Michael Reid | jornalista britânico

“As eleições no Brasil estão muito abertas e qualquer candidato pode ganhar”

O jornalista britânico da revista 'The Economist' sustenta que o país tem que fazer reformas "se quiser crescer mais de 2% ao ano"

Michael Reid em entrevista nesta quarta-feira em Madri.
Michael Reid em entrevista nesta quarta-feira em Madri.julian rosas

O jornalista britânico Michael Reid (Guildford, 1952) dedicou toda a sua vida à América Latina. Atravessou o continente como correspondente do jornal The Guardian e da BBC durante os anos 80, mas passou grande parte de sua carreira na revista semanal inglesa The Economist, onde começou a trabalhar em 1990. Foi correspondente da revista no México até 1994 e em São Paulo entre 1996 e 1999. Foi também o editor de América da revista até dezembro do ano passado e publicou em 2007 o livro Forgotten Continent: The Battle for Latin America's Soul (O continente esquecido. A batalha pela alma da América Latina), uma das obras de referência sobre a região.

Mudou-se há alguns meses para Lima (Peru) e acaba de publicar sua nova obra, Brazil. The troubled rise of a global power (Brasil. A ascensão problemática de uma potencia global), que estará disponível em português a partir de setembro deste ano. De visita a Madri, conversou nesta quarta-feira com EL PAÍS sobre o gigante sul americano e palco da Copa do Mundo de 2014. Sobre as eleições presidenciais de outubro, assegura: “Estão muito abertas, qualquer candidato pode ganhar”.

Pergunta. O ex-presidente Lula costuma dizer que os protestos se devem ao fato de que os brasileiros ascenderam socialmente e agora querem mais. A oposição diz que a população já não aguenta mais a corrupção do governo. Por que protestaram?

Resposta. Lula tem razão em parte. O povo está menos preocupado com o emprego e a inflação do passado. E ainda que houvessem muitas bandeiras defendidas, os protestos eram por serviços públicos melhores. Principalmente saúde, educação e transporte, mas também contra a corrupção do sistema político e as prioridades equivocadas do gasto público, simbolizadas pelo Mundial.

P. Os protestos a poucos dias da Copa são uma continuação das manifestações de junho, ou se trata de um pequeno grupo que quer causar ruído?

R. É uma evolução. O descontentamento continua igual. Mas o ativismo mudou a sua forma. São grupos mais reduzidos e, em alguns casos, também mais violentos. Acredito que veremos mais protestos durante a Copa, mas não na escala de junho do ano passado.

P. Mas apesar dessa insatisfação, as pesquisas de intenção de voto mostram que a oposição não entusiasma. Podem ganhar as eleições em outubro?

R. Nesse momento o que sabemos é que existe um grande descontentamento e um desejo por mudança. Acredito que vai ser mais difícil para a Dilma. É verdade que a oposição não entusiasma e que Dilma pode ganhar por isso. Mas é verdade também que os candidatos da oposição são menos conhecidos e, no Brasil, reconhecer o nome de um candidato é algo muito importante. As eleições estão abertas e haverá um segundo turno. E quaisquer dos três principais candidatos podem ganhar.

P. No seu livro você menciona a ideia de que não existem esquerda e direita no Brasil, mas sim “modernizadores” e “arcaicos”. É essa a batalha nas eleições de outubro?

R. Foi uma tragédia pro Brasil que, do grande movimento democrático contra a ditadura centrado em São Paulo, tenham surgido duas forças políticas modernizadoras que tenham que buscar os partidos arcaicos para poder governar. [O PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) e do candidato Aécio Neves; e o PT do ex-presidente Lula (2003-2011) e da presidenta Dilma Rousseff] Lutaram juntos contra a ditadura militar (1964-1985), mas por causa da evolução política representam hoje os dois principais polos partidários do país. E ambos foram obrigados a formar alianças com partidos arcaicos, clientelistas. O Brasil conseguiu fazer a democracia com o chamado “presidencialismo de coalizão”, mas este modelo se desvirtuou e tem custos muito grandes. O principal exemplo disso é que Dilma tem um gabinete com 39 ministros. O próximo governo deverá fazer uma reforma política. É necessário reduzir o número de partidos para dar mais coerência e reduzir os custos do sistema.

P. Quais são as outras reformas que o Brasil necessita?

R. É necessário ganhar novamente credibilidade macroeconômica. Não houve um desastre na condução macroeconômica, mas tiveram que aumentar as taxas de juros mais do que era necessário para controlar a inflação, por exemplo. É necessária também uma reforma dos gastos públicos, para que se gaste mais no que a sociedade demanda, como em saúde, educação, segurança e transporte público. O que está em jogo é se o Brasil vai continuar crescendo a 2% ao ano esperando os resultados do Pré-Sal, transformando-se logo em uma economia petrolizada; ou se vão fazer as reformas necessárias para que possa crescer a 4% ou 5%.

P. Em que se diferenciam os principais candidatos da oposição da presidenta Dilma?

R. Aécio Neves reivindica as reformas de Fernando Henrique Cardoso mais que os anteriores candidatos do PSDB. Se ele ganhar, acredito que haverá uma condução mais ortodoxa da economia, mais responsável para os mercados. Eduardo Campos e Marina Silva, do PSB, parecem ser uma opção mais de centro. Não tem muita diferença com o Aécio com relação à economia. A principal pode ser na área social e ambiental. Mas se Dilma ganhar, haverá ajustes de qualquer maneira.