Controles severos, caros e lentos

Depois de descartar um laboratório do Rio, a FIFA decidiu que as análises antidoping do Mundial serão feitas em um laboratório de Lausanne, na Suíça

Treino da seleção inglesa.
Treino da seleção inglesa.

Se Diego Armando Maradona fosse vinte anos mais jovem e jogasse neste mês o Mundial do Brasil no lugar do dos Estados Unidos, seu célebre uso de efedrina não o impediria necessariamente de jogar outra partida. A decisão tomada em novembro passado pela FIFA de transportar as análises médicas em avião até um laboratório de Lausanne (Suíça) para efetuar "os controles antidoping mais severos da história do esporte" poderá ter a paradoxal consequência de que um jogador suspeito participe sem restrições da partida seguinte de sua seleção, segundo confirmou nesta semana o chefe do comitê médico da FIFA, Michael D'Hooghe, à agência Bloomberg. "Seremos capazes de chegar na maioria dos casos, mas não estou seguro que em todos", afirmou este especialista belga em medicina esportiva.

As complicações surgiram depois da falta de adaptação mostrada pelo laboratório brasileiro designado inicialmente: LADETEC, no Rio de Janeiro (o mesmo cuja acusação de doping ao ex-jogador Deco no ano passado foi revogada há alguns dias pela Justiça Desportiva. O centro não conseguiu cumprir no ano passado os padrões exigidos pela Agência Mundial Antidoping, depois de repetidos testes, o que provocou uma pequena tormenta política entre a FIFA e as autoridades brasileiras. Elas propuseram então que os controles fossem realizados em um novo laboratório que está sendo construindo para os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, mas diante da evidência de que não estaria pronto antes do começo da Copa do Mundo, os dirigentes da FIFA decidiram que enviariam ao redor de 1.000 amostras de sangue e de urina ao Laboratório Suíço de Análise de Doping (LAD) antes e durante a celebração do campeonato.

O procedimento terá um custo adicional estimado em 250.000 dólares, além de acarretar potenciais atrasos na aplicação do regulamento FIFA, o que poderia causar conflitos graves nas rodadas finais do torneio. Um representante do laboratório suíço assegurou a este jornal que as instalações estarão abertas durante 24 horas por dia durante a celebração do Mundial, dado que a rapidez é "um fator essencial" para a validade destas provas (as amostras devem ser analisadas durante as 36 horas seguintes a sua extração). Apesar de a FIFA ter realizado provas bem-sucedidas de transporte, as dúvidas acontecem pela dificuldade objetiva de fazer chegar as análises de algumas regiões do Brasil, como Manaus, onde jogarão seleções como Inglaterra, Itália ou Portugal, até Lausanne nesse prazo de tempo. São necessários três deslocamentos: Manaus-São Paulo (quatro horas se for voo direto); São Paulo-Zurique (doze horas); e Zurique-Lausanne (por estrada), mais as escalas correspondentes, caso os voos não sejam diretos, além das esperas.

O transporte intercontinental das amostras de sangue e urina não é a única novidade apresentada pelos controles antidoping nesta Copa do Mundo. Pela primeira vez na história, os 736 jogadores participantes foram examinados antes de que rode a bola. Desde o último mês de março os médicos e enfermeiras da FIFA têm visitado partidas internacionais e concentrações de seleções, recolhendo amostras dos jogadores. "Podemos examinar qualquer um, em qualquer momento e local, quantas vezes for preciso", disse Jiri Dvorak, o chefe de Medicina da FIFA, em uma recente entrevista.

Além disso, o torneio acontece ao mesmo tempo em que é implementado um novo conjunto de regras que pretende lutar contra a sofisticação do doping e que, entre outras medidas, conserva as amostras humanas durante dez anos. Os jogadores serão submetidos a análises antes, durante e após o campeonato; ao final de cada partida haverá a análise de quatro jogadores, dois de cada seleção. O rigor dos exames fez a seleção mexicana anunciar há algumas semanas que seus jogadores não comeriam carne de vaca até o fim do Mundial para evitar problemas com o clembuterol, um estimulante proibido que às vezes se mistura com a alimentação do gado para acelerar seu desenvolvimento.

No ano passado, foram registrados casos de doping que envolveram jogadores internacionais do Peru, Taiti, Marrocos e Jamaica. Na página oficial do órgão que rege o futebol mundial se informa de que a maconha e a cocaína (de uso recreativo) representam a maior parte dos casos descobertos nos últimos anos.