ELEIÇÕES NA COLÔMBIA

A paz de Santos ganha na Colômbia

O presidente conquista a reeleição com 50,9% dos votos, frente aos 45% de seu adversário uribista

Santos acena antes de votar neste domingo, em Bogotá.
Santos acena antes de votar neste domingo, em Bogotá.JOSE MIGUEL GOMEZ (REUTERS)

As eleições presidenciais deste domingo na Colômbia se transformaram em um plebiscito sobre a negociação de paz com a guerrilha FARC. Com 99% dos votos apurados, o presidente Juan Manuel Santos obteve a reeleição com 50,89%, depois de ter apostado no diálogo como caminho para conseguir um novo mandato e sobreviver politicamente. Seu rival uribista, Óscar Iván Zuluaga, ganhador do primeiro turno de 25 de maio, ficou com 45,06%.

A rua da faculdade onde Gloria Roa, de 53 anos, e sua filha Diana Tipazoc, de 22, foram votar nesta manhã tem desníveis tão pronunciados que parecem degraus. Elas vivem em um bairro de classe média de Bogotá, chamado 7 de Agosto, de casas baixas coloridas, crateras no chão, enxames de cabos pendurados dos postes e infestado de oficinas mecânicas. Diana quis participar deste segundo turno porque deseja a continuidade do diálogo de paz com a guerrilha. “Vi os debates em televisão e acredito que é preciso tentar acabar a guerra. Por isso vou com Santos”, diz ela, ante o olhar cético da sua mãe, que ainda não sabia se votaria em branco ou se confiaria no “menos mau”.

Estas foram as eleições mais disputadas em duas décadas, como já mostravam as últimas pesquisas, publicadas há uma semana. Também foram as mais crispadas, salpicadas de escândalos e com poucas propostas além do tema que polariza o país: a negociação de paz com as FARC, que Juan Manuel Santos desenvolve em Havana desde novembro de 2012. Contrapondo-se a ele, o uribismo e seu candidato Zuluaga – considerado por muitos uma mera extensão do ainda popular e carismático ex-presidente Álvaro Uribe, partidário do pulso firme com a guerrilha – consideram, entre outras condições, que o diálogo só poderia continuar se a guerrilha deixar de cometer atentados e recrutar menores de idade.

Esse diálogo com a guerrilha fez com que a médica Diana Bautista, de 26 anos, saísse de casa para votar, o que não fez no primeiro turno. “Tenho medo de que Santos ganhe, ele está oferecendo muito às FARC em troca de nada. Eles continuam matando, roubando e extorquindo”, argumenta. Acha, além disso, que o Governo não tem feito praticamente nada pela saúde pública, que está “terrível”, descreve. “Há poucos especialistas, o serviço está saturado, faltam alguns remédios... Só nos últimos dois meses fizeram algo, eliminar os entraves burocráticos para que todos possam ter serviço de urgências”, explica.

Santos pode apresentar bem-sucedidas cifras macroeconômicas – crescimento de 4,3%, redução estatística da pobreza em 2,5 milhões de pessoas, taxa de desemprego em queda, em 9,6% –, mas a Colômbia ainda é um dos países mais desiguais da América Latina e do mundo. Muitos acusam os políticos de serem uma elite desconectada dos problemas da população. “Eu não voto em nenhum. Esta tem sido uma batalha entre eles, não se preocupam com a criminalidade, não há boa educação, há muita pobreza", diz Gloria Roa com sua filha, eleitora de Santos. Na opinião dela, os aspirantes não abordaram questões importantes para ela: “Ainda estamos pagando o empréstimo a faculdade dela. Formou-se em dezembro e está conosco em uma loja de acessórios para carros, porque não há trabalho nem tem experiência”, diz.

O processo de paz monopolizou a atenção na campanha, embora, nas pesquisas, questões como a educação, a insegurança e o desemprego figurassem como prioridades para os cidadãos. É o que pensa, por exemplo, Jennifer Ana Gomez, que anda pela rua levando os quatro filhos pela mão, a caminho da urna. “Estou interessada em Zuluaga porque prometeu dar período integral para as crianças estudarem oito horas por dia e ajuda para o almoço na escola!, explica, enquanto os filhos a abraçam. “Acabam de vir morar comigo em Bogotá. Fui desalojada da região de Caquetá pelas FARC. Meus filhos ficaram com a avó, enquanto eu trabalhava aqui como empregada doméstica e mandava dinheiro para eles", conta ela.

Para ela, que agora trabalha 12 horas por dia em um ateliê de costura, a paz é algo muito distante: “Eu sei como é a guerra e como é o campo. Os políticos só querem o poder, as ajudas não chegam lá”, diz, referindo-se aos subsídios dados às vítimas de um conflito que já dura 50 anos, causou 220.000 mortes e fez 5,5 milhões de pessoas de uma população de 47 milhões fugirem de suas casas. Nesta eleição, está em jogo o futuro das negociações de paz. Gomez não confia muito nelas.