“A Rússia agora nos considera sua adversária. E devemos ficar atentos”

“A agressão da Rússia contra a Ucrânia alterou dramaticamente a segurança na Europa”, adverte o secretário-geral da OTAN, que prepara “medidas de longo prazo” para a cúpula de setembro

Anders Fogh Rasmussen (Ginnerup, 1953) deixará em 1º. de outubro a secretaria geral da OTAN, à qual chegou em 2009. Antes, em setembro, presidirá a cúpula de Gales, onde os líderes aliados devem sancionar o fim da lua-de-mel com a Rússia e o retorno à dissuasão – mais diplomacia fria do que guerra fria, ao menos por enquanto – e o lançamento da nova missão no Afeganistão, já não mais de combate, e sim de instrução, a partir de 1º. de janeiro de 2015.

Rasmussen esteve na quinta-feira passada em Madri, onde se reuniu com o presidente de Governo (primeiro-ministro) Mariano Rajoy e com os ministros de Defesa e Relações Exteriores, além de ter sido recebido em audiência por dom Juan Carlos.

Pergunta. O Rei lhe explicou as razões da sua abdicação?

Resposta. Não vou revelar conversas confidenciais, mas obviamente falamos da sua decisão... Acredito que o Rei desempenhou um papel crucial para transformar a Espanha em uma democracia estável e, vindo de um reino [Dinamarca], sei até que ponto uma Monarquia pode contribuir com a estabilidade.

P. Considera que movimentos separatistas como os da Escócia e Catalunha podem debilitar a coesão da OTAN?

R. Não. Há uma forte coesão em nossa Aliança e um compromisso muito firme com a defesa coletiva. Não está em discussão que autonomias regionais ou inclusive independências possam debilitar essa coesão.

P. Se uma parte de um Estado da OTAN se tornar independente, continuará pertencendo à OTAN?

R. É uma questão hipotética, que não discutimos... Mas as regras são claras: se surgir um novo Estado, teria que solicitar o ingresso e cumprir certos requisitos. Além disso, a admissão de um novo membro é adotada por consenso. Todos os países aliados deveriam votar a favor.

P. A OTAN anunciou a adoção de “medidas de longo prazo” diante da crise com a Rússia. Que tipo de medidas?

R. A agressão da Rússia contra a Ucrânia alterou dramaticamente a situação de segurança na Europa. Durante mais de 20 anos tentamos atrair a Rússia para uma cooperação construtiva. Mas agora está claro que a Rússia nos considera seu adversário. E o lamento profundamente, mas temos que ficar atentos a esse fato e nos adaptarmos.

P. De que forma?

R. Em curto prazo, reforçamos a vigilância aérea nos países bálticos, mobilizamos navios no Báltico e no mar Negro, realizamos exercícios nos países bálticos e na Polônia... Passos posteriores, se forem necessários, incluirão a atualização dos planos de defesa, exercícios militares e também as mobilizações apropriadas [de tropas].

P. A tensão com a Rússia é conjuntural ou estrutural? As consequências de uma resposta ou outra não são as mesmas...

R. O comportamento da Rússia tem implicações estratégicas, e por isso estamos considerando medidas de longo prazo, para estarmos seguros de que no futuro poderemos dar amparo efetivo a nossos aliados. E é uma lástima porque ainda acredito que a Rússia e a OTAN compartilhamos interesses básicos, e que o melhor para ambos é manter uma associação construtiva.

P. Que tipo de assistência a OTAN irá fornecer à Ucrânia?

R. Estamos preparando um pacote que submeteremos aos ministros de Relações Exteriores no fim do mês. Sem entrar em detalhes, incluirá assistência para a reforma do setor de defesa e modernização das Forças Armadas. Será uma cooperação muito prática que facilitará, por exemplo, o acesso da Ucrânia a exercícios da OTAN.

P. O limite é a mobilização de tropas de combate?

R. Não temos planos de mobilizar tropas, mas não excluo que algum aliado, individualmente, participe de exercícios militares em solo ucraniano. Isso corresponde às autoridades do Kiev e a cada aliado.

P. As portas da OTAN continuam abertas para a Geórgia? Será tomada alguma decisão em Gales?

R. As portas da OTAN continuam abertas para as democracias europeias que cumprirem os requisitos [de adesão]. A Geórgia fez muitos progressos e isso deve se refletir de algum modo na cúpula de Gales, mas é prematuro dizer como.

P. Países como a Espanha se queixam de que a OTAN se centrou na Rússia e descuidou de outros riscos, como a Al Qaeda.

R. Nos últimos meses nos centramos muito em nosso flanco leste, porque aliados fronteiriços com a Rússia e a Ucrânia estão muito preocupados com sua segurança. Mas prorrogamos a missão antipirataria, por exemplo. Em Gales adotaremos a política de defesa cibernética e reafirmaremos a defesa antimísseis. Não descuidamos dos outros riscos.

P. Teme que o Iraque se transforme em um Estado falido?

R. Estamos muito preocupados. Espero que as forças iraquianas sejam capazes de fazer frente aos terroristas porque, se não, há risco de que a instabilidade se estenda a toda a região. É uma situação muito, muito perigosa.

P. O que falhou no Iraque para que reine o caos dois anos e meio após a saída dos EUA?

R. Nem sequer o primeiro-ministro iraquiano acerta ao explicar. Surpreende que as forças iraquianas não fossem capazes de prevenir o ataque dos extremistas. É verdade que os países ocidentais gastaram recursos abundantes em formar o Exército iraquiano, mas parece que suas capacidades ainda precisam se desenvolver. Em todo caso, é uma responsabilidade das autoridades iraquianas. Recordo-lhe que a saída das forças norte-americanas [em 2011] foi decisão iraquiana.

P. Não teme que ocorra no Afeganistão o mesmo que no Iraque?

R. São casos diferentes, mas devemos tirar lições do ocorrido no Iraque. É preciso ajudar as forças locais a desenvolverem suas capacidades, e por isso decidimos estabelecer uma missão de assistência e adestramento depois de 2014, já concluída a operação de combate.

P. Quantos efetivos terá a nova missão no Afeganistão?

R. Ainda não temos números exatos. Os EUA anunciaram seus efetivos totais [9.800] não só para a OTAN, mas também com caráter bilateral... Não sabemos os percentuais nem a contribuição de outros aliados. Mas poderia arriscar uma estimativa de 10.000 a 12.000, caso se mantenham, como agora, dois terços de norte-americanos e um terço do resto.

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