DE FRENTE COM VICENTE DEL BOSQUE

“Acredito nos políticos. Alguém tem de resolver isto”

Treinador da seleção espanhola de futebol. Ganhou um Mundial e tem outro pela frente

Vicente del Bosque na passada semana.
Vicente del Bosque na passada semana.Samuel Sánchez

Como se lida com os egos na concentração? São meninos, todos, do pai e da mãe. Quanto melhor estão, mais sucesso. O melhor é humanizar o grupo, lembrar-lhes que são pessoas simples, vêm daí.

Haverá ciúmes. Só 11 podem jogar e são 23. Ciuminhos existem. Uma concentração sadia é importante. Se lhes é dada uma estratégia esportiva, focam no objetivo e os ciúmes acabam.

Na sua época brigou com alguém? Fiquei alguns anos sem falar com Chupete Guerini, um colega de vestiário. Mas nos arranjávamos, nos vestíamos juntos. No campo éramos o máximo, mas não nos falávamos.

Os rapazes se dão bem agora? São pessoas legais. Agora, os do Barça se sentam juntos no jantar, e os do Madrid também se juntam... Isso já acontecia na minha época. Não é sintoma de nada.

Põe e tira. Que irritante! Não dizem isso. Há educação e respeito. Controlam a irritação, dá pra ver nos rostos de alguns. Todos são titulares. Imagine: vêm e não jogam!

O senhor ficou aborrecido por não jogar na seleção? 1978. Mundial da Argentina. Não fui incluído por Kubala; um dos homens mais generosos do futebol. Não disse nada. É uma dor tremenda.

Não há explicações. Nem quando te colocam nem quando te tiram. E há situações incômodas.

Você fala das pessoas sadias do futebol. Um vestiário sadio vale mais do que cem horas de tática. É bom em qualquer empresa que o empregado esteja contente; no futebol, se os meninos estão contentes, ganhamos.

Ficou emocionado quando, depois do gol de Iniesta, na África do Sul, os reservas o abraçaram. Imagine! Uma final e não tinham jogado! Gente sadia, gente boa...

Dizem que você é afável, decente... Não será santo em tudo! Ninguém na vida deveria ser elogiado por sua bondade. Todos somos imperfeitos. Naturalmente não vou fazer todos os dias exercícios para demonstrar o contrário. Mas é melhor que tenham essa opinião! Também temos nosso mau humor.

Gente sadia ao redor? Os que me rodeiam, minha família; pela deficiência de meu filho Álvaro conheço muita gente neste mundo, e vejo muitíssimos jovens voluntários que se dedicam a ajudar. Dizem que os jovens estão em retrocesso. Não têm consciência do quanto são sadios!

O senhor se irrita? Como todo mundo, mas sei que um olhar basta para expressar isso. Uma bronca em público é um atraso. E, além do mais, a liderança de um cara irritado não leva a nada, não serve para nada. Você tem de convencer.

Com quem se dá mal? Com os jogadores que não forem corretos. O futebol nos deu uma boa posição. Temos que ser mais carinhosos com o futebol.

O comportamento incorreto está também nas redes sociais. Não proibimos nada. Aconselhamos que durante o Mundial não usem, por causa dos mal entendidos; não devemos buscar a tensão. Entendo as redes sociais. Mas o anonimato é cruel, malíssimo!!!! Veja o que disseram dos judeus. Uma barbaridade!

Estava dizendo que os jogadores vêm de origem modesta. O dinheiro os afeta? Eu lhes digo que não se esqueçam de suas origens. Há pessoas de cabeça muito boa, a vida é longa e dá muitas voltas.

No banco não se vê o que o senhor sente. Sou assim. Não posso estar alterado porque tenho de tomar decisões rápidas. E tenho de ser moderado nos gestos. No banco e no campo é preciso fugir da arrogância.

Se a seleção ganha, nossa vida se resolve? Que é isso! O sucesso da Espanha não vai resolver nada para quem estiver em uma situação de dificuldades Parece que tudo é ganhar. Que os rapazes se esforcem é suficiente.

Vamos ganhar? Meu filho Álvaro diz que sim. Na sua inocência isso é possível.

Sente medo? Responsabilidade. O orgulho nos pode prejudicar. Em tudo.

Está cercado de gente sadia. Também na política? Acredito na política, nos políticos. Ganhariam mais no setor privado. Não se deve generalizar sobre seus defeitos. Alguém tem que resolver isto. Alguém tem que resolver.

Está feliz, agora, Del Bosque? Tenho as preocupações da idade. A vida está mais curta, o quilômetro final está perto, não sabemos onde está. Por exemplo: estive em León, com a política que foi assassinada. Ela me levou a um centro de pessoas com deficiências graves; todos a conheciam, ia muito ali; era dura, e a criticavam por isso. Mas era admirável com aqueles garotos. E duas ficam loucas e a matam. É um mundo sem sentido. Como alguém pode ser feliz de todo?

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