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Copa do Mundo 2014

As ofensas a Dilma refletem sua baixa aprovação na classe média

Os insultos da torcida à presidenta no jogo de abertura expõem a fragilidade de seu Governo no Estado com a maior oposição do país

A presidenta Dilma (de verde) no jogo de abertura da Copa.
A presidenta Dilma (de verde) no jogo de abertura da Copa. EFE

Nem o estádio funcionando, apesar de ainda não estar 100% pronto, nem a boa organização da chegada e da saída do jogo de abertura dessa Copa do Mundo foram capazes de fazer com que a torcida se esquecesse da presidenta Dilma Rousseff (PT). Ainda que ela tenha optado por não fazer um discurso de abertura como anfitriã do evento, Rousseff não passou despercebida.

Por um lado, a mídia local exagerou nas comparações, dizendo que Rousseff “chegou ao estádio vestida de verde, cor do Palmeiras, arquirrival do dono do estádio da abertura da Copa”. Assim como o amarelo, o verde é uma das cores da bandeira brasileira. Nada mais natural.

Mas é fato que a torcida não perdoou: Puxou, por três vezes, um coro insultando Rousseff e mandando a presidenta “tomar no cu”. O primeiro coro, foi logo em seguida ao hino nacional, quando os torcedores continuaram cantando à capela, mesmo depois do fim. Em nenhuma das vezes, porém, o coro durou mais do que um minuto. E esse mesmo xingamento já havia acontecido na sexta-feira passada, durante o jogo amistoso entre o Brasil e a Sérvia no Morumbi.

Por três vezes, durante a cerimônia de abertura e o jogo da selação brasileira, parte dos torcedores um coro ofensivo à presidenta. A primeira após ela chegar ao estádio, a segunda depois da execução do hino nacional e a terceira no finalzinho do jogo.

“Uma parte da torcida, mal-educada, mandou a presidenta tomar no c... De certa forma, perdeu o encanto”, contou o jornalista esportivo brasileiro Juca Kfouri, em seu blog. “Essa é a lição de cidadania que se dá na frente dos filhos? Isso em um Estado que nunca fez isso com o Paulo Maluf”, disse Kfouri, um pouco mais tarde, para a ESPN, se referindo ao ex-prefeito de São Paulo, preso em 2005 por corrupção e atualmente procurado pela Interpol.

Uma parte da torcida, mal-educada, mandou a presidenta tomar no c... De certa forma, perdeu o encanto

Juca Kfouri,  jornalista esportivo

Nesta sexta-feira, Rousseff respondeu às perguntas sobre o ocorrido. "Podem contar que isso não me enfraquece", disse ela. "Não vou me deixar perturbar por agressões verbais. Não vou me deixar, portanto, atemorizar por xingamentos que não podem ser sequer escutados pelas crianças e pelas famílias", afirmou ela sob aplausos, em um evento na capital do país.

Independentemente do quanto ela se sentiu afetada, a população paulista parece manifestar oposição muito mais em âmbito federal do que em âmbito municipal ou estadual. O Estado de São Paulo é, há 20 anos, governado pelo PSDB, partido de maior oposição ao PT de Rousseff. E, de acordo com última pesquisa do instituto Datafolha, a administração tucana pode continuar pelos próximos quatros anos no Estado, já que o governador Geraldo Alckmin possui 44% das intenções de voto. “O público daquele estádio tem um perfil de renda com alta rejeição a presidente”, comenta o sociólogo Marcos Vinicius Pó, professor da Universidade Federal do ABC.

Enquanto os torcedores, em sua esmagadora maioria brancos e de classe alta, manifestavam seu descontentamento contra a presidenta dentro do estádio, do lado de fora, a alguns quilômetros de distância, um protesto culminava com uma jornalista da CNN ferida em um tumulto entre os manifestantes e a Polícia Militar.

O ato ocorreu na porta do sindicato dos metroviários, categoria que acaba de sair de uma greve de cinco dias de duração. A tensão nas negociações foi tamanha que, apenas na noite da véspera da Copa a categoria decidiu que não retomaria a paralisação do metrô, o meio de transporte que mais foi usado para a chegada ao estádio. Ainda que a Polícia Militar e o metrô sejam administrados pelo Estado, o descontentamento dentro do Itaquerão era claramente apenas com o governo federal.

A dúvida que fica é se o coro da torcida em ofensa a Rousseff será repetido em outros estádios além do paulista. Na região sudeste do país, a presidenta tem 26% das intenções de voto, segundo o Datafolha; Na divisão por renda, os eleitores do PT se encontram nas camadas mais pobres. Na próxima terça-feira, quando o Brasil enfrentar o México em Fortaleza, vai ser possível medir a temperatura para além da “má-educação” dos paulistas.

O público daquele estádio tem um perfil de renda com alta rejeição a presidente

Marcos Vinicius Pó, sociólogo, professor na UFABC

Vaias passadas

Outros presidentes brasileiros já sofreram recepções hostis a participarem de eventos esportivos. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, foi hostilizado com vaias na abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007. Porém os efeitos políticos gerados pela Copa do Mundo são incomparáveis. As manifestações catalisadas pelo evento, que começaram em junho do ano passado, ajudaram a avaliação da petista a despencar em queda livre. Rousseff passou da presidenta mais bem-avaliada da história para um cenário em que institutos de pesquisa como o Ibope cravam a necessidade de ela enfrentar um segundo turno em sua campanha à reeleição.

Mais importante para a popularidade da mandatária, do que Neymar e companhia erguerem a taça, é o evento terminar sem grandes transtornos. Para Marcos Vinicius Pó, os problemas de infraestrutura ou segurança durante o evento devem, sim, se refletir nas urnas. Caos nos aeroportos, dificuldade de acesso aos estádios e aumento da criminalidade, além de protestos agressivos, podem atingir duramente a imagem de gestora da presidenta e demonstrar um despreparo do governo apesar de bilhões de reais investidos.

Se a Copa do Mundo derrubou a sua popularidade, o evento deve, por outro lado, dar uma ajuda para presidenta, diz o analista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria. Com as atenções dos brasileiros voltadas para a bola, os candidatos oposicionistas Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) terão menos tempo para mostrarem suas ideias ao público. “Isto será um problema para as duas campanhas, pois eles ainda são pouco conhecidos do eleitorado ”, comenta Cortez.