Repressão contra a imprensa no Egito

O Egito condena três jornalistas da Al Jazira a sete anos de prisão

Eles foram acusados de apoiar a Irmandade Muçulmana, considerada “grupo terrorista”

Sete anos de prisão para três jornalistas da Al Jazira.

As autoridades egípcias não foram permeáveis às pressões internacionais em favor da liberdade de imprensa. Um tribunal do Cairo condenou nesta segunda-feira, a penas de 7 a 10 anos de prisão, um grupo de jornalistas da Al Jazira acusados de difundir notícias falsas para favorecer a tese da Irmandade Muçulmana, movimento islâmico que governou o Egito até o golpe de Estado do verão passado. Entre eles, está o jornalista australiano Peter Greste.

O julgamento, que suscitou grande interesse internacional, representa um novo exemplo da campanha repressiva lançada pelo regime egípcio para silenciar qualquer voz dissidente, seja no plano político seja no midiático. Durante o último ano, foram mortas mais de 2.000 pessoas em enfrentamentos com as forças de segurança e foram presas mais de 20.000 pessoas, a maioria simpatizantes da Irmandade.

Dos 20 imputados nesse processo, 11 foram julgados à revelia, e todos eles receberam uma pena de 10 anos de prisão. Pena idêntica foi imposta ao produtor da rede Al Jazira em inglês, Baher Mohamed. Seus colegas Peter Greste e Mohamed Fahmy, por sua vez, foram sentenciados a sete anos, assim como quatro estudantes que tinham enviado imagens à emissora do Catar mesmo não sendo funcionários. Outros dois jovens, um deles o filho do líder da Irmandade Mohamed Beltagy, foram absolvidos.

Os três repórteres da Al Jazira em inglês foram presos no fim de dezembro do ano passado, apenas algumas horas depois de entrevistarem em seu hotel um representante da Irmandade Muçulmana. Poucos dias antes, a confraria islâmica tinha sido declarada “organização terrorista” pelo Governo egípcio, e por isso os repórteres foram acusados de pertencimento ou colaboração com o grupo armado. As famílias dos condenados estão convencidas de que são vítimas da guerra entre a Al Jazira e as autoridades egípcias que foi deflagrada depois do golpe de Estado.

O ministro das Relações Exteriores britânico convocou o embaixador egípcio em Londres depois de conhecer o veredito

“O veredito demonstra que esse é um julgamento político. Durante as vistas, não se apresentou qualquer evidência de que eles tivessem manipulado a informação. Não esperávamos esse resultado. Estamos arrasados”, explicou Mike Greste, irmão do repórter australiano, em frente à prisão de Tora, sede da corte. O governo australiano, por sua vez, se mostrou “consternado” com a sentença.

“Vamos apresentar recurso ao tribunal de cassação porque foram cometidos vários erros processuais graves. Por exemplo, não nos permitiram ver as provas apresentadas pela Promotoria, o que é absolutamente ilegal”, declarou Shaaban Said, membro da equipe de advogados de defesa. Como mostra de que o julgamento é uma farsa, Said explicou que os três anos de prisão adicionais impostos ao produtor Baher Mohamed se devem ao fato de ele ter em seu quarto uma cápsula de bala recolhida como suvenir de uma manifestação.

Depois que o juiz proferiu a sentença, os oito processados presentes na cela dos acusados entoaram uma canção revolucionária, logo acompanhada de declarações contra o regime. “Que caia, que caia o governo militar!”, gritavam, enquanto os familiares dos condenados viviam momentos de dor nos bancos do tribunal.

A liberdade de expressão foi uma das primeiras vítimas do levante militar, pois em questão de semanas foram fechadas várias redes de televisão de tendência islâmica. Segundo o Comitê para a Proteção de Jornalistas, atualmente cerca de 20 repórteres estão detidos no Egito, que se transformou no último ano em um dos cinco países mais perigosos para o desenvolvimento do trabalho jornalístico.

“Essa é uma mensagem muito clara dirigida a todos os jornalistas sobre o que pode acontecer se alguém for contra a narrativa oficial dos fatos”, advertiu Mohamed Lotfi, observador da Anistia Internacional que esteve presente às 12 sessões do processo. O Governo egípcio acusou a Al Jazira, em várias ocasiões, de apresentar informações tendenciosas favoráveis aos interesses da Irmandade sobre o que acontece no Egito, o que os responsáveis pela rede sempre negaram. A Al Jazira é de propriedade da família que governa o Catar, que foi o aliado mais forte da administração do ex-raïs Mohamed Morsi.

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