“Os brasileiros têm mais coisas para fazer do que ir a uma partida de futebol”

Para o jogador, os protestos continuarão, mas não vão afetar a Copa do Mundo. "O Brasil continuará sendo o país do futebol"

O jogador Lúcio, em treino do Palmeiras.
O jogador Lúcio, em treino do Palmeiras. Cesar Greco / Ag. Palmeiras

Aos 36 anos, o zagueiro central Lúcio aplica hoje no Palmeiras o que aprendeu durante uma década na Europa, primeiro na Alemanha (Bayer Leverkusen e Bayer de Munique) e depois na Itália, onde foi elemento indispensável do esquema ultra-defensivo que levou a Inter de Milão de José Mourinho a ganhar a Liga dos Campeões, em 2010, após vencer semifinais contra o Barcelona de Guardiola que passaram para a história como representação ideal de dois estilos de jogo opostos. Zagueiro firme, porém não muito técnico, de poucas palavras, Lúcio é lembrado pela sua permanente tensão competitiva e pelas disparadas ao ataque, conduzindo a bola desde sua área, que faziam subir a pressão arterial de treinadores e torcedores. Disputou três mundiais e ganhou um (em 2002), formando dupla de zaga com Roque Júnior em uma seleção treinada, como hoje, por Luiz Felipe Scolari.

Pergunta. Que semelhanças e diferenças vê entre a seleção de Felipão de 2002 e a de hoje?

Resposta. Hoje não faço parte, por isso é difícil falar. Em 2002 a chave foi a união do grupo, a força que todos os jogadores colocavam para apoiar a seleção ao máximo. Este era o espírito da seleção, e foi o mais importante.

P. Mais relevante que o talento futebolístico?

R. A qualidade dos jogadores é essencial, e isso o Brasil sempre teve, mas a concentração durante a competição é decisiva. O Mundial é uma competição curta, sem margem de segurança. As partidas são ganhas pelas equipes que estão concentradas 100% durante os 90 minutos. Os fatores principais para ser campeão serão a concentração e a disciplina do jogador.

P. A seleção brasileira vive uma situação paradoxal: se destaca, sobretudo por sua defesa e deixa algumas dúvidas sobre o verdadeiro potencial do ataque. A seleção pode sofrer por conta disso?

R. A situação de agora é diferente, sem dúvida, porque há uma geração nova de jogadores. Mas leve em consideração que cada Copa é jogada em um momento distinto, não podem ser comparadas entre si. A diferença principal é que o Brasil jogará em casa, isso ajuda muito o jogador.

P. Isso a transforma em favorita?

R. Sim... O fato de jogar em casa, ao lado de sua torcida, há faz a principal favorita. Depois, para mim, vem Alemanha e França, e também Argentina. Messi é um jogador espetacular, uma arma fortíssima para a Argentina. Mas o futebol é um esporte coletivo, e o importante é que toda a equipe esteja bem. Por exemplo, Portugal, sem Cristiano Ronaldo, precisa formar uma equipe forte, porque não adianta depender de um jogador; é preciso a ajuda de toda a equipe.

P. Existe algum outro jogador que você acredita que possa ser decisivo em momentos chave?

R. Quase todo mundo fala de Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo, mas eu conheço Franck Ribéry [jogaram juntos no Bayern] e é um excelente jogador que, se a França estiver bem, pode fazer a diferença.

P. Como vê o clima das ruas e a evolução dos protestos sociais em seu país?

R. Creio ser algo normal e compreensível. O povo sofre muito com a necessidade de ter hospitais, escolas. E o Governo gastou muito em estádios. Acredito que as manifestações continuarão: a saúde no Brasil é um caos, a segurança também é um caos. É compreensível que o povo se aborreça e se pergunte por que não este dinheiro não foi investido antes no país. Mas os protestos não vão afetar a Copa.

P. Os campeonatos regionais do Brasil mostraram este ano um aspecto triste: estádios modernos, novos em alguns casos, mas quase vazios. Qual é seu diagnóstico sobre a crise do futebol brasileiro?

R. A causa principal é que o povo está aborrecido. O Governo investe muito dinheiro em estádios no lugar de fazê-lo em outras coisas. Aqui o povo não vê o futebol como na Europa... Quando estava na Alemanha não havia preocupações como a saúde ou a insegurança, que aqui são permanentes. A população tem coisas mais importantes para fazer do que ir a um estádio e ver um jogo. (Mas no Mundial estarão lotados, com certeza).

P. O Brasil seguirá sendo “o país do futebol”?

R. Sim, especialmente se depois da Copa o Governo decidir investir em educação, escolas e segurança. O Brasil seguirá sendo o “país do futebol”.

P. Qual foi o melhor jogador que você teve de marcar em sua vida?

R. Messi. É o melhor jogador que já enfrentei.