CONFLITO NA SÍRIA

Assad consegue outra vitória esmagadora nas eleições sírias

O atual presidente obtém 88,7% dos votos Foi o primeiro pleito em 50 anos a contar com mais de um candidato

Comemoração em Damasco após a vitória de Assad.
Comemoração em Damasco após a vitória de Assad.LOUAI BESHARA (AFP)

A autoridade eleitoral síria atribuiu ao presidente Bashar al-Assad uma contundente vitória nas eleições da terça-feira, realizadas em meio a uma guerra civil que está assolando o país. O resultado foi tão espetacular como se esperava: 88,7% para o presidente; 4,3% para o candidato liberal Hassan al Nuri; e 3,2% para o comunista Maher Hayar. Depois da divulgação do resultado na quarta-feira à noite (horário local), centenas de pessoas saíram às ruas de Damasco para celebrar o resultado com foguetes, bandeiras e tiros para o alto. É a primeira vez que o chefe de Estado se candidata em eleições com postulantes alternativos. Ele preside a Síria desde que o seu pai e antecessor no cargo, Hafez al-Assad, morreu em 2000. Assad pediu aos sírios que se evitassem comemorar atirando para o alto como de costume no Oriente Médio. O presidente reeleito advertiu que “a alegria pela vitória não justifica que a vida de civis seja colocada em risco”.

Três pessoas morreram em consequência dos tiros para o alto nas comemorações

A guerra civil que assola a Síria desde 2011 já deixou mais de 160.000 mortos, a maioria delas civis. Grandes cidades históricas como Homs e Aleppo, bem como consideráveis partes da capital, Damasco, estão arrasadas. A disputa já desabrigou quase 10 milhões de pessoas, dos quais três milhões tiveram de abandonar o país. Embora esteja longe de controlar todo o território nacional, o regime conquistou enclaves cruciais, como Homs e os territórios adjacentes. A velha metrópole tem bairros inteiros convertidos em escombros. Na capital podem ser ouvidos disparos regulares de artilharia pesada, que castiga os grupos insurgentes nas periferias. Os rebeldes, por sua vez, bombardeiam as comunidades governamentais com morteiros que matam indiscriminadamente pedestres, motoristas, soldados ou estudantes.

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Durante um bom tempo após a divulgação da vitória, o centro de Damasco entrou em um colapso com carros e manifestações de euforia nas quais se amontoavam os disparos para o alto de pistolas, fuzis automáticos e, a julgar pelos estampidos, rajadas de armas automáticas de maior calibre. Esses tiros deixaram três mortos, segundo informou o diretor do Observatório Sirio de Direitos Humanos, Rami Abdel Rahmane. Uma dessas vítimas é um jornalista da TV por satélite Al Itijah, informa a agência EFE. O presidente Assad expressou seu descontentamento pedindo a seus simpatizantes que “expressem seus sentimentos nacionais de formas que reflitam melhor nossos valores morais e civilizatórios como sírios”. Nas eleições anteriores, nas quais era candidato único, obteve resultados próximos a 100%.

As eleições da terça-feira receberam críticas internacionais. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, pediu ao Governo que não realizasse as eleições e que buscasse “uma solução política” ao grave conflito. Da Europa também chegaram opiniões críticas à "paródia democrática", como classificou o Conselho da União Europeia.

Assad, cuja imagem enfeita vitrines, postes e torres de edifícios em todo o país, explicou há poucos meses que os seus generais perceberam um “ponto de inflexão” na guerra, que faz dois anos se inclinava em favor dos rebeldes. Divididos e combatidas entre si, as facções perdem terreno e credibilidade ante uma população síria esgotada por dois anos de destruição.