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O Irã e os EUA se reúnem em Genebra para desbloquear a negociação nuclear

É o primeiro encontro bilateral desde os contatos secretos mantidos em Omã, em 2013

A chefe de diplomacia da UE, Catherine Ashton, e o ministro iraniano de Relações Exteriores, Javad Zarif, durante conversa mantida em outubro passado em Genebra.
A chefe de diplomacia da UE, Catherine Ashton, e o ministro iraniano de Relações Exteriores, Javad Zarif, durante conversa mantida em outubro passado em Genebra. AFP

Representantes do Irã e dos Estados Unidos estão reunidos em Genebra hoje, segunda-feira, e amanhã, terça-feira, para destravar as negociações nucleares que serão reatadas na semana que vem em Viena. O fato de ambos terem anunciado a reunião, a primeira bilateral desde os contatos secretos do ano passado em Omã, constitui por si só um pequeno passo à frente em suas relações, congeladas desde a revolução iraniana de 1979. Além disso, indica que os dois Governos têm genuíno interesse em superar as diferenças que ficaram evidentes à medida que se esgota o prazo para um acordo permanente.

A equipe dos EUA está composta pela negociadora-chefe Wendy Sherman, pelo subsecretário de Estado William Burns e por Jake Sullivan, conselheiro de Segurança do vice-presidente Joe Biden, conforme informou no sábado o Departamento de Estado norte-americano. A presença de Burns e Sullivan é altamente significativa, já que eles encabeçaram a delegação secreta que se reuniu em março de 2013 com altos funcionários iranianos em Mascate, ocasião em que foram lançadas as bases para o pré-acordo que em novembro passado desbloqueou uma década de infrutíferas conversações sobre o programa nuclear iraniano.

Segundo os termos do Plano de Ação definido em seguida, as seis grandes potências (EUA, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha) e a República Islâmica têm até 20 de julho para alcançar um acordo que convença as primeiras de que o Irã não tenta fabricar armas nucleares, mas ao mesmo tempo satisfaça a aspiração iraniana de desenvolver sua própria energia atômica. A importância desse resultado ficou patente hoje durante a visita que o presidente Hasan Rohani realiza à Turquia, onde tornou a insistir no “direito de todo país” à tecnologia nuclear pacífica.

Os Seis tentam limitar o programa de Teerã, aumentando o tempo que seria necessário para o Irã fabricar uma bomba. Em troca, oferecem suspender as sanções internacionais com as quais vêm castigando a recusa iraniana em cumprir as resoluções do Conselho de Segurança. Entretanto, quando resta apenas um mês para negociar, ambas as partes continuam tendo posturas muito distantes sobre o alcance que o projeto nuclear iraniano poderá ter no futuro.

Embora o conteúdo do diálogo seja secreto, revelou-se que o Irã tenta conseguir uma capacidade de enriquecimento de urânio (o processo que gera o combustível tanto para as centrais nucleares como, com um maior nível de pureza, para as armas) muito acima do que as potências consideram aceitável. Além disso, Teerã rejeita o ritmo que seus interlocutores propõem para suspender as sanções, que se estenderia por 10 a 20 anos. Também quer limitar o tempo durante o qual precisará se submeter a inspeções extraordinárias dos inspetores da ONU.

“As seis potências têm que tomar decisões difíceis para alcançar um acordo final”, declarou o vice-ministro iraniano de Relações Exteriores, Abbas Araghchi, ao chegar a Genebra à frente da delegação de seu país.

Em um sinal de como é delicado para os iranianos o corpo a corpo com os EUA, Araghchi declarou no domingo que se tratava na verdade de “uma [reunião] trilateral, porque conta com a presença de Helga Schmidt”, a número dois de Catherine Ashton, a chefa da diplomacia europeia. Ashton, cujo porta-voz confirmou essa informação, age como coordenadora das seis grandes potências nas conversações nucleares. Araghchi anunciou além do mais que manterá uma reunião similar com os negociadores russos a partir de quarta-feira em Roma.

Mas todas as ressalvas não evitam a realidade de que iranianos e norte-americanos sentiram a necessidade de explorar juntos como sair do ponto morto ao qual chegaram as negociações. Embora o Plano de Ação contemple a possibilidade de estendê-las por mais seis meses, existe a convicção de que isso não ajudaria. Além disso, Ashton conclui seu mandato em outubro próximo, e também Burns anunciou que planeja se aposentar no mesmo mês, o que acrescenta certa urgência a concluir a missão em julho.

Existe o risco de que a reunião de Genebra desperte nos demais países envolvidos, particularmente a França, a suspeita de que Washington e Teerã tentam alcançar um acordo bilateral que não levaria em conta algumas das suas preocupações. Entretanto, porta-vozes norte-americanos asseguraram à imprensa de seu país que o objetivo da reunião é dar um impulso às negociações, não substituí-las. O resultado será visto a partir da próxima segunda-feira, quando todos voltarão a se encontrar em Viena para, se tudo correr bem, discutir um rascunho final.

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