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Os talibãs libertam um militar dos EUA mantido refém por quase cinco anos

Em troca, Washington trasladará ao Catar cinco afegãos presos em Guantánamo

Imagem do sargento Bergdahl em um vídeo dos talibãs de 2010.
Imagem do sargento Bergdahl em um vídeo dos talibãs de 2010. AFP

O último prisioneiro de guerra norte-americano que os talibãs mantinham como refém no Afeganistão foi entregue neste sábado, depois de cinco anos de cativeiro, às tropas dos Estados Unidos no país asiático, em troca da colocação em liberdade de cinco presos afegãos presos em Guantánamo. O sargento Bowe Bergdahl, nascido em Ohio, tinha 23 anos quando desapareceu em 30 de junho de 2009 no leste do Afeganistão, na província de Paktika, perto da fronteira com o Paquistão.

O anúncio da libertação do sargento foi feito pouco depois de o presidente Barack Obama informar os pais do soldado que seu filho estava seguro em uma base norte-americana no Afeganistão. “Foi uma honra para mim telefonar para os seus pais para dizer que podem esperar um retorno feliz de seu filho para casa, e dizer que estava ciente do sacrifício e do sofrimento pelo que passaram”, expressou Obama, através de um comunicado da Casa Branca.

Bowe Bergdahl, antes de sua captura pelos talibãs.
Bowe Bergdahl, antes de sua captura pelos talibãs. EFE

“A recuperação do sargento Bergdahl é um lembrete do compromisso inquebrantável dos Estados Unidos de não deixar nenhum homem ou mulher de uniforme para trás, no campo de batalha”, concluiu o presidente. O secretário de Defesa, Chuck Hagel, confirmou ter informado o Congresso norte-americano da decisão de transferir para o Catar cinco presos de Guantánamo. Segundo disse Hagel, Washington coordenava com o país árabe a entrega dos cinco de forma que o Governo de Doha garantisse o cumprimento das medidas de segurança necessárias para que a segurança dos EUA não seja comprometida em nenhum momento. Os réus afegãos tinham previsão de voar para Doha ainda neste sábado.

Hagel assegurou em um comunicado que o sargento Bergdahl, de 28 anos, receberá “todo o apoio de que necessite”. O departamento de Assuntos dos Veteranos vive há semanas uma profunda crise, que, nesta sexta-feira, custou o cargo de seu responsável direto, Eric Shinseki, depois do estouro de um escândalo devido à morte de mais de 40 veteranos durante o ano passado enquanto estes esperavam ser atendidos em um hospital do Arizona.

O militar, de 28 anos, foi capturado no final de junho de 2009 no leste do Afeganistão, menos de dois meses após a sua chegada no país asiático

O general Martin Dempsey, chefe do Estado-Maior Conjunto, também deixou clara a sua satisfação pela libertação do refém, ao declarar que a filosofia do Exército dos EUA é “não deixar nunca para trás um colega caído”. “Hoje voltamos a ter em nossas fileiras o último prisioneiro que continuava capturado por nossos conflitos no Iraque e no Afeganistão”, finalizou o general.

Estima-se que cerca de 20 soldados norte-americanos nunca tenham retornado das guerras do Iraque e do Afeganistão, tidos como mortos. Ao todo, 10 soldados foram feitos prisioneiros de guerra em todos esses anos de conflito e 10 foram libertados, o último deles hoje.

Sem muitos detalhes conhecidos até o momento, sabe-se apenas que a entrega do refém foi efetuada em algum ponto do Afeganistão por 18 talibãs às Forças Especiais norte-americanas. Uma vez que o sargento estava a salvo a bordo de um helicóptero norte-americano, ele escreveu em um papel –como não podiam ouvir o que dizia pelo estrondo do aparelho– as seguintes iniciais seguidas de um ponto de interrogação: “SF?”, segundo um relato oferecido pelo Pentágono. O que o soldado queria saber era se os seus resgatadores pertenciam às Forças Especiais norte-americanas. Foi então quando outro soldado respondeu a todo volume: “Sim, estávamos buscando você durante muito tempo”. Nesse momento, e sempre segundo a pasta da Defesa, o sargento Bergdahl começou a chorar.

Acredita-se que o sargento tenha ficado todo esse tempo nas mãos da rede Haqqani, uma facção radical dos talibãs, em uma área tribal no noroeste do Paquistão, na fronteira com o Afeganistão. Mas as circunstâncias de como se separou de sua unidade e foi capturado sempre foram um mistério. Bergdahl se alistou no Exército em 2008 movido pela vida de aventuras e excitação que ele achava que o aguardava entre os militares. Mas logo se desencantou com o uniforme.

Segundo o perfil que o jornalista Michael Hastings fez dele na revista Rolling Stone, “o sargento passava mais tempo com os afegãos que com a sua patrulha”, segundo explicou a Hastings um dos colegas de Bergdahl. O tempo do sargento no Afeganistão não foi fácil. Em um e-mail que enviou a sua família se queixava do que via a cada dia e de como os americanos tratavam os afegãos. Na opinião dos pais do sargento, o fato de ele acompanhar a forma como um veículo norte-americano atropelava uma criança afegã pode ter feito com que visse a guerra de forma diferente, sob outra perspectiva.

O pai de Bergdalh nunca quis especular se seu filho desapareceu após abandonar o seu posto durante uma operação contra a insurgência, como disseram os militares inicialmente, ou se ficou para trás e foi capturado, como o mesmo Bergdahl contava em um vídeo emitido um mês após ser feito refém.

Os esforços para se negociar a libertação de Bergdahl começaram no final de 2010, em paralelo com os primeiros contatos com os talibãs. Bergdahl tornou-se uma peça decisiva no diálogo de paz com os talibãs, e que se desenvolveu no Catar.

Em uma conversa por telefone, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, comunicou neste sábado a libertação ao presidente afegão, Hamid Karzai, e detalhou ao líder asiático a estratégia de saída das tropas norte-americana anunciada por Obama. Kerry reiterou ainda que Washington seguirá apoiando os passos que melhorem o clima de entendimento entre os afegãos para que derivem em um processo de reconciliação, segundo informou o Departamento de Estado.