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“A vida política atual não convida a continuar”, diz o senador José Sarney

Depois de quase seis décadas no poder, o ex-presidente anuncia sua aposentadoria, mantendo a mesma influência política

José Sarney, em janeiro de 2013.
José Sarney, em janeiro de 2013. reuters

A trajetória política de 59 anos de José Sarney, do partido PMDB do Estado do Amapá, chegará ao fim em janeiro do ano que vem. Primeiro presidente pós ditadura militar (1985 a 1990), ele confirmou, nesta quarta-feira, ao jornalista do EL PAÍS Juan Arias que não irá disputar a reeleição ao Senado pelo Estado do Amapá. Coloca fim assim a um ciclo de 23 anos, no qual ocupou quatro vezes a cadeira da presidência da Casa parlamentar. " A vida política atual não convida a continuar e a própria convivência com a gente que a opera é um sacrifício que não tem nenhuma finalidade", confidenciou Sarney, que é escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.

As eleições deste ano prometiam ser marcadas pela forte rejeição ao seu nome e ao seu grupo político tanto no Maranhão, onde começou a sua carreira política - e onde a sua filha, Roseana, é governadora, - como no Amapá, Estado para onde transferiu seu domicílio eleitoral e que representa no Senado Federal.

No Amapá, a candidatura de Sarney à reeleição acabou isolada por uma ampla aliança de oposição. Fazem parte dela, entre outros, partidos díspares, como o esquerdista Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), o conservador Democratas (DEM) e até o Partido dos Trabalhadores (PT). O empenho em derrotá-lo é tanto que o senador Randolfe Rodrigues desistiu da candidatura à presidência da República pelo PSOL para centrar seus esforços na derrocada de Sarney.

Já no Maranhão, além de uma frente ampla de oposição encabeçada pelo candidato do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) Flávio Dino, os partidários de Sarney sofrem com a má avaliação do governo de Roseana. Embora tenha sido reeleita ao cargo em primeiro turno, em 2010, a gestão de Roseana tem sido atacada pelos adversários por não ter logrado reduzir as estatísticas de pobreza da região, que o tornam um dos Estados mais miseráveis do país.

O Maranhão ocupou, desde o final do ano passado, ainda, as manchetes de jornais pelo descaso no sistema carcerário estadual, que culminou em brigas violentas, e decapitação de detentos em ataques entre facções rivais. A família é dona de emissoras de televisão e de rádio, e de várias propriedades locais. Para ser ter uma ideia, o clã Sarney, integrado também pelo filho Sarney Filho, hoje deputado pelo Partido Verde, só não esteve à frente do Maranhão por duas vezes desde 1965. São ao todo, 43 anos de poder. Um domínio que fica evidente até no nome de prédios públicos. Uma reportagem do jornal O Globo de 2012 mostrava que no Estado mais de 160 escolas levavam o seu nome ou de familiares.

O desgaste natural dos anos no poder, no entanto, não apaga a sua importância no espectro político brasileiro. “É um homem de muitas vidas”, diz o cientista político Murilo Aragão, lembrando que Sarney passou por quase todos os partidos, ora apoiando um sistema de governo, ora outro. Como deputado federal, foi opositor de João Goulart, antes do Golpe Militar de 1964, que instituiu o regime de exceção, apoiado por ele. A história lembra, no entanto, que ele foi uma das poucas vozes contrárias à cassação de mandatos de parlamentares que a ditadura impôs no Brasil. Nessa época, integrava o Arena, que apoiava os militares, e depois evoluiria para a legenda do Partido da Frente Liberal (PFL).

Quis o destino que ele também fosse o condutor da redemocratização brasileira, ao ingressar no PMDB, e entrar, em 1985, como vice na chapa de Tancredo Neves, cuja saúde estava debilitada. Neves faleceu antes de tomar posse, e coube a Sarney o papel de primeiro presidente da nova democracia, até a primeira eleição direta em 1989. Depois disso, esteve sempre na base dos governos democráticos. De Fernando Collor de Mello (1990-1992), até Dilma Rousseff.

Mesmo com toda a crise local com os boatos que não se confirmavam sobre a sua saída, até a sexta-feira, políticos do PMDB e petistas, encarregados pela presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, ainda tentarão demovê-lo da ideia de desistir da candidatura. Os comandantes petistas chegam a oferecer até mesmo colocar goela abaixo dos correligionários uma aliança com Sarney no Amapá, se assim ele quiser.

Apesar de Sarney não pretender mais disputar cargos públicos, ele deverá ter ainda um papel relevante na cena política nacional. Invariavelmente, terá de ser convidado pelo próximo presidente, seja ele quem for, para negociar o apoio do PMDB na base de sustentação do Executivo no parlamento. “À medida que deixa de ser presidente, o prestígio diminuiu, mas ele continua influente”, diz Aragão.