Os bispos do Brasil distribuirão documento com críticas à Copa

Entre as falhas apontadas, estão "a remoção de famílias e comunidades e a falta de respeito à legislação trabalhista"

Protesto no Rio no dia 30 de junho.
Protesto no Rio no dia 30 de junho. YASUYOSHI CHIBA (AFP)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), máximo órgão da hierarquia católica do país com o maior número de fiéis do mundo, distribuirá nas 12 cidades que sediarão o Mundial de Futebol um documento com duras críticas ao que eles chamam de “erros da Copa”.

Organizado pela Pastoral do Turismo da CNBB em razão da Copa do Mundo, o documento (disponível no site da instituição) enumera um rosário do que os bispos consideram uma das falhas no desenvolvimento do importante evento esportivo, entre elas, por exemplo, “a remoção de famílias e comunidades e a falta de respeito à legislação trabalhista”, assim como “a apropriação do esporte por entidades privadas e grandes corporações às quais os governos estão delegando responsabilidades públicas”, ou também “a inversão de prioridades no uso do dinheiro público que deveria servir, sobretudo, para a saúde, transporte, educação e segurança pública”.

Segundo Dom Anuar Battisti, da Pastoral do Turismo, a Igreja Católica do Brasil quis com esse documento, que será distribuído em português, inglês e espanhol não apenas nas igrejas, mas também em hotéis, aeroportos e até em restaurantes, “marcar presença no acontecimento [da Copa] para destacar o que nós condenamos”.

Entre as preocupações dos bispos, estão a situação que os cidadãos que moram nas ruas poderão sofrer, que poderiam ser removidos e até correr risco de morte.

“Que os moradores dos bairros populares e dos que vivem nas ruas tenham a permanência em suas localidades e a preservação de suas vidas garantidas, assim como todos os brasileiros e turistas”, afirma o panfleto. Os bispos torcem para que a Copa também possa trazer resultados positivos para o país como o fim de problemas como a exploração sexual e o trabalho escravo.

Os bispos defendem que “não sejam discriminadas as manifestações públicas dos movimentos sociais, assim como o respeito aos torcedores do futebol”. O documento conclui com a afirmação de que os bispos “condenam os erros da Copa”, mas desejam ao mesmo tempo que “seja realizada em paz”.

Ainda não existem reações oficiais sobre a decisão dos bispos brasileiros que se colocaram abertamente ao lado dos chamados críticos da organização da Copa. Autoridades da Igreja Católica consultadas por este jornal quiseram destacar que um documento desse tipo talvez não fosse viável sem o momento de maior aproximação com o mais pobres e com as causas sociais instituído pelo Papa Francisco, que pediu aqui no Brasil que os bispos deixassem de ser “príncipes” para ir ao encontro dos mais desfavorecidos.

Essas mesmas autoridades afirmam que os bispos não teriam tomado essa decisão sem que antes o Papa Francisco tivesse conhecimento de seu conteúdo e da vontade dos bispos de torná-lo público e distribuí-lo nas cidades da Copa.

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