Obama esfria os planos de ataque no Iraque

O Pentágono avisa das dificuldades de uma intervenção aérea. O presidente considera uma intervenção minimalista, com ‘drones’

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, quer um tempo para pensar antes de uma intervenção no Iraque. Em um encontro com os líderes do Congresso, na quarta-feira, Obama limitou-se a mostrar as opções que a Casa Branca considera para impedir o avanço jihadista no país que os Estados Unidos invadiram em 2003 e abandonaram oito anos depois.

Há pressão para que Al Maliki abandone o cargo e permita um governo de unidade no Iraque

Os apelos iraquianos para que os Estados Unidos bombardeiem bases do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) encontram pouco eco na administração Obama. Nem a opinião pública nem o Congresso pressionam para que Obama ataque agora. A lembrança do fiasco da operação no Iraque, onde morreram mais de 4.000 norte-americanos sem que o país tivesse nenhuma vitória, pesa sobre qualquer decisão.

Não é tão fácil como olhar um vídeo de um comboio em um iPhone e atirar”, disse o chefe do Estado Maior

Ninguém compreende, por enquanto, os benefícios de uma operação aérea. Os chefes do Pentágono avisaram em uma audiência diante do Senado dos riscos de meter-se na guerra civil iraquiana e os perigos de bombardear sem objetivos militares e políticos definidos.

Obama descarta enviar tropas terrestres. O restante das opções disponíveis vai desde um reforço à ajuda atual ao Governo iraquiano até o lançamento de mísseis Tomahawk desde o Golfo Pérsico, passando por bombardeios com aviões não tripulados ou aviões convencionais.

A Casa Branca, no entanto, divulgou para os meios de comunicação dos Estados Unidos uma mensagem: os ataques serão limitados. Nada de bombardeios em grande escala como os que o presidente preparou – e cancelou no último minuto – em setembro, contra a Síria. A ajuda poderia consistir em ataques com drones (aviões não tripulados) similares aos que os Estados Unidos realizaram em países como Iêmen e Paquistão.

A segunda mensagem é que a decisão não é iminente. O presidente pode levar alguns dias para decidir como será intervenção no Iraque. Nem sequer está certo de que ele acabe intervindo.

A terceira mensagem, que Obama já formulou na semana passada em uma declaração na Casa Branca, é que os Estados Unidos não farão nada sem que haja um esforço do Governo de Al Maliki – a quem Washington atribui parte da responsabilidade pelo caos atual – para reconciliar-se com os sunitas.

No Senado, o secretário de Defesa, Chuck Hagel, e o chefe do Estado Maior Conjunto, o general Martin Dempsey, insistiram que, sem mudanças políticas em Bagdá, uma intervenção militar teria pouco sentido. Também lembraram a dificuldade que seria lançar-se em uma operação efetiva.

“Não é tão fácil como olhar um vídeo de um comboio em um iPhone e atirar diretamente”, disse o general Dempsey. Ainda que Obama desse a ordem para o ataque, os Estados Unidos precisariam de uma lista de objetivos confiáveis. “Deve haver um objetivo. Aonde isso vai nos levar? Que efeito tem no esforço para alcançar uma solução política?”, perguntou Hagel.

O debate político em Washington é se a escalada bélica atual é responsabilidade do democrata Obama, por haver retirado todas as tropas norte-americanas em 2011; de seu antecessor, o republicano George W. Bush, por acender o barril de pólvora mesopotâmico com a invasão do Iraque; ou de Maliki, por haver excluído os sunitas do governo após a retirada dos Estados Unidos.

O vice-presidente, Joe Biden, chamou o primeiro ministro Al Maliki para dizer que os Estados Unidos estão “preparados para reforçar” o apoio ao Iraque na luta contra o EIIL. Mas insistiu que o primeiro-ministro e outros líderes iraquianos precisam “governar de maneira mais inclusiva, promover a estabilidade e a unidade entre a população do Iraque e abordar as necessidades legítimas das diversas comunidades do Iraque”.

Em uma reunião no laboratório de ideias conservador American Enterprise Institute (AEI), o senador John McCain culpou Obama pela situação atual, por ele não ter negociado a permanência de uma força residual dos Estados Unidos no Iraque. McCain, um falcão na política exterior, disse que a prioridade deve ser estabilizar a frente militar, e só então seria o momento de pedir a marcha de Al Maliki.

O plano da Casa Branca é inverso: primeiro, a frente política; depois, a militar. Ao ser perguntado se Al Maliki teria de renunciar, Jay Carney, porta-voz de Obama, respondeu: “É algo que o povo iraquiano deve dizer, não os Estados Unidos, nem uma nação externa”.

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