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A disputa entre vices marca a campanha presidencial brasileira

Um levantamento mostra crescimento de 6% dos opositores da presidenta Dilma a depender dos colegas de chapa escolhidos. O segundo turno ocorreria em todos os cenários

Dilma Rousseff cai em pesquisa.
Dilma Rousseff cai em pesquisa. REUTERS

Os vices assumiram papel de protagonistas na eleição presidencial do Brasil deste ano. É o que aponta pesquisa do instituto Ibope divulgada nesta terça-feira. Segundo o levantamento, os candidatos oposicionistas chegam a crescer juntos até 6%, dependendo do companheiro de chapa apresentado. A presidenta Dilma Rousseff, no entanto, apresenta queda. Com margem de erro de dois pontos percentuais, o levantamento foi encomendado pela União dos Vereadores do Estado de São Paulo (Uvesp).

As intenções de voto de Eduardo Campos, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), crescem, por exemplo, de 13% para 18% quando os entrevistados tomam conhecimento que a ambientalista Marina Silva será a sua vice. O senador Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), sobe de 22% para 23% em um cenário no qual divide as urnas com o correligionário José Serra, ex-governador e ex-prefeito de São Paulo. Já a presidente Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), oscila de 38% para 37% ao ser apresentado o companheiro de chapa Michel Temer, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), seu atual vice desde 2011.

Todos os cenários divulgados pela pesquisa reforçam a trajetória de queda da presidenta e, pela primeira vez, apontam a possibilidade real de segundo turno. Isso porque a soma das intenções de voto dos adversários é superior à de Rousseff.

Para o cientista político Cláudio Couto, a importância dos vices nesta eleição se dá, principalmente, pelo efeito Marina. A ambientalista possui um capital político maior do que o do governador Eduardo Campos, acumulado com o resultado do último pleito presidencial. “Quando a gente olha para trás, não vemos vices com esta envergadura de votos”, contextualiza. Tradicionalmente, os vices só se tornaram de conhecimento do grande público no Brasil em casos de exceção.

Foi assim quando Getúlio Vargas (1954) e Tancredo Neves (1985) morreram, Jânio Quadros renunciou em 1961, e Fernando Collor sofreu o impeachment, em 1992. Os respectivos sucessores ganharam protagonismo da noite para o dia. Não à toa, analistas políticos costumam dizer que o vice bom era aquele que não atrapalhava.

Apesar de garantir votos preciosos, a aliança com Marina Silva traz também dor de cabeça ao ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos. A ambientalista e seu grupo político, que migraram ao PSB após não conseguirem fundar a própria sigla, vivem em rota de colisão com lideranças socialistas. Exigem o lançamento de candidaturas próprias em estados estratégicos ao preço de abandonarem os palanques estaduais.

Em São Paulo, os sonháticos - como se intitulam os partidários de Marina - cobram que o PSB lance candidatura própria. Distanciando-se, assim, da chapa à reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB). “Desde já, deixamos clara nossa posição de que, caso essa indicação não seja revertida, seguiremos caminho próprio e independente em São Paulo", declarou Marina em nota. A pressão revolta lideranças estaduais da sigla, integrante do governo tucano. O mesmo movimento se repete em outros palanques, a exemplo de Minas Gerais.

Ganhar tempo para definir o vice é a palavra de ordem entre os tucanos. A sigla e seu candidato, o senador Aécio Neves, trabalham com três cenários. O primeiro é de oferecer a vaga como barganha para atrair uma legenda da atual base de sustentação de Dilma Rousseff. Entre os alvos estão o Partido da República (PR), o Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Progressista (PP).

Caso não obtenham êxito, o PSDB irá recorrer a uma solução caseira. De acordo com o Ibope, se o escolhido for o cearense Tasso Jereissati, o senador mineiro Aécio Neves manteria os 22%. Porém, ao ter um político nordestino na chapa presidencial, a sigla poderia aumentar o seu alcance na região, vital nas três vitórias petistas. Por outro lado, a escolha de um paulista, como o ex-governador José Serra ou o senador Aloysio Nunes, apaziguaria rachas internos da legenda. Os últimos candidatos da sigla à presidência - todos paulistas - reclamam do corpo mole dos mineiros nas disputas de 2002, 2006 e 2010, quando o partido foi derrotado nos pleitos nacionais. Além disto, a composição também aumenta a chance tucana de manter a liderança obtida no Estado de São Paulo – maior colégio eleitoral do país - nos últimos pleitos.