumam agir os políticos tradicionais. Mas, para Campos foi pior. Em primeiro lugar, penso que Campos foi muito afoito ao fazer um cavalo de batalha seu desejo de concorrer à presidência agora. Seu partido, o PSB, foi aliado importante do PT no governo Lula e parte do governo Dilma, e poderia ter continuado na coalizão governista até a eleição presidencial de 2018. Se Dilma ganhar esta eleição, não poderia se candidatar de novo e o PT está sem opções para sua substituição. Duvido que Lula volte a ser candidato à presidência. Campos poderia esperar a próxima eleição e teria grandes chances de ser bem sucedido. Inclusive, talvez até pudesse se filiar ao PT. Por que não? Ou mesmo como um candidato do PSB apoiado pelo PT. O PT poderia, com isso, sinalizar que não tem a intenção de se perpetuar no poder, que aceita a rotatividade e até a apoia, ao contrário do que ocorre em São Paulo, com o PSDB. Então, acho que esse foi o primeiro erro de Campos.

O segundo foi ter acolhido Marina nas circunstâncias em que isso se deu. Ele está agora na desconfortável situação de ter uma candidata a vice que tem mais apoio eleitoral do que ele. Se ganhar, terá uma vice difícil e que provavelmente atuará como se fosse da oposição. Além disso, Marina e os principais articuladores da Rede são obstáculos à formação de algumas alianças importantes nos Estados.

P. Como o PMDB vai se comportar nas eleições, levando em conta que nacionalmente apoia Dilma Rousseff e em alguns Estados confronta o PT?

R. Isso não é novidade para o PMDB. Desde a redemocratização do país, o partido que se mostrou mais governista é o PMDB. Nem mesmo o PFL/DEM foi tão governista, uma vez que foi relegado à oposição durante o governo nacional do PT. No plano nacional, o PMDB esteve com todos os governos e deve se manter assim. Isso porque, no contexto político brasileiro, para conseguir governabilidade, os presidentes devem formar coalizões majoritárias.

O PMDB tem duas características essenciais para isso, ele tem uma grande bancada e ocupa uma posição intermediária no espectro ideológico. Sendo assim, partidos de centro, direita e esquerda não terão grandes resistências para chamar o PMDB para sua coalizão de governo. Atraindo o PMDB, terão grandes chances de que essa coalizão seja majoritária, inclusive a ponto de aprovar projetos que demandam maiorias qualificadas. O PMDB cobra um preço para isso, exigindo cargos e outros recursos que estão sob a guarda do Poder Executivo. Mas, para continuar exercendo esse poder de influência, o PMDB deve manter uma bancada elevada. Com poucas cadeiras, o partido teria poucos votos e, assim, deixaria de ser um aliado central para as coalizões de governo. Para conquistar um número elevado de cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado, é importante disputar as governadorias dos estados.

Para aumentar a competitividade de seus candidatos ao Senado, o PMDB procura forçar seus aliados a não lançarem candidatos para esse cargo. O PMDB pode apoiar o candidato a governador de um partido, desde que este partido apoie seu candidato ao Senado. O mesmo pode ocorrer no plano nacional, uma vez que o PMDB há muito tempo não lança candidato próprio à presidência. Assim, o apoio a Dilma significará que o PMDB tenderá a forçar uma distribuição que lhe seja mais favorável de cargos e recursos, um maior apoio do PT nas disputas estaduais, para governador e senador.

O PMDB é multifacetado e isso também ajuda o partido a sempre ser governo. Mas, comportando-se como aliado ou não nas eleições, uma coisa é certa. Ganhe quem ganhar, o PMDB deverá fazer parte da coalizão de governo.

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